{"id":144804,"date":"2025-05-30T04:24:35","date_gmt":"2025-05-30T07:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=144804"},"modified":"2025-05-29T15:29:19","modified_gmt":"2025-05-29T18:29:19","slug":"coluna-de-cinema-edicao-34","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-34\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 34"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>O Esquema Fen\u00edcio: a gaiola de ouro de Wes Anderson<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-144805 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenincio.jpg\" alt=\"\" width=\"667\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenincio.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenincio-300x203.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenincio-150x101.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenincio-768x518.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 667px) 100vw, 667px\" \/><\/p>\n<p>Autor de um cinema geom\u00e9trico, matem\u00e1tico e sensorial, Wes Anderson consolida-se como um devoto da simetria \u2014 mais rigoroso que Stanley Kubrick, outro cineasta obcecado pelo tema. Seus filmes funcionam como livros para colorir vistos por um olhar obsessivo, nos quais a forma sempre suplanta o discurso. Em \u201c<strong><em>O Esquema Fen\u00edcio\u201d<\/em><\/strong> (The Phoenician Scheme, 2025) essa assinatura atinge seu \u00e1pice onde cada plano \u00e9 uma equa\u00e7\u00e3o resolvida com a precis\u00e3o de um ourives, mas tamb\u00e9m com a frieza de um teorema matem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ambientado nos anos 1950, o filme acompanha o magnata europeu Zsa-Zsa Korda (Ben\u00edcio Del Toro), que, ap\u00f3s sobreviver a m\u00faltiplos atentados, nomeia sua filha \u2014 uma freira \u2014 como herdeira de seu imp\u00e9rio. Juntos, embarcam numa jornada repleta de espionagem internacional, trai\u00e7\u00f5es e dilemas morais entre fam\u00edlia e poder. O enredo, no entanto, \u00e9 mero pretexto para Anderson explorar seu verdadeiro interesse: a arquitetura da narrativa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-144806 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenicio2.jpg\" alt=\"\" width=\"643\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenicio2.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenicio2-300x205.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenicio2-150x102.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/filme-esquema-fenicio2-768x524.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 643px) 100vw, 643px\" \/><\/p>\n<p>O roteiro trata o inesperado como um jogo de RPG de deriva\u00e7\u00f5es infinitas e Anderson deleita-se em explorar cada possibilidade narrativa. A constru\u00e7\u00e3o labir\u00edntica exige aten\u00e7\u00e3o redobrada, mesclando complexidade estrutural e uma est\u00e9tica deliberadamente delicada \u2014 um equil\u00edbrio que revela seu fasc\u00ednio pela fragmenta\u00e7\u00e3o e pelo controle minucioso. \u00c9 o caos traduzido em precis\u00e3o visual com cen\u00e1rios exuberantes, a\u00e7\u00e3o desenfreada e situa\u00e7\u00f5es absurdas que coexistem sob uma mesma lente sim\u00e9trica.<\/p>\n<p>Comparado a \u201c<em>Asteroid City\u201d<\/em>, seu filme anterior, aqui Anderson introduz o humor de maneira org\u00e2nica (ainda que contida), sem recorrer a grandes efeitos c\u00f4micos. Essa leveza descontra\u00edda, marca de seus melhores trabalhos \u2014 como \u201c<em>O Grande Hotel Budapeste\u201d<\/em>, outro filme de espionagem e aventura com humor \u00e1cido \u2014, serve de contraponto ao formalismo est\u00e9tico, quase como uma homenagem ao tom das aventuras de Tintim, de Herg\u00e9. Refer\u00eancias tem\u00e1ticas e visuais \u00e0 obra do quadrinista ecoam nos planos meticulosamente diagramados e na aura de &#8216;miss\u00e3o imposs\u00edvel&#8217; europeia.<\/p>\n<p>Caro leitor, at\u00e9 aqui nos detivemos apenas na parte positiva da hist\u00f3ria, destacando seus m\u00e9ritos e aspectos criativos, amplamente reconhecidos. O lado menos solar dessa narrativa, por\u00e9m, \u00e9 a recorrente repeti\u00e7\u00e3o de uma f\u00f3rmula que, com pouca margem de erro, parece estar \u00e0 beira do esgotamento. Wes Anderson vive um paradoxo em sua obra. O mesmo conjunto de elementos que o consagrou como um cineasta de estilo inconfund\u00edvel agora o aproxima perigosamente de se tornar um pastiche de si mesmo. O diretor, afinal, est\u00e1 enclausurado em sua pr\u00f3pria gaiola de ouro. Seu excesso de simetria e paletas de cores impec\u00e1veis, antes ve\u00edculos de narrativas melanc\u00f3licas ou sat\u00edricas, agora parecem servir apenas \u00e0 autocita\u00e7\u00e3o. Em outros tempos sin\u00f4nimo de inova\u00e7\u00e3o, sua assinatura visual corre o risco de se tornar mera decora\u00e7\u00e3o vazia.<\/p>\n<p>Assistir \u201c<em>O Esquema Fen\u00edcio\u201d<\/em> \u00e9 realmente uma experi\u00eancia, ainda que n\u00e3o inteiramente prazerosa. De in\u00edcio nos deleitamos com o deslumbramento est\u00e9tico de cores, formas, composi\u00e7\u00f5es e arte visual. Em determinado momento, na metade do filme, passamos a ficar incomodados pela falta de rumo e prop\u00f3sito de uma hist\u00f3ria que se perde em digress\u00f5es vazias sem avan\u00e7ar em um arco narrativo convincente que de fato nos seduza. Por fim, em seu terceiro ato, torcemos para que os minutos voem e o filme, enfim, chegue a um desfecho. Qualquer desfecho, desde que ponha fim \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Cada novo filme de Wes Anderson parece confirmar uma verdade curiosa: atuar em suas obras \u00e9 certamente mais divertido que assisti-las. Essa ironia explica os elencos estelares que o cineasta consegue reunir. Em \u201c<em>O Esquema Fen\u00edcio\u201d<\/em> a lista \u00e9 t\u00e3o prestigiosa quanto dispersa. Al\u00e9m do j\u00e1 citado protagonista Benicio Del Toro ainda temos em cena, em participa\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias, m\u00ednimas ou secretas, nomes como Michael Cera, William Defoe, Tom Hanks, F. Murray Abraham, Bryan Cranston, Riz Ahmed, Benedict Cumberbatch, Bill Murray, Scarlett Johansson, Jeffrey Wright, Mathieu Amalric e Charlotte Gainsbourg.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"137\" height=\"178\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 137px) 100vw, 137px\" \/>\u00c9 um espet\u00e1culo de nomes grandiosos a servi\u00e7o de um filme que, no final, se revela mais um exerc\u00edcio de estilo do que uma narrativa satisfat\u00f3ria. Diante disso, talvez o verdadeiro divertimento para o espectador esteja em adotar o pr\u00f3prio esp\u00edrito l\u00fadico do realizador: transformar a experi\u00eancia numa ca\u00e7a ao tesouro, explorando cada quadro em busca dessas estrelas perdidas no labirinto visual. Wes Anderson permanece um mestre incontest\u00e1vel no seu of\u00edcio, mas seu universo meticulosamente constru\u00eddo necessita urgentemente de mais alma e menos esquemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Esquema Fen\u00edcio: a gaiola de ouro de Wes Anderson Autor de um cinema geom\u00e9trico, matem\u00e1tico e sensorial, Wes Anderson consolida-se como um devoto da simetria \u2014 mais rigoroso que<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":139279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144804"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=144804"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144804\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":144807,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144804\/revisions\/144807"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=144804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=144804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=144804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}