{"id":130220,"date":"2023-09-02T10:37:29","date_gmt":"2023-09-02T13:37:29","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=130220"},"modified":"2023-09-02T10:37:29","modified_gmt":"2023-09-02T13:37:29","slug":"artigo-a-verdade-e-violenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/artigo-a-verdade-e-violenta\/","title":{"rendered":"Artigo: A VERDADE \u00c9 VIOLENTA?"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">Dom Jacinto Bergmann<\/h4>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-126182 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann.jpg\" alt=\"\" width=\"275\" height=\"175\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-300x191.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-150x95.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-768x488.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 275px) 100vw, 275px\" \/>O relativismo, t\u00e3o fortemente presente no nosso tempo, \u00e9 uma filosofia pregui\u00e7osa. C\u00f4moda e pr\u00e1tica como \u00e9, ela n\u00e3o precisa ser profunda. Difundiu-se no mercado cultural a estranha equa\u00e7\u00e3o: verdade = viol\u00eancia.\u00a0 Essa n\u00e3o \u00e9 a f\u00f3rmula mesma do niilismo ativo? A partir da\u00ed, quem tem convic\u00e7\u00f5es \u00e9 tido por um &#8220;fundamentalista&#8221;, um sujeito disposto a passar \u00e0 viol\u00eancia. Os relativistas aplicam sobretudo essa equa\u00e7\u00e3o \u00e0queles sistemas que &#8220;vivem&#8221; de &#8220;verdades&#8221;, ou seja, de convic\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas, como s\u00e3o as religi\u00f5es, especialmente as monote\u00edstas. Da\u00ed pensarem que as religi\u00f5es s\u00e3o, por natureza, fontes de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o \u00e9 a verdade como tal, que \u00e9 violenta, mas, sim, a arrog\u00e2ncia com que vem \u00e0s vezes acompanhada. Locke (+1704), pioneiro na defesa da toler\u00e2ncia, j\u00e1 viu e afirmou de modo insistente que n\u00e3o \u00e9 a religi\u00e3o que gera viol\u00eancia, mas a ambi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio; a religi\u00e3o a\u00ed entrando apenas como subterf\u00fagio ideol\u00f3gico. Quer dizer, a natureza da religi\u00e3o \u00e9 pac\u00edfica, pois a f\u00e9 \u00e9 essencialmente um ato de liberdade. \u00c9 somente o uso da religi\u00e3o, ou melhor, seu abuso, que pode ser violento. Tomar religi\u00e3o por viol\u00eancia \u00e9 cair na conhecida fal\u00e1cia <em>cum quo ergo propter quis<\/em> &#8211; &#8220;com quem, portanto, por que motivo&#8221;. O fato \u00e9 que hoje, as grandes religi\u00f5es, atrav\u00e9s de seus porta-vozes leg\u00edtimos, se declaram publicamente pela paz. Para comprovar esse car\u00e1ter pac\u00edfico da religi\u00e3o, basta evocar os exemplos irretorqu\u00edveis dos iniciadores de religi\u00e3o, desde Buda at\u00e9 Jesus de Nazar\u00e9. Esses n\u00e3o se permitiram viol\u00eancia alguma, por mais convictos que fossem de suas verdades, antes, em nome dessas mesmas verdades, mostraram um respeito extremo pela humanidade e por sua liberdade. Os m\u00e1rtires crist\u00e3os, por seus princ\u00edpios, preferiram antes morrer que matar. Homens imbu\u00eddos de Deus, como Francisco de Assis e como Gandhi, foram &#8220;instrumentos da paz universal&#8221; e \u201cpromotores da filosofia da n\u00e3o-viol\u00eancia ativa&#8221;.<\/p>\n<p>A verdade, sem renunciar ao seu &#8220;cora\u00e7\u00e3o intr\u00e9pido&#8221;, como j\u00e1 afirmava o fil\u00f3sofo grego, Parm\u00eanides, \u00e9, por si mesma, humilde e amorosa, com a luz que a simboliza. De fato, afirma o Conc\u00edlio Vaticano II: &#8220;A verdade n\u00e3o se imp\u00f5e sen\u00e3o por for\u00e7a da pr\u00f3pria verdade, que penetra de modo suave e, ao mesmo tempo, forte nas mentes&#8221;. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 o lusco-fusco do relativismo que favorece o avan\u00e7o da viol\u00eancia, pois, quando falta o <em>logos<\/em> (raz\u00e3o), subentra a <em>bia <\/em>(viol\u00eancia).<\/p>\n<p>O relativismo parece inicialmente combinar com a liberdade, mas de fato acaba favorecendo o arb\u00edtrio individualista. Parece igualmente promover a toler\u00e2ncia, mas no fim gera n\u00e3o s\u00f3 o indiferentismo, mas at\u00e9 o cinismo, pois termina tolerando o intoler\u00e1vel. De fato, quando se p\u00f5e abaixo a ideia de verdade objetiva, a liberdade perde suas balizas, ficando aberto o caminho para arbitrariedade e a viol\u00eancia. O pensador Huizinga, no contexto da ascens\u00e3o dos totalitarismos modernos, que, substituindo a verdade pelas mentiras da ideologia, levaram \u00e0s barb\u00e1ries do s\u00e9culo XX, prognosticou: &#8220;O sintoma mais grave (do nosso tempo) \u00e9 a indiferen\u00e7a para com a verdade&#8221;. Por isso afirmou o papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II:\u00a0 &#8220;Verdade e liberdade ou caminham juntas, ou juntas miseravelmente perecem&#8221;.<\/p>\n<p>Nessa reflex\u00e3o, vale a pena destrinchar a confus\u00e3o hoje corrente: a que se p\u00f5e entre verdade e ideologia. Verdade \u00e9 o que \u00e9, e s\u00f3 pode gerar convic\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas; ideologia \u00e9 simulacro da verdade, e gera sempre convic\u00e7\u00f5es falsas e alienantes, como ficou claro nas grandes ideologias que ensanguentaram o s\u00e9culo XX. Ora, numa mentalidade relativista n\u00e3o h\u00e1 nenhum crit\u00e9rio exterior a ela, nem direitos humanos universais e menos ainda mandamentos divinos. Se uma sociedade n\u00e3o consegue se fundar sobre valores n\u00e3o relativos, fica sempre exposta \u00e0s amea\u00e7as de destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se tivesse injetado em suas pr\u00f3prias veias um v\u00edrus letal.<\/p>\n<p>Por fim, no cristianismo, a liberdade pede a verdade, esta pede a caridade, como j\u00e1 tinha percebido Pascal ao dizer: &#8220;A verdade fora da caridade n\u00e3o \u00e9 Deus [&#8230;] mas um \u00eddolo&#8221;. A conex\u00e3o estreita entre verdade e caridade foi retomada e posta em evid\u00eancia pelo papa Bento XVI, especialmente na &#8220;introdu\u00e7\u00e3o&#8221; de sua enc\u00edclica <em>C\u00e1ritas in Veritate<\/em> (2009). A\u00ed o grande te\u00f3logo enfatiza que s\u00f3 a verdade d\u00e1 conte\u00fado \u00e0 caridade, que, sem aquela, decai e se perde.<\/p>\n<h4><em>Arcebispo da Igreja Cat\u00f3lica de Pelotas.<\/em><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann O relativismo, t\u00e3o fortemente presente no nosso tempo, \u00e9 uma filosofia pregui\u00e7osa. C\u00f4moda e pr\u00e1tica como \u00e9, ela n\u00e3o precisa ser profunda. 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