{"id":130952,"date":"2023-10-09T10:41:39","date_gmt":"2023-10-09T13:41:39","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=130952"},"modified":"2023-10-09T10:41:39","modified_gmt":"2023-10-09T13:41:39","slug":"artigo-podemos-cortar-o-fio-primario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/artigo-podemos-cortar-o-fio-primario\/","title":{"rendered":"Artigo: PODEMOS CORTAR O &#8220;FIO PRIM\u00c1RIO&#8221;?"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\"><em>Dom Jacinto Bergmann<\/em><\/h4>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-126182 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann.jpg\" alt=\"\" width=\"343\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-300x191.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-150x95.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/dom-jacinto-bergmann-768x488.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/>Os tempos secularistas atuais reproduzem com propriedade a par\u00e1bola do &#8220;Fio prim\u00e1rio&#8221;: &#8220;Conta-se que uma aranha, sem ter o que fazer, decidiu inspecionar sua teia. Depois de t\u00ea-la percorrido por inteiro, notou algo estranho: era um fio que, preso \u00e0 teia, subia, subia at\u00e9 desaparecer. Para que serviria um fio daqueles? Melhor elimin\u00e1-lo. E z\u00e1s! Cortou o fio de um golpe. E toda a teia veio abaixo, desfeita, e a aranha com ela. Tola! Aquele era o &#8220;fio prim\u00e1rio&#8221;, do qual pendia toda a teia!&#8221;<\/p>\n<p>Cortar o &#8220;fio prim\u00e1rio&#8221; \u00e9 cortar a rela\u00e7\u00e3o com Deus. Cortar o &#8220;fio prim\u00e1rio&#8221; \u00e9, usando a linguagem do s\u00e9culo XX, decretar a \u201cmorte de Deus&#8221;. Romain Rolland chamou o s\u00e9culo XX de &#8220;s\u00e9culo deicida&#8221;. Mas, com o deic\u00eddio, continua o escritor, &#8220;era eu mesmo que se matava&#8221;. De fato, matar Deus no cora\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 matar o que h\u00e1 de melhor no homem. Ao deic\u00eddio seguiu-se, pois, o &#8220;homic\u00eddio do homem em massa&#8221; e, da\u00ed, \u00e0 morte do sentido da vida. Sem sentido da vida, ca\u00edmos no niilismo. Pois, \u00e9 em v\u00e3o que se busca superar o niilismo prescindindo de Deus. Seria como apagar a \u00fanica l\u00e2mpada que pode, na noite, mostrar o caminho. Seria como cortar o &#8220;fio prim\u00e1rio&#8221;. Quem p\u00f5e seu fim fora de Deus ver\u00e1 o \u201cpr\u00f3prio fim\u201d: s\u00f3 poder\u00e1 encontrar \u201cseu fim\u201d, ou seja, &#8220;a ca\u00edda de sua teia, e a si mesmo junto&#8221;.<\/p>\n<p>Malraux, embora ateu, teve a honestidade de reconhecer a trag\u00e9dia que significa um humanismo sem Deus, quando j\u00e1 em 1926 afirmava: &#8220;Morreu o homem depois que Deus morreu&#8221;. E ainda: &#8220;Que fazer de uma alma que n\u00e3o tem mais Deus?&#8221; E continua refletindo: Para se encontrar a si mesmo, o homem abandonou a Deus. Mas o que encontrou? Imensos corredores de ang\u00fastia e solid\u00e3o, o absurdo e a decad\u00eancia. \u00c9 como o cavaleiro que vence o advers\u00e1rio, mas quando entra no pal\u00e1cio de seus sonhos, s\u00f3 encontra sombras.<\/p>\n<p>Uma antropologia puramente autofundada prepara paradoxalmente sua autodestrui\u00e7\u00e3o. O homem se torna um simples lugar, encruzilhada de condicionamentos impessoais, de tal modo que n\u00e3o se pode mais dizer que a\u00ed \u201calgu\u00e9m faz algo\u201d, mas somente que a\u00ed &#8220;acontece algo&#8221;. Aqui o ser humano termina totalmente despersonalizado, despido de um verdadeiro &#8220;eu&#8221;, para tornar-se mero objeto. \u00c9 a proclama\u00e7\u00e3o do niilismo antropol\u00f3gico, resultado direto da elimina\u00e7\u00e3o do Transcendente.<\/p>\n<p>Uma forma mais recente de niilismo antropol\u00f3gico \u00e9 a que est\u00e1 ligada \u00e0 ideia de \u201cp\u00f3s-humano\u201d. Trata-se de uma vis\u00e3o do mundo, que, apoiando-se na biotecnologia, acredita que o <em>gene<\/em> explica tudo: sexo, intelig\u00eancia, moral, pol\u00edtica&#8230; Atrav\u00e9s das inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, especialmente sobre a estrutura biol\u00f3gica do homem, entende-se libertar o pr\u00f3prio homem da condi\u00e7\u00e3o humana ou seja, &#8220;superar&#8221; o &#8220;humano&#8221; do homem, reduzindo-o ao biol\u00f3gico, mais especificamente, ao gen\u00e9tico. O homem n\u00e3o ser\u00e1 mais &#8220;algu\u00e9m&#8221;, mas &#8220;algo&#8221; de biol\u00f3gico, uma &#8220;fun\u00e7\u00e3o&#8221; espec\u00edfica, uma &#8220;mat\u00e9ria\u201d a modelar. A partir dessa antropologia inquietante, s\u00e3o compreens\u00edveis as tentativas da moderna biotecnologia de produzir embri\u00f5es de proveta, de reciclar \u00f3rg\u00e3os de um cad\u00e1ver, de clonar seres humanos, de estocar c\u00e9lulas tronco extra\u00eddas de embri\u00f5es e at\u00e9 de propor um &#8220;criat\u00f3rio&#8221; humano para produzir uma nova ra\u00e7a. Na verdade, por tr\u00e1s dessas ideias opera uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica de corte animalista, que n\u00e3o tem mais nada de antropologia, mas apenas de zootecnia aplicada ao homem.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed termos mais um resultado monstruoso a que se chega quando se trata o ser puramente imanente, fechado, e n\u00e3o mais como pessoa, ser espiritual, feito \u00e0 &#8220;imagem e semelhan\u00e7a&#8221; de seu Criador e aberto a Ele. O crep\u00fasculo de Deus antecipa e arrasta o crep\u00fasculo do homem. Uma vis\u00e3o do homem que n\u00e3o esteja cal\u00e7ada em Deus n\u00e3o consegue neutralizar o perigo niilista. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a grande li\u00e7\u00e3o b\u00edblica: j\u00e1 as primeiras passagens da B\u00edblia mostram que, quando a rela\u00e7\u00e3o teologal cede, cede tamb\u00e9m, mais cedo ou mais tarde a rela\u00e7\u00e3o social. Deus \u00e9 ainda o melhor cimento social. Tem raz\u00e3o Daniel Bell quando sentencia: &#8220;Dizer que Deus est\u00e1 morto \u00e9 dizer que a sociedade est\u00e1 morta&#8221;. Cortou-se o &#8220;fio prim\u00e1rio&#8221;!<\/p>\n<h4>Arcebispo Metropolitano da Igreja Cat\u00f3lica de Pelotas<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jacinto Bergmann Os tempos secularistas atuais reproduzem com propriedade a par\u00e1bola do &#8220;Fio prim\u00e1rio&#8221;: &#8220;Conta-se que uma aranha, sem ter o que fazer, decidiu inspecionar sua teia. 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