{"id":141242,"date":"2024-12-20T09:58:14","date_gmt":"2024-12-20T12:58:14","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=141242"},"modified":"2024-12-20T09:58:14","modified_gmt":"2024-12-20T12:58:14","slug":"coluna-de-cinema-edicao-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-13\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 13"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>O Judoka: em busca do filme perdido<\/em><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Os 50 anos da pioneira adapta\u00e7\u00e3o de quadrinhos brasileira<\/strong><\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-141243 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-3.png\" alt=\"\" width=\"592\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-3.png 592w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-3-300x111.png 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-3-150x56.png 150w\" sizes=\"(max-width: 592px) 100vw, 592px\" \/><\/p>\n<p>Em 2023 completaram-se 50 anos do lan\u00e7amento do filme \u201c<strong><em>O Judoka\u201d<\/em><\/strong>, longa-metragem brasileiro que adaptou o personagem das hist\u00f3rias em quadrinhos para o cinema. O personagem Judoka, lan\u00e7ado em uma publica\u00e7\u00e3o mensal da EBAL (Editora Brasil-Am\u00e9rica) em 1969, foi apresentado \u00e0 \u00e9poca como o \u201cprimeiro her\u00f3i genuinamente brasileiro\u201d. Aquele per\u00edodo foi marcado pela chegada \u00e0s bancas de revista brasileiras dos super-her\u00f3is da Marvel, como Homem-de-Ferro, Thor, Hulk, Namor e Capit\u00e3o Am\u00e9rica. Este \u00faltimo parece ter sido uma forte refer\u00eancia para o uniforme utilizado pelo Judoka. Assim como o Capit\u00e3o Am\u00e9rica utiliza as cores da bandeira norte-americana, o nosso her\u00f3i nacional utiliza o verde e amarelo em sua vestimenta (lembrando que as cores s\u00f3 eram percebidas nas capas coloridas, pois as p\u00e1ginas do miolo eram impressas em preto e branco).<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em 1973, o filme \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em>, dirigido por Marcelo Ramos Motta, possui ineg\u00e1vel valor hist\u00f3rico para a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica brasileira, seja pelo ineditismo e ousadia da proposta, seja pelo mito que se criou em torno do longa-metragem. Naquele per\u00edodo inicial dos anos 70 as adapta\u00e7\u00f5es de hist\u00f3rias em quadrinhos eram desconsideradas pela ind\u00fastria. O primeiro movimento realmente efetivo com a for\u00e7a dos grandes est\u00fadios de Hollywood foi a produ\u00e7\u00e3o \u201c<em>Superman\u201d<\/em>, dirigida por Richard Donner em 1978. O \u00eaxito do longa-metragem despertou o interesse e alavancou uma s\u00e9rie de outras produ\u00e7\u00f5es baseadas nas HQs, at\u00e9 chegarmos ao dom\u00ednio absoluto dos <em>blockbusters<\/em> da Marvel e DC que tomou conta das salas de cinema na virada do s\u00e9culo e perdura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-141244 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-6.png\" alt=\"\" width=\"555\" height=\"425\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-6.png 555w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-6-300x230.png 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka-6-150x115.png 150w\" sizes=\"(max-width: 555px) 100vw, 555px\" \/><\/p>\n<p>Portanto, dentro deste cen\u00e1rio, \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em>, produzido cinco anos antes de \u201c<em>Superman\u201d<\/em>, foi precursor e vision\u00e1rio, ainda que involunt\u00e1rio e aleat\u00f3rio, devido \u00e0 falta de continuidade e ao absoluto fracasso de bilheteria da produ\u00e7\u00e3o. O filme ficou em cartaz apenas uma semana no Rio de Janeiro, onde foi produzido. As poucas c\u00f3pias existentes (consta que foram apenas 7 ou 8) foram posteriormente exibidas, por alguns dias, nas maiores capitais do pa\u00eds: S\u00e3o Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador. Ap\u00f3s este breve per\u00edodo de exibi\u00e7\u00e3o o filme saiu completamente de circula\u00e7\u00e3o, entrou no limbo e sumiu sem deixar vest\u00edgio. A ponto de muita gente duvidar que o filme um dia realmente existiu, que tudo havia sido um del\u00edrio coletivo, particularmente dos f\u00e3s da revista.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-141245 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka1.jpg\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"311\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka1.jpg 577w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka1-300x162.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/filme-judoka1-150x81.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><\/p>\n<p>Uma lenda se formou em torno da produ\u00e7\u00e3o, mas efetivamente o filme existiu. Algumas pessoas diretamente envolvidas ainda est\u00e3o por a\u00ed para confirmar. \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em> foi estrelado por Pedro Aguinaga, que \u00e0 \u00e9poca detinha o t\u00edtulo de \u201chomem mais bonito do Brasil\u201d, ap\u00f3s vencer concurso promovido pelo programa de Fl\u00e1vio Cavalcanti. Figura bastante conhecida no <em>jet set<\/em> carioca, Pedrinho Aguinaga (como era chamado) chegou a atuar posteriormente com alguma regularidade no cinema brasileiro, em filmes como \u201c<em>Os Trapalh\u00f5es na Guerra dos Planetas\u201d<\/em> e algumas produ\u00e7\u00f5es de Neville D\u2019Almeida, como \u201c<em>Rio Babil\u00f4nia\u201d<\/em>, \u201c<em>Matou a Fam\u00edlia e foi ao Cinema\u201d<\/em> e \u201c<em>Navalha na Carne\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>O par rom\u00e2ntico de Aguinaga em \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em> foi interpretado pela atriz Eliz\u00e2ngela (falecida em 2023) estrela em ascens\u00e3o das telenovelas da Globo na \u00e9poca. Quando o filme foi lan\u00e7ado ela estava no elenco da novela \u201c<em>Cavalo de A\u00e7o\u201d<\/em>. Outro nome de destaque do elenco \u00e9 Marcus Alvisi (como um dos vil\u00f5es da hist\u00f3ria), que posteriormente fez carreira como professor de interpreta\u00e7\u00e3o e diretor teatral.<\/p>\n<p>N\u00e3o consta que haja nenhuma c\u00f3pia p\u00fablica dispon\u00edvel do filme dirigido por Marcelo Ramos Motta. A vers\u00e3o integral de \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em> \u00e9 objeto de busca permanente de pesquisadores do cinema brasileiro. O filme, at\u00e9 o momento inacess\u00edvel, assumiu a condi\u00e7\u00e3o de objeto de culto, quase um \u201csanto graal\u201d para os cin\u00e9filos em geral e f\u00e3s do personagem em particular.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o do longa-metragem foi a primeira e \u00fanica experi\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o de Marcelo Ramos Motta, uma figura um tanto misteriosa e enigm\u00e1tica do cinema nacional. Sua vida certamente daria um filme, como se diz usualmente para personagens que nos fascinam. O pouco que se sabe da trajet\u00f3ria de Marcelo se parece por demais com a biografia de um personagem de fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem mais do que meia d\u00fazia de fotos com o registro da imagem do realizador. Curiosamente, uma delas \u00e9 justamente uma foto de divulga\u00e7\u00e3o de \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em>, onde aparece orientando Pedrinho Aguinaga na coreografia de uma luta.<\/p>\n<p>Nascido no Rio de Janeiro, na adolesc\u00eancia Marcelo falava fluentemente o ingl\u00eas, sem sotaque, algo um tanto raro nos anos 50. Posteriormente morou por v\u00e1rios anos nos Estados Unidos. Por l\u00e1 escreveu alguns contos, todos no g\u00eanero da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e chegou ainda a desenvolver dois roteiros para o programa <em>General Motors Theatre<\/em>, uma s\u00e9rie dram\u00e1tica de antologia da televis\u00e3o canadense (ambos tamb\u00e9m de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica). A obra em ingl\u00eas de Marcelo Ramos Motta (contos e roteiros) foram publicadas em livro por uma pequena editora norte-americana.<\/p>\n<p>Ao retornar ao Brasil, no in\u00edcio dos anos 60, Marcelo investiu na \u00e1rea que realmente era seu maior interesse: o ocultismo e o esoterismo. Publicou livros e artigos sobre o tema e filiou-se a grupos como a A.M.O.R.C. (Antiga e M\u00edstica Ordem Rosacruz) e a FRA (Fraternitas Rosicruciana Antiqua). Marcelo tamb\u00e9m propagava e divulgava as ideias do ocultista brit\u00e2nico Aleister Crowley. No c\u00edrculo de amizades de Marcelo no Rio de Janeiro estavam dois futuros personagens de sucesso da m\u00fasica e da literatura brasileira: Raul Seixas e Paulo Coelho. Ambos foram inseridos no universo do esoterismo por influ\u00eancia de Marcelo Ramos Motta, que fazia as vezes de mentor de Raul e Paulo. A experi\u00eancia coletiva do trio foi intensa e deu frutos tamb\u00e9m como parceria musical. Marcelo foi parceiro de composi\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es, inclusive \u201cTente Outra Vez\u201d, sucesso lan\u00e7ado em 1975.<\/p>\n<p>Especula-se que o prop\u00f3sito de Marcelo Ramos Motta ao realizar \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em> (um personagem de sucesso naquele momento) era faturar uma boa bilheteria para futuramente utilizar os lucros para seus projetos relacionados \u00e0 expans\u00e3o das ordens m\u00edsticas por todo o Brasil. O cinema propriamente nunca foi o interesse principal de Marcelo, mas um meio para angariar recursos. Por\u00e9m, o projeto naufragou nas bilheterias. Jamais recuperou o investimento, inclusive deixou d\u00edvidas que o amarguraram pelo restante da vida. Marcelo Ramos Motta morreu em 1987, aos 56 anos. N\u00e3o deixou herdeiros. Por esta raz\u00e3o, seus direitos autorais das can\u00e7\u00f5es foram repassados para as filhas de Raul Seixas. Uma informa\u00e7\u00e3o equivocada que circula \u00e9 de que Marcelo tamb\u00e9m teria dirigido \u201c<em>A Estranha Hospedaria dos Prazeres\u201d<\/em> (1976) em parceria com Jos\u00e9 Mojica Marins (criador do Z\u00e9 do Caix\u00e3o). Trata-se na verdade de um hom\u00f4nimo, que assina apenas como Marcelo Motta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"184\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 184px) 100vw, 184px\" \/>Como j\u00e1 citado, n\u00e3o existem c\u00f3pias integrais de \u201c<em>O Judoka\u201d<\/em>. O que h\u00e1, em estado muito prec\u00e1rio, s\u00e3o cerca de 25 minutos do filme, preservados pela Cinemateca do MAM (RJ). Recentemente o pesquisador e restaurador F\u00e1bio Vellozo localizou uma lata com o trailer original, que foi recuperado e digitalizado. Um documento hist\u00f3rico que merece ser conhecido desta aventura da cinematografia brasileira.<\/p>\n<p>Assista o trailer de \u201c<strong><em>O Judoka\u201d<\/em><\/strong>: <a href=\"https:\/\/vimeo.com\/775177231\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/vimeo.com\/775177231<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Judoka: em busca do filme perdido Os 50 anos da pioneira adapta\u00e7\u00e3o de quadrinhos brasileira Em 2023 completaram-se 50 anos do lan\u00e7amento do filme \u201cO Judoka\u201d, longa-metragem brasileiro que<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":139279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141242"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=141242"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141242\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":141246,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141242\/revisions\/141246"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=141242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=141242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=141242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}