Setor criou 200,4 mil vagas formais entre janeiro e agosto e foi o único entre os grandes segmentos da economia a superar o resultado de 2025. Mas o Rio Grande do Sul registrou saldo negativo


A construção civil mantém um ritmo de geração de empregos acima do observado nos demais grandes setores da economia brasileira. Entre janeiro e agosto de 2026, o segmento criou 200,4 mil postos de trabalho com carteira assinada, saldo 2,7% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Foi o único dos cinco grandes grupamentos econômicos a apresentar crescimento na comparação com 2025.

Os números fazem parte de análise divulgada pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC), elaborada a partir de dados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE.

O desempenho chama atenção porque ocorre em um momento de desaceleração da geração de empregos no conjunto da economia. Até agosto, o Brasil acumulava 1,13 milhão de novas vagas formais, 25% menos do que no mesmo período de 2025. Na construção, porém, o saldo passou de 195,2 mil vagas nos primeiros oito meses de 2025 para 200,4 mil em 2026.

A diferença também aparece na participação do setor na geração de empregos. A construção respondeu por 17,7% de todas as vagas formais criadas no país entre janeiro e agosto, ante 12,9% no mesmo período de 2025. Isso significa que, embora represente cerca de 6,5% do estoque de empregos formais do país, o setor foi responsável por quase um quinto dos novos postos criados no ano.

Agosto reforça desempenho


Somente em agosto, a construção abriu 20.848 postos formais, segundo o Novo Caged. Foi o segundo maior saldo entre os grandes setores naquele mês, atrás apenas dos Serviços, que criaram 110.346 vagas. Indústria e Comércio tiveram saldos de 16.613 e 16.565 postos, respectivamente, enquanto a Agropecuária abriu 1.452.

O resultado de agosto também representou uma alta de aproximadamente 19% em relação ao mesmo mês de 2025. Com isso, o estoque de trabalhadores formais da construção chegou a cerca de 3,15 milhões de vínculos.

O crescimento acumulado do estoque formal do setor, de janeiro a agosto, chegou a 6,79%, quase três vezes o avanço registrado pelo conjunto da economia, de 2,41%.

Construção incorpora 306 mil trabalhadores no trimestre


O avanço não se restringe aos empregos com carteira assinada. Os dados da PNAD Contínua mostram que a construção também foi o setor que mais ampliou a ocupação no último trimestre analisado.

Entre junho e agosto, o número de pessoas trabalhando na construção chegou a 7,69 milhões, um acréscimo de aproximadamente 306 mil trabalhadores, ou 4,1%, em relação ao trimestre anterior. Foi a maior taxa de crescimento entre os grandes grupamentos analisados. Na comparação com o mesmo período de 2025, o avanço foi de cerca de 3%, equivalente a aproximadamente 220 mil pessoas.

O contingente representa cerca de 7,4% de todas as pessoas ocupadas no país. O resultado ocorre em um mercado de trabalho que também apresenta níveis historicamente baixos de desemprego: a taxa nacional ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, a menor para esse período da série histórica iniciada em 2012, segundo a análise da ABRAINC com base na PNAD Contínua.

Mais empregos, mas também maior pressão sobre os custos


O crescimento da ocupação traz um efeito importante para as empresas do setor: quanto maior a demanda por trabalhadores em um mercado com desemprego baixo, maior tende a ser a disputa por profissionais.

A própria análise da ABRAINC aponta que a escassez de mão de obra, especialmente qualificada, já exerce pressão sobre os custos das obras. O componente de mão de obra do INCC-M acumulava alta de 7,1% em 12 meses até julho, acima da variação do índice geral, de 6,4%, e dos materiais, que apresentaram alta de 5,9%.

A situação cria um cenário de dupla face para a construção. De um lado, o elevado nível de ocupação e a expansão do emprego favorecem a renda das famílias e podem contribuir para a demanda por imóveis. De outro, a dificuldade de encontrar profissionais disponíveis aumenta a pressão sobre salários, custos e prazos das obras.

Segundo a ABRAINC, a construção absorveu 306 mil pessoas em apenas um trimestre, enquanto também disputa trabalhadores com obras de infraestrutura. A entidade avalia que a escassez de mão de obra qualificada pode inclusive alongar cronogramas, tornando investimentos em produtividade, industrialização e qualificação profissional cada vez mais relevantes para o setor.

Infraestrutura e habitação ajudam a explicar resistência


A análise identifica dois fatores importantes para a resistência da construção diante da desaceleração geral do mercado de trabalho: o ciclo de investimentos em infraestrutura e o momento favorável do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).

De acordo com a ABRAINC, o desempenho das obras de infraestrutura em um ano eleitoral e o ciclo recorde do MCMV ajudam a explicar por que a construção continua ampliando as contratações enquanto outros segmentos reduzem o ritmo. Em setores como indústria e comércio, os efeitos dos juros elevados já aparecem de maneira mais clara sobre as contratações.

O cenário, entretanto, não significa que o mercado de trabalho esteja acelerando de forma generalizada. O saldo de empregos formais do país nos primeiros oito meses de 2026 ficou em 1,13 milhão de vagas, contra 1,52 milhão no mesmo intervalo de 2025. Em 12 meses até agosto, foram 887,7 mil novos postos, também abaixo dos 1,44 milhão registrados nos 12 meses anteriores.

É justamente nesse ambiente de desaceleração que o comportamento da construção ganha relevância. O setor não apenas continua gerando empregos, mas é o único entre os grandes segmentos a apresentar, até agosto, um saldo superior ao do ano anterior.

Rio Grande do Sul tem resultado diferente


Apesar do desempenho nacional, os resultados não são uniformes entre os estados. Em agosto, 24 das 27 unidades da Federação apresentaram saldo positivo de empregos formais, mas o Rio Grande do Sul registrou saldo negativo de 1.611 postos no conjunto do mercado de trabalho naquele mês. São Paulo liderou a geração, com 42.533 vagas, seguido por Rio de Janeiro, com 20.886, e Pernambuco, com 13.428.

O dado estadual mostra que o avanço nacional da construção não necessariamente se reproduz com a mesma intensidade em todas as regiões. O desempenho local depende da dinâmica dos investimentos, das obras em andamento, do mercado imobiliário e das condições econômicas específicas de cada estado.

Cenário combina oportunidade e desafio


O quadro desenhado pelos dados é, portanto, de forte atividade da construção em meio a um mercado de trabalho que começa a perder velocidade.

A expansão do emprego amplia a renda e sustenta a demanda, especialmente no mercado habitacional. Ao mesmo tempo, a menor disponibilidade de trabalhadores aumenta a competição por profissionais e contribui para a elevação dos custos de mão de obra.

Para as empresas, o desafio passa a ser crescer sem perder produtividade e controle sobre os custos. Para o mercado de trabalho, os números indicam uma demanda elevada por trabalhadores da construção, sobretudo profissionais qualificados.

A análise da ABRAINC resume o momento como uma combinação de demanda favorável e custos de produção pressionados. A continuidade desse movimento, segundo o estudo, dependerá da evolução dos juros, do ritmo dos investimentos em infraestrutura e habitação e da capacidade do setor de ampliar produtividade e qualificação profissional. (Abrainc)

Fontes: Novo Caged/MTE; PNAD Contínua/IBGE; FGV IBRE; ABRAINC.