{"id":141489,"date":"2025-01-10T09:00:58","date_gmt":"2025-01-10T12:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=141489"},"modified":"2025-01-10T09:00:58","modified_gmt":"2025-01-10T12:00:58","slug":"coluna-de-cinema-edicao-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-14\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 14"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Nosferatu: a sedu\u00e7\u00e3o do horror<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-141467 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/filme-nosferatu.jpg\" alt=\"\" width=\"670\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/filme-nosferatu.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/filme-nosferatu-300x180.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/filme-nosferatu-150x90.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/filme-nosferatu-768x462.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 670px) 100vw, 670px\" \/><\/p>\n<p>Um dos cl\u00e1ssicos mais ic\u00f4nicos do Cinema Expressionista alem\u00e3o, \u201c<em>Nosferatu\u201d<\/em> foi realizado por F. W. Murnau em 1922. O roteiro foi baseado no romance \u201cDr\u00e1cula\u201d (1897) de Bram Stoker, no entanto, por problemas legais \u2013 a vi\u00fava de Stoker negou a venda dos direitos quando a produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava em andamento &#8211; o filme ganhou um novo t\u00edtulo e o nome dos personagens foi alterado. O conde Dr\u00e1cula foi rebatizado como conde Orlok, por exemplo. A primeira vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica oficial s\u00f3 chegaria \u00e0s telas em 1931, no longa-metragem \u201cDr\u00e1cula\u201d, produzido pela Universal em Hollywood com Bela Lugosi no papel-t\u00edtulo. Quase 60 anos depois do \u201c<em>Nosferatu\u201d<\/em> original, em 1979 o diretor alem\u00e3o Werner Herzog, conterr\u00e2neo de Murnau, lan\u00e7ou uma s\u00f3bria e soturna refilmagem estrelada por Klaus Kinski, Isabelle Adjani e Bruno Ganz, que no Brasil ganhou o subt\u00edtulo de \u201c<em>O Vampiro da Noite\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>O vampiro que nunca morre renasce mais uma vez no cinema, pouco mais de um s\u00e9culo ap\u00f3s a primeira apari\u00e7\u00e3o em celuloide. A nova vers\u00e3o traz a assinatura de Robert Eggers que j\u00e1 mostrou afinidade com o universo do horror e da fantasia fant\u00e1stica em filmes como \u201c<em>A Bruxa\u201d<\/em>, \u201c<em>O Farol\u201d<\/em> e \u201c<em>O Homem do Norte\u201d<\/em>. O primeiro ponto a se ressaltar aqui \u00e9 que <strong>\u201c<em>Nosferatu\u201d<\/em><\/strong> (2024) n\u00e3o \u00e9 um simples remake em grande escala do cl\u00e1ssico do cinema mudo. Trata-se mais de uma releitura cheia de imagina\u00e7\u00e3o do sombrio territ\u00f3rio das sombras \u2013 j\u00e1 conhecido \u00e0 exaust\u00e3o &#8211; temperado com altas doses de sedu\u00e7\u00e3o e abordagem er\u00f3tica que aflora \u00e0 pele com calafrios e desejo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-141466 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nosferatu-hitting-theaters-christmas-2024-with-lily-rose-depp1.png\" alt=\"\" width=\"667\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nosferatu-hitting-theaters-christmas-2024-with-lily-rose-depp1.png 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nosferatu-hitting-theaters-christmas-2024-with-lily-rose-depp1-300x153.png 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nosferatu-hitting-theaters-christmas-2024-with-lily-rose-depp1-150x77.png 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nosferatu-hitting-theaters-christmas-2024-with-lily-rose-depp1-768x393.png 768w\" sizes=\"(max-width: 667px) 100vw, 667px\" \/><\/p>\n<p>O entrecho da trama \u00e9 bastante conhecido. Na Alemanha do s\u00e9culo XIX o agente imobili\u00e1rio Thomas Hutter (Nicholas Hoult) viaja at\u00e9 o isolado castelo do conde Orlock (Bill Skarsgard), localizado na Transilv\u00e2nia, para fechar o contrato de venda de uma mans\u00e3o na fict\u00edcia Wisborg, cidade portu\u00e1ria alem\u00e3 onde mora. O objetivo do conde \u00e9 viver pr\u00f3ximo da sua paix\u00e3o, Ellen Hutter (Lily-Rose Depp), esposa de Thomas. A chegada do amaldi\u00e7oado conde vampiro em busca da amada traz tamb\u00e9m o caos e o horror para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta vers\u00e3o o rigorismo formal de Eggers presta um tributo ao Expressionismo alem\u00e3o ao trabalhar os elementos caracter\u00edsticos do movimento: luzes, sombras, contrastes e distor\u00e7\u00f5es espaciais na cenografia. Al\u00e9m do que, como rever\u00eancia definitiva ao filme de 1922, ainda preserva os nomes dos personagens, desconsiderando os nomes utilizados no romance de Bram Stoker. N\u00e3o temos, portanto, Dr\u00e1cula, Jonathan, Mina, Van Helsing ou Renfield.<\/p>\n<p><em>\u201cNosferatu\u201d<\/em> transita entre o mundo das sombras, manifesto por recorrentes pesadelos, e o mundo real das coisas, onde o Mal assume o corpo f\u00edsico de Orlok. O desequil\u00edbrio destes mundos inicia quando Jonathan acessa o territ\u00f3rio do conde amaldi\u00e7oado, quase como concedendo uma permiss\u00e3o para a criatura invadir o universo dos pobres mortais. H\u00e1 neste aspecto uma esp\u00e9cie de permuta de posi\u00e7\u00f5es, como houvesse um troca de identidades. O ponto comum deste espelhamento \u00e9 a figura de Ellen, objeto do desejo de ambos. Estabelece-se ent\u00e3o um perigoso e mortal tri\u00e2ngulo amoroso. O roteiro concede uma expans\u00e3o da trama original propondo novas camadas de complexidades nas rela\u00e7\u00f5es do trio de protagonistas.<\/p>\n<p>Usualmente interpretado como uma hist\u00f3ria amor que chega aos limites do folhetinesco em vers\u00f5es anteriores da obra de Bram Stoker, al\u00e9m de outras representa\u00e7\u00f5es dos vampiros em vers\u00f5es pop da ind\u00fastria cultural, neste \u201c<em>Nosferatu\u201d<\/em> a abordagem vai al\u00e9m da mera paix\u00e3o rom\u00e2ntica ao assumir uma conota\u00e7\u00e3o abertamente sexual com apelo carnal. Estamos, portanto, diante de uma hist\u00f3ria de adult\u00e9rio, sexy, visceral e extrema. O terreno explorado aqui \u00e9 o do desejo e da paix\u00e3o no contexto de uma hist\u00f3ria de terror g\u00f3tico. O amor t\u00f3xico de Orlok por sua amada revela uma parte desconhecida da natureza da personalidade de Ellen, que horrorizada se divide entre a repulsa e a entrega. Somente um derradeiro orgasmo visceral pode dar conta do paradoxo que invade seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A imagem da figura do insepulto Nosferatu \/ Orlok \u00e9 uma das mais conhecidas da hist\u00f3ria do cinema de horror. Reinterpretar esteticamente este personagem cl\u00e1ssico certamente foi um dos maiores desafios de Robert Eggers. A decis\u00e3o foi reinterpretar na totalidade o visual do vampiro. N\u00e3o h\u00e1 nada de beleza sedutora aristocr\u00e1tica, nem pele clara e smokings alinhados nesta nova representa\u00e7\u00e3o. A l\u00f3gica da concep\u00e7\u00e3o \u00e9 de que se trata essencialmente de um cad\u00e1ver, portanto, carnes podres, inchadas e repulsivas fazem sentido na composi\u00e7\u00e3o do personagem. Nesta constru\u00e7\u00e3o o visual do conde assume mais um aspecto demon\u00edaco do que propriamente vampiresco. Completa o quadro a cavernosa voz de Orlok que traz ecos inconfund\u00edveis do sotaque gutural caracter\u00edstico da inflex\u00e3o de Bela Lugosi (com um \u201cr\u201d muito carregado), fruto da ascend\u00eancia romena e conhecimento parcial da l\u00edngua inglesa. O resultado \u00e9 uma esp\u00e9cie de Darth Vader das trevas.<\/p>\n<p><em><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"166\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 166px) 100vw, 166px\" \/>\u201cNosferatu\u201d<\/em> arrebata os sentidos com uma vers\u00e3o exuberante de narrativa s\u00f3lida e consistente. \u00c9 em igual medida assustador e sedutor em seu mergulho profundo nas sombras da mente de seus personagens protagonistas. Ao explorar novos caminhos, inexistentes tanto na obra original quanto nas diversas vers\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, Robert Eggers acerta em todas suas decis\u00f5es est\u00e9ticas que elevam o filme a uma condi\u00e7\u00e3o de produto art\u00edstico de excel\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Assista ao trailer: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=moIrYMjS0nI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nosferatu<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nosferatu: a sedu\u00e7\u00e3o do horror Um dos cl\u00e1ssicos mais ic\u00f4nicos do Cinema Expressionista alem\u00e3o, \u201cNosferatu\u201d foi realizado por F. W. Murnau em 1922. 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