No entanto, assim que chegou ao Canil, Átila não demonstrou agressividade. Mas, sim, uma ânsia por carinho e gratidão às pessoas que estavam tão preocupadas com ele. Em um primeiro momento, após o acolhimento, foram prestados os primeiros-socorros e ele foi direto tomar um banho quente, pois seu corpo estava gelado e molhado, e os ectoparasitas – pulgas e carrapatos – foram retirados manualmente. De acordo com Cristiane, ele apresentava várias lesões na pele e, pelo cheiro, provavelmente estava deitado em uma área em que a água que o molhava era oriunda de esgoto.

Brignol destaca a importância de que as denúncias cheguem da forma mais completa possível, para que a fiscalização seja feita de maneira efetiva.
Ele foi vestido e aquecido, pois a sua temperatura corporal era muito baixa. Já a comida e a água foram dadas aos poucos, devido ao fato de estar há muito tempo sem acesso a esses nutrientes. Átila estava, finalmente, alimentado, quentinho e confortável. No dia seguinte, ele foi encaminhado ao Hospital de Clínicas Veterinárias (HCV) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) para receber transfusão sanguínea, a fim de corrigir a anemia e desidratação. Lá, ficou internado até o dia 29 de janeiro de 2021.
À espera da adoção
Hoje, Átila está pesando 19 quilos e é um animal lindo, alegre, ativo, sociável, que se dá bem com todo mundo e brinca com humanos e outros cachorros. Após tanto sofrer com os maus-tratos, ele está feliz, sendo tratado com responsabilidade e zelo, algo que deveria ter sido feito durante a vida toda.
Ele está no Canil Municipal, aguardando por adoção. “É de doer o coração ver que uma pessoa é capaz de deixar um animal chegar nesse ponto. Não tem o que justifique deixá-lo acorrentado, sem conseguir se mexer”, lamentou Cristiane.
Como é a apreensão?
O processo de apreensão por maus-tratos acontece a partir de denúncias, que chegam pela Ouvidoria do Município ou presencialmente, na Secretaria de Qualidade Ambiental. O chefe de Fiscalização, Everton Brignol, explica que os fiscais, então, se deslocam até a residência dos denunciados para constatar a situação e, se configurado crime, aplicar a infração ambiental, que atualmente é de R$ 500,00 por animal. O bichinho é apreendido no mesmo momento da multa e levado ao HCV para receber o atendimento veterinário e passar pelo tratamento necessário. Após os procedimentos, é encaminhado ao Canil, onde entra no processo de adoção responsável.
O caso de Átila foi uma exceção. No dia da apreensão, não foi possível realizar o deslocamento até o Hospital. Optou-se, então, por prestar os primeiros-socorros no Canil, devido ao estado crítico no qual ele se encontrava. Essa decisão foi tomada em consenso com a SQA. “Se ficasse mais uma noite naquela situação, ele talvez não resistisse. Não podíamos deixá-lo mais um minuto naquelas condições”, justificou a veterinária Cristiane, demonstrando a urgência por parte das equipes em cuidar dos animais. Na primeira hora do dia seguinte, ele foi encaminhado ao HCV.
Saiba como denunciar
Brignol destaca a importância de que as denúncias cheguem da forma mais completa possível, para que a fiscalização seja feita de maneira efetiva. “Quanto mais subsídios nós tivermos, maior é o êxito”, afirmou. A denúncia deve ser pelo telefone 156 (Ouvidoria) ou de maneira presencial no prédio da Secretaria de Qualidade Ambiental, localizado na avenida Domingos de Almeida, 1.490.
Na acusação, devem constar:
Tipo de animal e cor da pelagem.
Tipo de maus-tratos praticado pelo tutor (se o animal é privado de alimento e água, se não tem abrigo, se fica amarrado com corrente e impossibilitado de movimento, se ele é agredido pelo tutor, entre outros).
- Quantidade de animais.
- Endereço completo, com número, rua e ponto de referência.
- Horário em que é possível encontrar o tutor do animal.
Ao longo de 2020, foram feitas 271 denúncias e quatro autos de infração foram aplicados. Nos quatro meses iniciais de 2021, já foram registradas 132 denúncias e uma multa.
Visita ao Canil
Recentemente, o gestor responsável pela pasta de Qualidade Ambiental, Eduardo Schaefer, e demais membros da secretaria, visitaram o Canil Municipal. A ida se desdobrou em três aspectos importantes: o primeiro foi avaliar a quantidade de vagas disponíveis para atendimento dos casos de maus-tratos e apreensão de animais. Já o segundo é relacionado à proposta de maior integração entre as secretarias de Saúde e Qualidade Ambiental, já que ambas são responsáveis por tratar da causa animal na cidade.
Por fim, a visita também serviu para tratar sobre o projeto de reforma e ampliação do local, determinado pela prefeita Paula Mascarenhas. Nesse dia, uma equipe técnica colheu informações para elaborar o projeto de ampliação.
Boa vontade da população
Atualmente, 44 cachorros estão abrigados no local, que é gerenciado pela Prefeitura através da Vigilância Ambiental da SMS. Tendo em vista esse cenário, cabe ao Poder Público incentivar a política de adoção e, à sociedade, comprar essa ideia. Apesar do carinho com que os animais são tratados no Canil, é essencial que se consiga dar vazão, após o recolhimento e tratamento.
A situação no Gatil
O Gatil Municipal, que funciona em conjunto com o Canil, está com cinco felinos abrigados e em fase de tratamento. A chefe da Vigilância Ambiental da SMS, Isabel Madrid, esclarece que esses animais foram recolhidos pelo Centro de Controle de Zoonoses da UFPel (CCZ-UFPel), ou seja, nenhum está no local devido aos maus-tratos.
O gatinho Amadeu, que se encontra em um estágio mais avançado do tratamento, em breve estará disponível para adoção, e uma campanha será feita para ele. Isabel adianta que, quem está pensando em adotar, precisa ter em mente que a adoção é um ato que requer muita responsabilidade. É necessário pensar bem e avaliar as condições financeiras e familiares.
“Os animais não vivem só de amor, água ou comida. Eles precisam de cuidados sanitários, incluindo os preventivos, como vacinas, controle de endo e ectoparasitas, e castrações. Eles também podem adoecer e necessitar de tratamentos, cirurgias e internações”, lembra Isabel Madrid.
Ainda, na visão dela, a população está mais sensível e atenta a situações de possíveis maus-tratos aos animais. Ela salienta a importância de recorrer aos órgãos competentes: à Secretaria de Qualidade Ambiental, na esfera administrativa, e à Patrulha Ambiental da Brigada Militar (Patram), na esfera criminal.
A solicitação para atendimento de gatos de rua doentes pode ser feita pelo telefone 3284-7731 (CCZ), de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h30min às 17h30min. O recolhimento ocorre somente mediante confirmação da doença zoonótica com índice alto de transmissão (que pode exigir exame laboratorial), após vistoria técnica.
Informações sobre o local
Endereço: BR-392, km 71, ao lado da Hospedaria de Grandes Animais, perto do viaduto de acesso a Canguçu.
Telefone: (53) 3271-0006.
As visitas aos animais podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h30min, e aos sábados, domingos e feriados, das 9h30min às 16h.