{"id":139846,"date":"2024-10-19T20:21:10","date_gmt":"2024-10-19T23:21:10","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=139846"},"modified":"2024-10-19T20:21:10","modified_gmt":"2024-10-19T23:21:10","slug":"com-16-milhao-de-vagas-gratuitas-institutos-federais-sao-mistura-de-colegio-com-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/com-16-milhao-de-vagas-gratuitas-institutos-federais-sao-mistura-de-colegio-com-universidade\/","title":{"rendered":"Com 1,6 milh\u00e3o de vagas gratuitas, institutos federais s\u00e3o mistura de col\u00e9gio com universidade"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>No lado escola, oferecem ensino m\u00e9dio, educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos (EJA) e cursos t\u00e9cnicos profissionalizantes. No lado universidade, contam com gradua\u00e7\u00e3o, especializa\u00e7\u00e3o, mestrado e doutorado<\/em><\/h3>\n<p>Os pr\u00e9dios com a sigla IF em verde e vermelho na fachada costumam provocar confus\u00e3o. Quem passa diante de algum dos institutos federais espalhados pelo Brasil pode imaginar, dada a impon\u00eancia, que ali funciona um col\u00e9gio frequentado pela elite ou ent\u00e3o, em raz\u00e3o do adjetivo \u201cfederal\u201d, que se trata de uma universidade federal com nome diferente.<\/p>\n<p>Nem uma coisa, nem outra. Os institutos federais s\u00e3o, na realidade, uma mistura de escola com universidade. Neles, o ensino \u00e9 p\u00fablico e gratuito.<\/p>\n<p>No lado escola, oferecem ensino m\u00e9dio, educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos (EJA) e cursos t\u00e9cnicos profissionalizantes. No lado universidade, contam com gradua\u00e7\u00e3o, especializa\u00e7\u00e3o, mestrado e doutorado.<\/p>\n<p>Todos os cursos s\u00e3o ministrados dentro do mesmo pr\u00e9dio. Esse h\u00edbrido de escola e universidade \u00e9 um modelo \u00fanico no mundo e 100% brasileiro.<\/p>\n<p>\u2014 Nos institutos federais, vamos do alfinete ao foguete \u2014 resume a diretora-geral do campus do Instituto Federal de Bras\u00edlia (IFB) localizado no Plano Piloto, Christine Rebou\u00e7as Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>Existem hoje 38 institutos federais, cada um com mais ou menos 20 campi na sua respectiva regi\u00e3o de abrang\u00eancia. S\u00e3o, ao todo, 705 campi em funcionamento \u2014 um campus para cada oito cidades brasileiras. A rede, assim, consegue estar presente em quase todos os rinc\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quase 860 mil alunos frequentam as salas de aula dos institutos federais. Tamb\u00e9m s\u00e3o oferecidos cursos r\u00e1pidos de qualifica\u00e7\u00e3o profissional. Adicionando os matriculados nesses cursos, o n\u00famero total de estudantes chega a 1,6 milh\u00e3o.<\/p>\n<p>Os institutos federais t\u00eam salas de aula com lousa digital, biblioteca, laborat\u00f3rios, salas de inform\u00e1tica, anfiteatro, gin\u00e1sio esportivo e piscina, entre outros equipamentos.<\/p>\n<p>\u2014 Quando conhecem a infraestrutura, muitos estudantes de escolas p\u00fablicas convencionais, em vez de ficar empolgados, acabam se intimidando e imaginando que o instituto federal n\u00e3o \u00e9 lugar para eles. Precisamos acabar com essa impress\u00e3o equivocada \u2014 afirma a diretora do campus do IFB.<\/p>\n<p>Apesar da capilaridade dos institutos federais pelo territ\u00f3rio brasileiro, o desconhecimento de parte da sociedade \u00e9 compreens\u00edvel. Primeiro, porque eles s\u00e3o o bra\u00e7o mais novo da rede nacional de educa\u00e7\u00e3o. Depois, porque quase n\u00e3o se faz propaganda deles.<\/p>\n<p>O modelo come\u00e7ou a ser posto em pr\u00e1tica h\u00e1 apenas 16 anos, a partir de uma lei aprovada pelo Senado e pela C\u00e2mara dos Deputados e assinada pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva no segundo mandato (<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2008\/lei\/l11892.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lei 11.892, de 2008<\/a>).<\/p>\n<p>Os institutos federais s\u00e3o a grande pol\u00edtica p\u00fablica do governo federal para o ensino voltado ao mercado de trabalho. A tecnologia \u00e9 o eixo que precisa atravessar todos os cursos.<\/p>\n<p>O EJA e o ensino m\u00e9dio, por exemplo, s\u00e3o integrados ao ensino t\u00e9cnico. Tamb\u00e9m h\u00e1 cursos t\u00e9cnicos avulsos, para quem frequenta ou j\u00e1 concluiu o ensino m\u00e9dio. Na gradua\u00e7\u00e3o, formam-se diferentes tipos de engenheiros e tecn\u00f3logos, entre outros profissionais. Na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, a prioridade \u00e9 dada \u00e0s pesquisas que tenham aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e sejam de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O modelo tem outras particularidades. Uma delas \u00e9 a busca da inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>Para selecionar os estudantes do ensino m\u00e9dio, cada instituto federal tem autonomia para adotar o m\u00e9todo que preferir. Muitas optam pelo sorteio, o que permite que ricos e pobres tenham a mesma chance de ser admitidos. O vestibulinho, como compara\u00e7\u00e3o, d\u00e1 vantagem aos jovens de n\u00edvel social mais alto.<\/p>\n<p>Optando pelo vestibulinho, pelo sorteio ou at\u00e9 pela an\u00e1lise de curr\u00edculo, o instituto federal fica sempre obrigado a seguir a Lei de Cotas (<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2012\/lei\/l12711.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lei 12.711, de 2012<\/a>) e reservar pelo menos 50% das vagas para jovens oriundos de escola p\u00fablica, pobres, com defici\u00eancia e autodeclarados negros, quilombolas ou ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Para a gradua\u00e7\u00e3o, a sele\u00e7\u00e3o costuma ser pela nota do aluno no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem). Alguns institutos federais aderem ao Sistema de Sele\u00e7\u00e3o Unificada (Sisu), o mesmo mecanismo adotado pelas universidades federais. A Lei de Cotas tamb\u00e9m vale para a gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para evitar a evas\u00e3o escolar, em especial dos estudantes que precisam trabalhar, o governo federal concede aos mais carentes a Bolsa Perman\u00eancia, que varia de R$ 400 a R$ 900 mensais.<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas mostram que os institutos federais t\u00eam cumprido a miss\u00e3o de incluir socialmente camadas mais pobres da sociedade. Dos alunos, em torno de 56% s\u00e3o negros e perto de 72% t\u00eam renda familiar per capita de no m\u00e1ximo um sal\u00e1rio m\u00ednimo e meio por m\u00eas.<\/p>\n<p>As extintas escolas agrot\u00e9cnicas federais, como compara\u00e7\u00e3o, costumavam ser frequentadas pelos filhos dos fazendeiros, e n\u00e3o pelos filhos dos camponeses. Dizia-se que s\u00f3 conseguiam entrar nessas institui\u00e7\u00f5es aqueles que tinham um padrinho pol\u00edtico forte que fizesse a indica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139847 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2a.png\" alt=\"\" width=\"395\" height=\"659\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2a.png 399w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2a-180x300.png 180w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2a-90x150.png 90w\" sizes=\"(max-width: 395px) 100vw, 395px\" \/><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139848 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2b.png\" alt=\"\" width=\"395\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2b.png 399w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2b-266x300.png 266w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2b-133x150.png 133w\" sizes=\"(max-width: 395px) 100vw, 395px\" \/><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139849 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2c.png\" alt=\"\" width=\"395\" height=\"498\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2c.png 399w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2c-238x300.png 238w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-2c-119x150.png 119w\" sizes=\"(max-width: 395px) 100vw, 395px\" \/><\/p>\n<p>Outra peculiaridade dos institutos federais \u00e9 o compromisso com o desenvolvimento social e econ\u00f4mico da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de um campus ser aberto numa cidade, s\u00e3o organizadas audi\u00eancias p\u00fablicas para ouvir a comunidade, incluindo estudantes, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de moradores e movimentos sociais, que apresentam suas expectativas e sugerem os cursos que dialogam com a realidade local.<\/p>\n<p>No campus de Bento Gon\u00e7alves, cidade famosa pelo vinho, o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) oferece gradua\u00e7\u00e3o em viticultura e enologia.<\/p>\n<p>Situado numa regi\u00e3o dedicada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, o Instituto Federal do Sul de Minas (IF Sul de Minas) abriu no campus de Muzambinho uma gradua\u00e7\u00e3o em cafeicultura.<\/p>\n<p>O Instituto Federal de S\u00e3o Paulo (IFSP), por sua vez, tem em S\u00e3o Carlos, polo nacional de avia\u00e7\u00e3o, um curso de engenharia aeron\u00e1utica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139850 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-taguatinga-avioes.jpg\" alt=\"\" width=\"677\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-taguatinga-avioes.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-taguatinga-avioes-300x98.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-taguatinga-avioes-150x49.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-taguatinga-avioes-768x251.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 677px) 100vw, 677px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Do alfinete ao foguete: curso de t\u00e9cnico em vestu\u00e1rio em Taguatinga (DF) e avi\u00f5es no instituto federal de\u00a0S\u00e3o\u00a0Carlos\u00a0(SP) (Pillar Pedreira\/Ag\u00eancia Senado e Mariana Raphael\/MEC)<\/em><\/p>\n<p>Uma das vantagens de existirem diferentes n\u00edveis de ensino no mesmo espa\u00e7o \u00e9 que os alunos do ensino m\u00e9dio convivem com os estudantes do ensino superior, o que contribui com o amadurecimento acad\u00eamico, profissional e at\u00e9 intelectual dos mais jovens.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os professores que d\u00e3o aula no ensino m\u00e9dio s\u00e3o os mesmos que lecionam na gradua\u00e7\u00e3o e na p\u00f3s. Isso significa que, diferentemente do que ocorre nas escolas p\u00fablicas convencionais, os estudantes dos institutos federais contam com professores altamente qualificados, quase todos mestres ou doutores.<\/p>\n<p>Os jovens s\u00e3o incentivados a continuar no instituto federal depois da conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio. Os cursos de todos os n\u00edveis s\u00e3o desenhados de modo a permitir a continuidade dos estudos.<\/p>\n<p>Naqueles institutos federais localizados em Bento Gon\u00e7alves, Muzambinho e S\u00e3o Carlos, al\u00e9m das gradua\u00e7\u00f5es respectivamente em vinho, caf\u00e9 e aeron\u00e1utica, existem tanto cursos t\u00e9cnicos integrados ao ensino m\u00e9dio quanto cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o dedicados \u00e0s mesmas especialidades.<\/p>\n<p>\u2014 Pode acontecer de um jovem entrar despretensioso no instituto federal, pensando em fazer apenas um curso profissionalizante de curta dura\u00e7\u00e3o, e sair de l\u00e1 alguns anos depois com o t\u00edtulo de doutor \u2014 diz o secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o Profissional e Tecnol\u00f3gica do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Marcelo Bregagnoli.<\/p>\n<p>De acordo com ele, a rede de institutos federais j\u00e1 est\u00e1 consolidada como pol\u00edtica de Estado, que n\u00e3o muda ao sabor do governo de turno. Bregagnoli conta que ela tem o apoio da classe pol\u00edtica:<\/p>\n<p>\u2014 De cada dez parlamentares que v\u00eam ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, sete est\u00e3o aqui para falar especificamente dos institutos federais.<\/p>\n<p>Pelo Brasil afora, nas elei\u00e7\u00f5es deste ano, candidatos a prefeito e vereador tiveram como plataforma eleitoral a promessa de negociar com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o a instala\u00e7\u00e3o de um instituto federal nas suas respectivas cidades.<\/p>\n<p>Bregagnoli afirma que pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul e da \u00c1frica j\u00e1 procuraram o minist\u00e9rio com o intuito de conhecer e replicar esse modelo de educa\u00e7\u00e3o criado no Brasil.<\/p>\n<p>No m\u00eas passado, o secret\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o participou de uma sess\u00e3o especial no Senado por ocasi\u00e3o do Dia Nacional dos Profissionais de N\u00edvel T\u00e9cnico, celebrado em 23 de setembro. A sess\u00e3o foi realizada a pedido do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que descreveu a educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica como \u201cvia crucial para o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e a inova\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139851 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-biblioteca-aluno-estudante.jpg\" alt=\"\" width=\"677\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-biblioteca-aluno-estudante.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-biblioteca-aluno-estudante-300x98.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-biblioteca-aluno-estudante-150x49.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-biblioteca-aluno-estudante-768x251.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 677px) 100vw, 677px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Biblioteca e laborat\u00f3rio, infraestrutura b\u00e1sica de todos os institutos federais (Gaia Sch\u00fcler\/MEC)<\/em><\/p>\n<p>Embora o conceito dos institutos federais tenha surgido em 2008, as escolas t\u00e9cnicas como a\u00e7\u00e3o do governo federal existiam j\u00e1 havia um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica p\u00fablica nasceu em 1909, quando o presidente Nilo Pe\u00e7anha assinou um decreto criando uma Escola de Aprendizes Art\u00edfices em cada uma das ent\u00e3o 19 capitais estaduais. A miss\u00e3o dos cursos era transformar crian\u00e7as de 10 a 13 anos em oper\u00e1rios e contramestres em \u00e1reas como marcenaria, funilaria e sapataria.<\/p>\n<p>Era o per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Parte da sociedade n\u00e3o via com bons olhos os oper\u00e1rios estrangeiros, pois traziam consigo ideologias como o anarquismo e aqui organizavam greves, e considerava mais seguro apostar na popula\u00e7\u00e3o nacional, em especial a inf\u00e2ncia pobre e negra, transformando-a em m\u00e3o de obra domesticada e minimamente qualificada para a ind\u00fastria, que come\u00e7ava a despontar.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, a ditadura militar tornou o ensino profissionalizante obrigat\u00f3rio em todas as escolas p\u00fablicas e privadas de segundo grau (atual ensino m\u00e9dio). Os alunos poderiam escolher forma\u00e7\u00f5es como auxiliar de enfermagem, t\u00e9cnico em edifica\u00e7\u00f5es, contabilidade e agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Brasil vivia o chamado milagre econ\u00f4mico. No entanto, como os estados n\u00e3o tinham verbas suficientes para capacitar os professores nem para construir os laborat\u00f3rios nas escolas, a medida dos generais n\u00e3o saiu do papel.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 1990, o governo Fernando Henrique Cardoso decidiu que a educa\u00e7\u00e3o profissional seria necessariamente separada do ensino m\u00e9dio. Para o governo, os cursos deveriam ser oferecidos pelos estados e pela iniciativa privada, incluindo as escolas do Sistema S. As escolas t\u00e9cnicas federais estagnaram.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 2000, o governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva mudou a diretriz, retomando o protagonismo do governo federal e liberando os ensinos t\u00e9cnico e m\u00e9dio integrados num mesmo curso.<\/p>\n<p>Os defensores desse modelo dizem que ele forma trabalhadores com consci\u00eancia cr\u00edtica, n\u00e3o meros apertadores de parafusos, e prioriza o desenvolvimento dos indiv\u00edduos, n\u00e3o a necessidade dos empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o prometeu verbas aos governos estaduais adotassem o ensino integrado, mas houve boicote da parte de estados como S\u00e3o Paulo e Rio Grande do Sul, que preferiam a educa\u00e7\u00e3o profissional isolada.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia obrigar os estados a criar cursos integrados, o governo federal decidiu em 2008, no segundo mandato do presidente Lula, reformar e expandir a sua pr\u00f3pria rede.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, a rede federal era heterog\u00eanea e reduzida, composta de escolas t\u00e9cnicas e agrot\u00e9cnicas, unidades de ensino descentralizadas (Uneds), escolas vinculadas a universidades e centros federais de educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica (Cefets). Quase todos esses estabelecimentos se transformaram em institutos federais.<\/p>\n<p>Pela lei de cria\u00e7\u00e3o dos institutos federais, os cursos t\u00e9cnicos precisam ser o carro-chefe do novo modelo. Pelo menos 50% das vagas devem ser destinadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o profissional. Embora os institutos federais tamb\u00e9m ofere\u00e7am cursos t\u00e9cnicos isolados, a prioridade s\u00e3o os integrados ao ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>A lei tamb\u00e9m estabelece que no m\u00ednimo 20% das vagas devem ser dedicadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, especialmente em matem\u00e1tica, f\u00edsica, qu\u00edmica e biologia. As licenciaturas, por isso, s\u00e3o a segunda prioridade dos institutos federais.<\/p>\n<p>Os 30% restantes ficam, basicamente, com as gradua\u00e7\u00f5es e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es das \u00e1reas de ci\u00eancia, tecnologia e engenharia.<\/p>\n<p>O professor aposentado do IFRS e doutor em educa\u00e7\u00e3o Lucio Olimpio de Carvalho Vieira afirma:<\/p>\n<p>\u2014 Com essas porcentagens, os institutos buscam colocar o Brasil num novo patamar de desenvolvimento, um patamar no qual outros pa\u00edses do mundo j\u00e1 se encontram. O Brasil, carente de profissionais qualificados, precisava dessa iniciativa.<\/p>\n<p>Vieira, que tamb\u00e9m \u00e9 conselheiro da Federa\u00e7\u00e3o de Sindicatos de Professores de Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior e de Ensino B\u00e1sico, T\u00e9cnico e Tecnol\u00f3gico (Proifes), avalia que a rede de institutos federais precisa de ajustes.<\/p>\n<p>Um deles seria aproximar-se das redes estaduais de ensino, que t\u00eam muito mais escolas e alcance do que a rede federal, e firmar parcerias com elas. Hoje praticamente n\u00e3o existe di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Outro ajuste seria facilitar a cria\u00e7\u00e3o e a extin\u00e7\u00e3o de cursos nos institutos federais. De acordo com Vieira, a estrutura do servi\u00e7o p\u00fablico \u00e9 burocr\u00e1tica e pouco flex\u00edvel, o que torna as atualiza\u00e7\u00f5es curriculares lentas diante da velocidade das mudan\u00e7as no mundo do trabalho.<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m disso, os institutos federais ainda est\u00e3o muito submetidos \u00e0 gest\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. A centraliza\u00e7\u00e3o, no meu entendimento, \u00e9 exagerada \u2014 ele acrescenta. \u2014 Dadas as dimens\u00f5es e a diversidade de realidades do Brasil, eles deveriam ter mais liberdade para escolher os cursos, decidir a forma de ensinar, incorporar as demandas do entorno. A necessidade maior de determinada comunidade pode ser a educa\u00e7\u00e3o [exclusivamente] profissional, e n\u00e3o o ensino m\u00e9dio integrado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-139852 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"603\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos.png 450w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-224x300.png 224w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-cursos-112x150.png 112w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>Em mar\u00e7o, o presidente Lula anunciou a libera\u00e7\u00e3o de verbas do Novo Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (Novo PAC) para expandir a rede de institutos federais, que dever\u00e1 ganhar cem campi em todos os estados at\u00e9 2026. A expans\u00e3o permitir\u00e1 a matr\u00edcula de 140 mil novos estudantes.<\/p>\n<p>O IFB, por exemplo, passar\u00e1 a contar com um campus no Sol Nascente, que h\u00e1 pouco tempo ultrapassou a Rocinha e se tornou a maior favela do Brasil. A comunidade tem mais 90 mil habitantes e fica a apenas 35 quil\u00f4metros do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No mesmo evento em mar\u00e7o, Lula anunciou ainda que os campi j\u00e1 existentes tamb\u00e9m receber\u00e3o recursos do Novo PAC, que poder\u00e3o ser aplicados na constru\u00e7\u00e3o de restaurantes estudantis, bibliotecas, laborat\u00f3rios etc.<\/p>\n<p>O dinheiro, contudo, ser\u00e1 pontual e n\u00e3o far\u00e1 parte do or\u00e7amento anual dos institutos.\u00a0Eles se queixam que, para fazer frente a despesas com obras, equipamentos e at\u00e9 funcion\u00e1rios terceirizados, precisam recorrer a emendas parlamentares.<\/p>\n<p>O reitor substituto do IFB, Rodrigo Alfani, afirma:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s somos a favor da expans\u00e3o da rede, claro, mas ela precisa ocorrer junto com a consolida\u00e7\u00e3o das unidades que j\u00e1 existem.<\/p>\n<p>De acordo com Alfani, as emendas de senadores e deputados federais s\u00e3o bem-vindas e fazem toda a diferen\u00e7a para os institutos federais. No entanto, continua ele, o ideal seria que a totalidade do dinheiro de que a rede necessita para se manter estivesse prevista anualmente no Or\u00e7amento federal:<\/p>\n<p>\u2014 Isso nos permitiria fazer um planejamento melhor e nos daria um maior poder de decis\u00e3o sobre como aplicar o dinheiro.<\/p>\n<p>O reitor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Rafael Barreto Almada, avalia que os institutos n\u00e3o est\u00e3o livres do risco de entrar num ciclo peri\u00f3dico de greves por melhores sal\u00e1rios e mais verbas, da mesma forma que as universidades federais.<\/p>\n<p>\u2014 O or\u00e7amento dos institutos federais caiu muito em termos reais nos \u00faltimos anos. O or\u00e7amento de 2024 \u00e9 o mesmo de 2014, sendo que hoje temos muito mais alunos. Isso \u00e9 um risco para a rede, j\u00e1 que n\u00e3o d\u00e1 para falar em educa\u00e7\u00e3o sem falar em planejamento de investimentos \u2014 diz Almada, que tamb\u00e9m \u00e9 vice-presidente do Conselho Nacional das Institui\u00e7\u00f5es da Rede Federal de Educa\u00e7\u00e3o Profissional, Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica (Conif).<\/p>\n<p>Funcion\u00e1ria do IFSP, a assistente social Michelli Daros escreveu o livro <em>#falaestudante! \u2013 um estudo sobre o legado da expans\u00e3o dos institutos federais aos seus estudantes <\/em>(Educ \u2013 Editora da PUC-SP) a partir de entrevistas com alunos de diferentes regi\u00f5es do Brasil. Os jovens apontaram tr\u00eas problemas principais em seus institutos.<\/p>\n<p>Primeiro, a aus\u00eancia de restaurante ou lanchonete em alguns campi. Depois, a falta de espa\u00e7os de conviv\u00eancia nos pr\u00e9dios, onde se possa descansar, conversar ou passar o tempo entre uma aula e outra. Por fim, a localiza\u00e7\u00e3o remota e isolada de certas unidades, dificultando o acesso dos estudantes.<\/p>\n<p>\u2014 Apesar da precariedade nesse pontos espec\u00edficos, os jovens se disseram privilegiados e orgulhosos por estudar num instituto federal \u2014 afirma ela.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139853 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-apicultura-alunos-torno.jpg\" alt=\"\" width=\"679\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-apicultura-alunos-torno.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-apicultura-alunos-torno-300x99.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-apicultura-alunos-torno-150x50.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/if-apicultura-alunos-torno-768x253.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 679px) 100vw, 679px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Cursos de apicultura no instituto federal em Catu (BA) e de eletromec\u00e2nica em Taguatinga (DF) (Gaia Sch\u00fcler\/MEC e Pillar Pedreira\/Ag\u00eancia Senado)<\/em><\/p>\n<p>Daros tamb\u00e9m entrevistou pessoas de comunidades vizinhas e encontrou muita gente que n\u00e3o sabia ao certo o que era o instituto federal. Ela sugere que os institutos tracem estrat\u00e9gias para se tornar reconhecidos socialmente:<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o seja necess\u00e1rio fazer uma grande campanha publicit\u00e1ria. Bastaria alcan\u00e7ar as comunidades por meio de projetos de extens\u00e3o, que s\u00e3o a\u00e7\u00f5es culturais e cursos de curta dura\u00e7\u00e3o que dialogam com o entorno e levam a popula\u00e7\u00e3o para dentro dos campi. Outro caminho seria trabalhar em parceria com as prefeituras.<\/p>\n<p>Daros explica por que a sociedade precisa saber o que s\u00e3o aqueles pr\u00e9dios com a sigla IF em verde e vermelho na fachada:<\/p>\n<p>\u2014 A popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 lutar pelos institutos federais e exigir que o governo os priorize se ela usufruir dos seus servi\u00e7os e entender a sua import\u00e2ncia para a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Senado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No lado escola, oferecem ensino m\u00e9dio, educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos (EJA) e cursos t\u00e9cnicos profissionalizantes. No lado universidade, contam com gradua\u00e7\u00e3o, especializa\u00e7\u00e3o, mestrado e doutorado Os pr\u00e9dios com a<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":136799,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,30],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/139846"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=139846"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/139846\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":139854,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/139846\/revisions\/139854"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/136799"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=139846"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=139846"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=139846"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}