{"id":104846,"date":"2020-12-18T09:09:49","date_gmt":"2020-12-18T12:09:49","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=104846"},"modified":"2020-12-18T09:09:49","modified_gmt":"2020-12-18T12:09:49","slug":"negritude-de-trabalhadora-domestica-a-cientista-premiada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/negritude-de-trabalhadora-domestica-a-cientista-premiada\/","title":{"rendered":"NEGRITUDE  : De trabalhadora dom\u00e9stica a cientista premiada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Destaque no Pa\u00eds com a tese de doutorado em hist\u00f3ria, a pelotense Cl\u00e1udia Daiane Molet foi bab\u00e1 na juventude<\/strong><\/p>\n<p>Por Carlos Cogoy<\/p>\n<div id=\"attachment_104848\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-104848\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-104848\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-300x253.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-300x253.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-150x127.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane.jpg 539w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-104848\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Daiane e orientadora Regina<\/p><\/div>\n<p>Ela tem motiva\u00e7\u00e3o extra para a expectativa pela vit\u00f3ria sobre a pandemia em 2021. Al\u00e9m da supera\u00e7\u00e3o do drama da sa\u00fade p\u00fablica, que marcou o cotidiano dos brasileiros em 2020, a pelotense Cl\u00e1udia Daiane Garcia Molet poder\u00e1 usufruir do curso de p\u00f3s-doutorado. A conquista resulta de premia\u00e7\u00e3o oferecida pela Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (CAPES), do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Em 2019, ela venceu, na \u00e1rea de hist\u00f3ria, o Pr\u00eamio Capes de Tese. Sob orienta\u00e7\u00e3o da professora Regina Weber na UFRGS, a historiadora pelotense pesquisou \u201cO Litoral Negro do Rio Grande do<\/p>\n<p>Sul: campesinato negro, parentescos, solidariedades e pr\u00e1ticas culturais (do s\u00e9culo XIX ao tempo presente)\u201d. Neste ano, o trabalho foi lan\u00e7ado em livro pela editora Oikos. T\u00e9cnica-administrativa em educa\u00e7\u00e3o na UFPel, onde realizou o mestrado em ci\u00eancias sociais \u2013 orientada pela historiadora Beatriz Loner -, Cl\u00e1udia Daiane Molet integra o movimento de resist\u00eancias UFPreta. Ao DM, ela abordou sobre o trabalho dom\u00e9stico na adolesc\u00eancia, as viv\u00eancias familiares, racismo e a trajet\u00f3ria como cientista.<\/p>\n<p><strong>UFPRETA \u2013<\/strong> Claudia Daiane Molet menciona sobre a mobiliza\u00e7\u00e3o na UFPel: \u201cA UFPreta \u00e9 um movimento de resist\u00eancias constitu\u00eddo por estudantes, professores, professoras, t\u00e9cnicas e t\u00e9cnicos da UFPel. Nasceu da urg\u00eancia em nos aquilombar, pois na UFPel, assim como outras institui\u00e7\u00f5es federais de ensino, o racismo institucional \u00e9 muito latente, e isto nos adoece, e estarmos na luta juntos nos fortalece na caminhada. Nossos corpos, nossas pautas, nossas lutas s\u00e3o silenciadas diante de gest\u00f5es brancas que se dizem antirracistas, mas que na pr\u00e1tica usam as a\u00e7\u00f5es afirmativas para se promoverem, quando, muitas vezes, apenas cumprem a lei, que s\u00f3 existe pela luta do movimento negro\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_104850\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-104850\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-104850\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-e-os-pais-300x210.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-e-os-pais-300x210.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-e-os-pais-150x105.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-e-os-pais-768x537.jpg 768w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-daiane-e-os-pais.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-104850\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e3e Maria, Cl\u00e1udia Daiane e o pai Seloir<\/p><\/div>\n<p><strong>RACISMO \u2013<\/strong> A doutora em hist\u00f3ria reflete acerca do racismo: \u201cO Estado brasileiro negou a exist\u00eancia do racismo at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980, estamos falando em mais de cem anos, de nega\u00e7\u00e3o, depois da Aboli\u00e7\u00e3o, mesmo diante de muita luta do povo negro. Por aqui tivemos explica\u00e7\u00f5es que \u00e9ramos de ra\u00e7as biol\u00f3gicas diferentes, que viv\u00edamos em uma democracia racial, que o preconceito \u00e9 de classe social e n\u00e3o de cor. O racismo foi criado por brancos e beneficia os brancos que seguem usufruindo dos seus privil\u00e9gios de ra\u00e7a, n\u00e3o biol\u00f3gica, mas ra\u00e7a enquanto uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, social. Afinal quem \u00e9 branco no Brasil, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 assim considerado na Europa. As teorias raciais do s\u00e9culo XIX, que foram usadas para pensar o brasil P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o e Republicano, serviram de base para que a mulher negra fosse considerada um objeto sexual e o homem negro, o bandido. E vemos estas teorias circulando ainda em pleno 2020, considerando o corpo negro como p\u00fablico. Da\u00ed temos in\u00fameros casos de Claudias, Migu\u00e9is, Amarildos e Betos, espancados, arrastados, largados, sumidos. Todas as vidas importam, mas algumas valem mais que outras, e a vida negra, ind\u00edgena e quilombola, vale menos neste pa\u00eds alicer\u00e7ado na escravid\u00e3o e no racismo. Quando falamos que as Vidas Negras Importam, estamos falando que todas as vidas devem importar, inclusive as negras, j\u00e1 que somos os que mais morrem neste pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_104849\" style=\"width: 219px\" class=\"wp-caption alignright\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-104849\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-104849\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-livro-2-209x300.jpg\" alt=\"\" width=\"209\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-livro-2-209x300.jpg 209w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-livro-2-105x150.jpg 105w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/pesquisadora-negra-claudia-livro-2.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 209px) 100vw, 209px\" \/><p id=\"caption-attachment-104849\" class=\"wp-caption-text\">Tese publicada em livro<\/p><\/div>\n<p><strong>FAM\u00cdLIA \u2013<\/strong> Os pais da historiadora, Maria e Seloir, nasceram no interior de Piratini. A m\u00e3e e as irm\u00e3s, diz ela, trabalhavam na lide dom\u00e9stica. O pai, desde a inf\u00e2ncia, come\u00e7ou a trabalhar na lavoura para ajudar a fam\u00edlia. Nos anos oitenta, a fam\u00edlia veio para Pelotas. E Cl\u00e1udia Daiane Molet recorda que, no bairro Areal, residiu no Jardim Europa, Bom Jesus e loteamento Dunas. Na zona norte, a fam\u00edlia residiu na Cohab Lind\u00f3ia. A m\u00e3e seguiu no servi\u00e7o dom\u00e9stico, e o pai aprendeu o of\u00edcio de pedreiro. \u201cMesmo com o sonho de estudar, a primeira vez que meu pai entrou numa sala de aula foi para me acompanhar, na primeira s\u00e9rie, quando eu chorava na porta da sala. Ele entrava comigo e sentava-se pr\u00f3ximo. Ent\u00e3o, ficava aguardando que eu come\u00e7asse a conversar com meus colegas, e assim ia embora sem eu perceber. Quando cheguei na primeira s\u00e9rie j\u00e1 sabia ler, escrever e fazer contas, pois minha m\u00e3e me ensinou. Mesmo diante de muitas dificuldades financeiras, os meus estudos sempre foram prioridades para meus pais, vejo hoje como um projeto familiar\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>PRECONCEITO \u2013<\/strong> Na escola, Cl\u00e1udia Daiane Molet sofreu com os deboches sobre o cabelo e cor da pele. Ela diz que nas festas juninas, era uma das \u00faltimas escolhidas para dan\u00e7ar. \u201cS\u00e3o marcas que carrego comigo ainda hoje. A pr\u00f3pria abordagem do tema da escravid\u00e3o em sala de aula, era algo muito traumatizante, pois ao colocarem aquela cena do escravizado no tronco sendo a\u00e7oitado, sem um contexto, sem explicar a humanidade daquelas pessoas, causavam uma miscel\u00e2nea de sentimentos e eu queria sumir daquela sala de aula. H\u00e1 um tempo, me perguntaram quando eu soube que eu era negra. Eu fiquei pensando na resposta, pois em casa eu sempre soube que era negra. Filha de pais negros, eu tinha fen\u00f3tipo negro: cabelos, pele, nariz, l\u00e1bios, mas, aos poucos, na escola, um dos primeiros locais de socializa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a, eu fui percebendo que meu fen\u00f3tipo me colocava, em rela\u00e7\u00e3o a pessoas brancas, numa situa\u00e7\u00e3o de inferioridade. N\u00e3o sei bem quando eu fiquei ciente disso, mas todos os dias havia situa\u00e7\u00f5es de racismo na escola. Por isso, destaco a import\u00e2ncia de uma educa\u00e7\u00e3o antirracista, em que docentes tenham de fato o comprometimento de educar as crian\u00e7as, mantendo-se atentos ao racismo reproduzido em sala de aula. A hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o se resume \u00e0 escravid\u00e3o, \u00e0 imagem do tronco ou ao 20 de novembro, deve ser abordada em todo momento, conforme ali\u00e1s determina a Lei 10.639\/2003 que tornou obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria e da cultura afro-brasileira e africana\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p><strong>BAB\u00c1 &#8211;<\/strong> Adolescente negra e moradora da periferia de Pelotas, Cl\u00e1udia Daiane Molet n\u00e3o se imaginava na universidade. Estudiosa, gostava de ler e escrever, e lembra de professora do Col\u00e9gio Estadual Cassiano do Nascimento, que ressaltava a import\u00e2ncia de chegar \u00e0 universidade. Mas ela precisava trabalhar, e recorda: \u201cNecessitava trabalhar para ajudar em casa, e assim, j\u00e1 em Rio Grande, comecei a trabalhar de bab\u00e1. Foi l\u00e1 que uma prima, que estudava na FURG, come\u00e7ou a falar do quanto eu provavelmente gostaria de estudar naquela universidade. Aos poucos comecei a sonhar em cursar uma faculdade. Consegui cursar um pr\u00e9-vestibular, era monitora \u00e0 noite e estudava \u00e0 tarde, assim pagava o curso com meu trabalho. E no primeiro vestibular ingressei no curso de hist\u00f3ria. A partir deste momento muita coisa come\u00e7ou a mudar na minha vida, e na vida da minha fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p><strong>SEM COMPUTADOR \u2013<\/strong> Sobre a chegada \u00e0 universidade p\u00fablica, ela menciona: \u201cQuando ingressei na FURG em 2004, aos 22 anos de idade, eu trabalhava de bab\u00e1, ali\u00e1s este emprego condicionou a escolha do curso, visto que eu trabalhava pela manh\u00e3 e algumas noites dormia no emprego. Desse modo, necessitava de um curso \u00e0 tarde. Eu conciliei por quase tr\u00eas anos as atividades de dom\u00e9stica com o estudo. Lia os textos, na madrugada. Fazia os trabalhos \u00e0 m\u00e3o, pois n\u00e3o tinha computador. Era uma rotina muito exaustiva, pois eu come\u00e7ava o trabalho antes das oito horas da manh\u00e3 e, ap\u00f3s o meio-dia, tomava um banho e corria para alcan\u00e7ar o \u00f4nibus para faculdade. No \u00f4nibus eu sentia o cansa\u00e7o do dia, mas ainda tinha toda a tarde de estudos. Nas noites que eu dormia no emprego, sa\u00eda da faculdade direto para o servi\u00e7o. Neste per\u00edodo, minha m\u00e3e e eu trabalh\u00e1vamos juntas. Pensei em desistir da faculdade v\u00e1rias vezes, para al\u00e9m do cansa\u00e7o f\u00edsico, a universidade era um espa\u00e7o n\u00e3o acolhedor para uma mulher, negra e dom\u00e9stica. Estamos falando do come\u00e7o dos anos 2000, um per\u00edodo anterior \u00e0s cotas raciais e logo, havia poucas pessoas negras na universidade. N\u00e3o tive nenhum professor, ou professora negra. Quando estava prestes a desistir do curso, minha orientadora me chamou para estagiar em projeto no Arquivo da cidade do Rio Grande, da\u00ed pude sair do emprego e me dedicar mais aos estudos e concluir o curso. Al\u00e9m disso, a experi\u00eancia no arquivo e no manuseio em documentos do s\u00e9culo XIX foram de suma import\u00e2ncia na minha forma\u00e7\u00e3o enquanto historiadora\u201d.<\/p>\n<p><strong>UNIVERSIDADE BRANCA \u2013<\/strong> \u201cQuando cheguei na FURG, eu me assustei com a aus\u00eancia de pessoas negras como estudantes, professores, professoras, t\u00e9cnicos. Estar naquele lugar, ciente que eu era uma exce\u00e7\u00e3o, me levou a estudar a hist\u00f3ria do meu povo, a nossa hist\u00f3ria negra. A sociedade racista, em que vivemos, disp\u00f5e para as mulheres negras lugares determinados: trabalhadora dom\u00e9stica, tradicionalmente desempenhado por n\u00f3s, desde a escravid\u00e3o e, objeto sexual, onde nosso corpo \u00e9 p\u00fablico, servindo aos deleites alheios, como bem pontuou L\u00e9lia Gonzalez. Logo estar num lugar diferente destes causa estranhamento, questionam nossa capacidade intelectual, nos pedem para servir um caf\u00e9 ou carregar uma bolsa. A nossa presen\u00e7a incomoda. Na FURG, a disciplina \u2018Cultura Brasileira e Identidade Nacional\u2019 que cursei no primeiro semestre foi fundamental para esta tomada de consci\u00eancia. Na disciplina estudamos a constru\u00e7\u00e3o da identidade brasileira, vimos que em pleno processo de Aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, o Estado brasileiro estava discutindo as teorias raciais que hierarquizam os seres humanos, colocando a ra\u00e7a branca como superior, e o atraso do Brasil era explicado pela grande quantidade de negros\u201d, diz Cl\u00e1udia Daiane Molet, cujo trabalhando de conclus\u00e3o de curso foi \u201cNa escurid\u00e3o da noite&#8230; Autonomia e transgress\u00f5es de cativos marinheiros pelas ruas e becos da cidade do Rio Grande (1868-1870)\u201d, defendido em 2007.<\/p>\n<p><strong>SANGUE E SUOR \u2013<\/strong> A pesquisadora observa sobre a conquista proporcionada pela elogiada tese de doutorado: \u201cA premia\u00e7\u00e3o contemplou a pesquisa de uma historiadora negra, da periferia de Pelotas, que pesquisou comunidades remanescentes quilombolas do Litoral Negro do Rio Grande do Sul. Uma pesquisa financiada, premiada e recentemente publicada pela CAPES. Uma premia\u00e7\u00e3o que contempla muitas pessoas, pois como bem diz Jurema Weneck \u2018nossos passos vem de longe\u2019 e, portanto, os meus vem da minha m\u00e3e Maria, do meu pai Seloir, das minhas av\u00f3s Jandira e Alvina, dos meus av\u00f4s Juca e Melado, das minhas bisav\u00f3s Luiza e L\u00eddia, e de tantos e tantas que eu desconhe\u00e7o o nome. O sonho de manter a fam\u00edlia negra, de ter acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, foram projetos negros muito recorrentes na hist\u00f3ria da escravid\u00e3o e do P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o. Estudar, ingressar numa faculdade, ser doutora e premiada \u00e9 a continuidade de um sonho long\u00ednquo, assentado em senzalas, embalados por batuques, tra\u00e7ados com sangue e suor. Percebo que as comunidades quilombolas que pesquiso: Casca, Limoeiro, Capororocas e Teixeiras, tamb\u00e9m realizaram um sonho ao verem suas hist\u00f3rias e mem\u00f3rias em um livro que passa a ser usado na luta di\u00e1ria quilombola\u201d.<\/p>\n<p><strong>MULHER NEGRA \u2013<\/strong> A autora acrescenta: \u201cEstou ciente que, infelizmente, sou uma exce\u00e7\u00e3o, pois os dados mostram que n\u00f3s, mulheres negras neste pa\u00eds, quando comparadas com as brancas, somos as que menos temos acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, temos a menor renda, somos as m\u00e3es que mais sofrem viol\u00eancia obst\u00e9trica, viol\u00eancia dom\u00e9stica, somos as m\u00e3es que mais choramos pela morte de nossos filhos, muitas vezes, pelas m\u00e3os do Estado, entre tantos outros \u00edndices que nos mostram que o racismo precisa ser superado. Entretanto correm em nossas veias a hist\u00f3ria de luta de muitas mulheres negras que historicamente constru\u00edram este pa\u00eds com seus saberes, fazeres, afetos, ancestralidade. Como bem disse a historiadora negra Giovana Xavier a pr\u00e1tica feminista \u00e9 negra, pois as mulheres negras desde a escravid\u00e3o lutam por liberdade e por igualdade. N\u00e3o podemos esquecer este legado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Destaque no Pa\u00eds com a tese de doutorado em hist\u00f3ria, a pelotense Cl\u00e1udia Daiane Molet foi bab\u00e1 na juventude Por Carlos Cogoy Ela tem motiva\u00e7\u00e3o extra para a expectativa pela<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":104847,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104846"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104846"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104846\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":104851,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104846\/revisions\/104851"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/104847"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104846"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104846"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104846"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}