{"id":143874,"date":"2025-04-22T14:33:14","date_gmt":"2025-04-22T17:33:14","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=143874"},"modified":"2025-04-22T14:33:14","modified_gmt":"2025-04-22T17:33:14","slug":"coluna-de-cinema-edicao-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-28\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 28"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Pecadores: quando o blues encontra o Inferno<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-143875 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores.jpg\" alt=\"\" width=\"663\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores-300x152.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores-150x76.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores-768x388.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 663px) 100vw, 663px\" \/><\/p>\n<p>Ap\u00f3s cinco anos moldando o universo de \u201c<em>Pantera Negra\u201d<\/em> &#8211; que rendeu duas obras de prest\u00edgio do cinema de super-her\u00f3is (2018 e 2022) -, Ryan Coogler liberta-se das amarras dos blockbusters para assumir as r\u00e9deas de seu projeto mais pessoal e arriscado. \u201c<strong><em>Pecadores\u201d<\/em><\/strong> (<em>Sinners<\/em>, 2025) rompe com a tradi\u00e7\u00e3o das adapta\u00e7\u00f5es, pois trata-se de uma cria\u00e7\u00e3o original nascida da mente do diretor, produzida por sua produtora Proximity Media. Neste terreno livre de concess\u00f5es comerciais, Coogler n\u00e3o apenas desafia g\u00eaneros como reafirma sua maturidade art\u00edstica, trocando os trajes heroicos por uma narrativa visceral que beira o confessional.<\/p>\n<p>No calor opressivo do Sul norte-americano em 1932, os irm\u00e3os g\u00eameos Elijah e Isaiah (dupla interpreta\u00e7\u00e3o de Michael B. Jordan) travam uma batalha dupla: contra a segrega\u00e7\u00e3o racial e pela realiza\u00e7\u00e3o do sonho de criar um bar\/clube de blues. O que come\u00e7a como um drama hist\u00f3rico de resist\u00eancia cultural transforma-se radicalmente quando criaturas noturnas &#8211; vampiros que personificam, metaforicamente, a Ku Klux Klan em sua ess\u00eancia mais monstruosa &#8211; declaram guerra \u00e0 comunidade negra. Neste universo, o blues transcende sua fun\u00e7\u00e3o musical sendo ao mesmo tempo maldi\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o, ponte para o inferno e arma contra seus mensageiros.<\/p>\n<p><em>\u201cPecadores\u201d<\/em> \u00e9 um experimento de alquimia onde o diretor funde drama de \u00e9poca, filme de gangsters, horror vampiresco, a\u00e7\u00e3o pulsante e musical &#8211; uma combina\u00e7\u00e3o perigosa que em tese flertaria com a trag\u00e9dia. Coogler, por\u00e9m, tece essas influ\u00eancias com a uma precis\u00e3o de mestre. A longa, sinuosa e espetacular sequ\u00eancia da evolu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica negra (encenada no ambiente do bar) \u00e9 particularmente deslumbrante: um bal\u00e9 cinematogr\u00e1fico que conecta s\u00e9culos de hist\u00f3ria atrav\u00e9s de movimentos coreografados com intensidade quase religiosa. As refer\u00eancias &#8211; desde o blues sobrenatural de <em>Um Drink no Inferno<\/em> at\u00e9 o horror social dos zumbis de Romero &#8211; s\u00e3o assimiladas, n\u00e3o meramente copiadas. At\u00e9 elementos visuais (postes de energia el\u00e9trica que simbolizam cruzes e revoadas de corvos como arautos do destino) servem \u00e0 narrativa com naturalidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-143876 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores2.png\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"372\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores2.png 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores2-300x169.png 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores2-150x85.png 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/filme-pecadores2-768x433.png 768w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/p>\n<p>A primeira metade do filme constr\u00f3i meticulosamente seu mundo: um drama s\u00f3cio-hist\u00f3rico que mescla a crueza dos filmes de gangster com a autenticidade do cinema realista. Na segunda metade, quando ocorre a virada para o sobrenatural &#8211; onde os vampiros (todos brancos, todos famintos) iniciam seu cerco &#8211; \u00e9 t\u00e3o abrupta quanto necess\u00e1ria. Coogler aqui reproduz a ess\u00eancia do blues: a ruptura e a disson\u00e2ncia transformada em arte.<\/p>\n<p><em>\u201cPecadores\u201d<\/em> poderia ter sido apenas mais um manifesto panflet\u00e1rio. Em vez disso, Coogler opta pela sofistica\u00e7\u00e3o. Sua cr\u00edtica ao racismo estrutural \u00e9 constru\u00edda atrav\u00e9s de imagens e s\u00edmbolos, nunca atrav\u00e9s de discursos. Os monstros n\u00e3o s\u00e3o meras met\u00e1foras, mas extens\u00f5es l\u00f3gicas de um mal hist\u00f3rico que nunca foi embora. A trilha sonora &#8211; personagem central da trama &#8211; n\u00e3o apenas ambienta, mas comenta a a\u00e7\u00e3o, criando camadas de significado que se revelam em cada revisita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"213\" height=\"277\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 213px) 100vw, 213px\" \/>O que Coogler entrega absolutamente n\u00e3o \u00e9 uma reinven\u00e7\u00e3o do cinema, mas um exerc\u00edcio muito bem-sucedido em elevar o entretenimento de g\u00eanero ao status de arte. Cada elemento &#8211; da dire\u00e7\u00e3o, da fotografia, da trilha, da dire\u00e7\u00e3o de arte &#8211; converge para criar uma experi\u00eancia \u00fanica. \u201c<em>Pecadores\u201d<\/em> \u00e9 simultaneamente um soco no est\u00f4mago e um poema visual, um filme que consegue ser intelectual sem perder seu poder de entreter. O diretor celebra a cultura negra n\u00e3o atrav\u00e9s da idealiza\u00e7\u00e3o, mas da confronta\u00e7\u00e3o honesta com seus fantasmas. A mistura de mitologia afroamericana, religiosidade e folclore resulta em um terror g\u00f3tico sulista. Um alento criativo em um mar de f\u00f3rmulas pregui\u00e7osas.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de \u201c<em>Pecadores\u201d<\/em> s\u00f3 se completa com a sequ\u00eancia p\u00f3s-cr\u00e9ditos &#8211; n\u00e3o um mero extra estilo Marvel, mas um ep\u00edlogo que ressignifica toda a jornada e permanece na mem\u00f3ria como o acorde final de um grande blues.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pecadores: quando o blues encontra o Inferno Ap\u00f3s cinco anos moldando o universo de \u201cPantera Negra\u201d &#8211; que rendeu duas obras de prest\u00edgio do cinema de super-her\u00f3is (2018 e 2022)<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":139279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143874"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=143874"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143874\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":143877,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143874\/revisions\/143877"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=143874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=143874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=143874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}