{"id":129977,"date":"2023-08-18T10:19:23","date_gmt":"2023-08-18T13:19:23","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=129977"},"modified":"2023-08-18T10:19:23","modified_gmt":"2023-08-18T13:19:23","slug":"artigo-homem-morno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/artigo-homem-morno\/","title":{"rendered":"Artigo: \u201cHOMEM MORNO\u201d"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\">Dom Jacinto Bergmann*<\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-126182 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann.jpg\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"177\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-300x191.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-150x95.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-768x488.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/>O autor do livro b\u00edblico do Apocalipse descreve a Comunidade de Laodiceia como &#8220;morna&#8221;. O &#8220;morno&#8221; nos tempos atuais n\u00e3o descreve tamb\u00e9m o estilo de homem gerado pela p\u00f3s-modernidade convencional? O \u201chomem morno\u201d \u00e9 o &#8220;homem relativo&#8221; ou &#8220;homem light&#8221; da p\u00f3s-modernidade. O que recolhemos do estilo do &#8220;homem-morno&#8221;?<\/p>\n<p>Primeiramente temos o <em>&#8220;eu fraco&#8221;.<\/em> Num portugu\u00eas popular, um homem &#8220;frouxo&#8221;. Ele sente como um fardo imenso a vida e as crises que ela comporta. Incapaz de manter a fidelidade \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas, tanto afetivas como profissionais, rompe com eles ao primeiro embate. Suas for\u00e7as falecem quando tem que enfrentar a &#8220;realidade&#8221;, quer esta tome a figura de ang\u00fastia existencial, quer da presen\u00e7a do outro como outro, quer simplesmente das obriga\u00e7\u00f5es sociais e mesmo do trabalho. Perante a &#8220;dureza da vida&#8221; responde frequentemente com o drible, ou com a remo\u00e7\u00e3o, ou ainda com a fuga, para a qual n\u00e3o hesitar\u00e1 em recorrer \u00e0s drogas, \u00e0s orgias e, em situa\u00e7\u00f5es mais extremas, ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Segue como fruto do homem morno a <em>\u201cdissolu\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os afetivos&#8221;.<\/em> \u00c9 a rela\u00e7\u00e3o humana toda que se esgar\u00e7a hoje por efeito do relativismo p\u00f3s-moderno. Mas \u00e9 na fam\u00edlia, de modo todo particular, que se cristalizam os efeitos niilistas do mesmo relativismo. Em primeiro lugar, as rela\u00e7\u00f5es conjugais se tornam, em todos os sentidos, cada vez mais &#8220;informais&#8221;, para n\u00e3o dizer inconsistentes. Depois, os pais n\u00e3o se assumem mais como tais, ou seja, como educadores, guias, em suma, como mediadores de sentido. Deixaram de ser figuras de sabedoria, de lei e de ordem. Da\u00ed falar se, como muitos analistas j\u00e1 falam, da sociedade atual como &#8220;sociedade sem pai e m\u00e3e&#8221;.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar a p\u00f3s-modernidade gera uma <em>&#8220;vida tediosa&#8221;.<\/em> Em vez da desejada plenitude, temos agora a platitude. E \u00e9 l\u00f3gico: sem mais contracenar com o c\u00e9u, a terra tornou-se plana, chata, em suma, um deserto. Sem o sal da religi\u00e3o, a exist\u00eancia torna-se ins\u00edpida. Sem a gra\u00e7a divina, o mundo perdeu a gra\u00e7a, quando n\u00e3o \u00e9 desgra\u00e7ado. Sem a poesia da f\u00e9, tudo \u00e9 prosa: banal, trivial, insignificante, justamente prosaico. Sem objetivo maior, a rotina cotidiana desgasta o \u00e2nimo e o esgota. Enfim, sem Deus, a vida vira uma imensa bocejeira. De fato, o atual <em>taedium vitae<\/em> \u00e9 resultado final da vontade de expulsar o Mist\u00e9rio que envolve e penetra o mundo.<\/p>\n<p>Por fim temos um verdadeiro <em>&#8220;amesquinhamento geral&#8221;.<\/em> Tendo renunciado a medida do Absoluto, o p\u00f3s-moderno torna tudo pequeno, mofino. O que pode ainda merecer o nosso amor e nossa esperan\u00e7a? No p\u00f3s-moderno, a exist\u00eancia \u00e9 sem cimos, mas tamb\u00e9m sem abismos. A vida \u00e9 vidinha \u00e0 toa. O estilo de vida pequeno-burgu\u00eas, outrora desprezado, tornou-se um ideal cultural. Mas \u00e9 sobretudo na esfera da m\u00eddia que isso aparece mais claramente. Os espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o praticamente tornaram-se os novos santu\u00e1rios da deusa &#8220;Frivolidade&#8221;, que os antigos davam por irm\u00e3 da &#8220;leviandade&#8221; e por m\u00e3e da &#8220;Inconsist\u00eancia&#8221;. A virtualiza\u00e7\u00e3o da vida pode tornar a palavra meramente l\u00edquida e mesmo vaporosa, sobrando pouco espa\u00e7o para a palavra grave, como s\u00e3o a &#8220;palavra de honra&#8221; e a &#8220;palavra de sabedoria&#8221;. A tend\u00eancia da m\u00eddia vai no caminho do banalizar tudo. As realidades graves, como a \u00e9tica, a moral e a religi\u00e3o, s\u00e3o tratadas com igual leviandade. &#8220;O tom do mundo consiste em falar de bagatelas como se fossem coisas s\u00e9rias e de coisas s\u00e9rias como se fossem bagatelas&#8221;, j\u00e1 sentenciou Montesquieu. H\u00e1 frivoliza\u00e7\u00e3o mais fatal que a dos valores sagrados?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tarefa urgente a ser cumprida: o <em>\u201ceu fraco\u201d,<\/em> a <em>\u201cdissolu\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os afetivos\u201d,<\/em> a <em>vida tediosa<\/em>\u201d e o \u201c<em>amesquinhamento de tudo\u201d<\/em> precisam ser confrontados. N\u00e3o podemos deixar o \u201chomem morno\u201d substituir o \u201chomem ardoroso\u201d criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus!<\/p>\n<p><strong><em>* Arcebispo metropolitano da Igreja Cat\u00f3lica de Pelotas<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann* O autor do livro b\u00edblico do Apocalipse descreve a Comunidade de Laodiceia como &#8220;morna&#8221;. O &#8220;morno&#8221; nos tempos atuais n\u00e3o descreve tamb\u00e9m o estilo de homem gerado<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":128841,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129977"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=129977"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129977\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":129978,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129977\/revisions\/129978"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/128841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=129977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}