{"id":147983,"date":"2025-10-06T10:22:37","date_gmt":"2025-10-06T13:22:37","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=147983"},"modified":"2025-10-06T10:22:37","modified_gmt":"2025-10-06T13:22:37","slug":"a-noite-em-que-o-brasil-cantou-e-o-mundo-ouviu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/a-noite-em-que-o-brasil-cantou-e-o-mundo-ouviu\/","title":{"rendered":"A Noite em que o Brasil cantou e o mundo ouviu"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>O Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1968 reuniu uma constela\u00e7\u00e3o de talentos e hist\u00f3rias<\/em><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Marcelo Gonzales*<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>@celogonzales @vidadevinil<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Hoje \u00e9 6 de outubro.<\/p>\n<p>E sempre que esse dia chega, algo em mim desperta, como se o pa\u00eds inteiro respirasse, por alguns instantes, o mesmo ar do Maracan\u00e3zinho de 1968, quando a m\u00fasica ainda tinha o poder de desafiar o sil\u00eancio imposto pelos tempos sombrios.<\/p>\n<p>Eu nasci em 1972.<\/p>\n<p>N\u00e3o estive l\u00e1, nem diante da televis\u00e3o em preto e branco, nem sentado nas arquibancadas, mas cada vez que mergulho nas imagens e sons daquele festival, sinto como se estivesse. Talvez por isso eu tenha me tornado um pesquisador musical, para tocar, de algum modo, o que n\u00e3o vivi.<\/p>\n<p>Naquela noite de 6 de outubro de 1968, o Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o, transmitido pela Globo, coroava sua final no Maracan\u00e3zinho, com um p\u00fablico que fervia entre aplausos e vaias. Era o auge da era dos festivais com um pa\u00eds dividido entre o medo e a esperan\u00e7a, e os artistas transformando dor em melodia, censura em verso, protesto em harmonia.<\/p>\n<p>E foi assim que o Brasil ouviu, pela primeira vez, o canto vitorioso de Sabi\u00e1, de Tom Jobim e Chico Buarque, interpretada pelas irm\u00e3s Cynara e Cybele.<br \/>\n\u201cVou voltar, sei que ainda vou voltar&#8230;\u201d Esses versos suaves, de um lirismo quase melanc\u00f3lico, ecoaram num gin\u00e1sio tenso, onde muitos esperavam outra can\u00e7\u00e3o: Pra N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei das Flores, de Geraldo Vandr\u00e9, a voz de um pa\u00eds que negava se calar. Vandr\u00e9 n\u00e3o venceu, mas saiu de l\u00e1 vitorioso na alma de um povo.<br \/>\nSeu refr\u00e3o, simples e corajoso, marchava nas ruas: <em>\u201cVem, vamos embora, que esperar n\u00e3o \u00e9 saber, quem sabe faz a hora, n\u00e3o espera acontecer.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Entre essas can\u00e7\u00f5es, uma de ex\u00edlio, outra de coragem, formava-se o retrato de um pa\u00eds inteiro, dividido entre cantar e resistir. A m\u00fasica brasileira, ali, deixava de ser apenas entretenimento, tornava-se testemunho.<\/p>\n<p>A Globo, que transmitia o festival, cumpria um papel duplo, pois, exibia a festa e, ao mesmo tempo, ajudava a registrar a coragem de uma gera\u00e7\u00e3o. Os festivais criaram estrelas e consolidaram vozes de Chico Buarque, Edu Lobo, Mar\u00edlia Medalha, Geraldo Vandr\u00e9, Elis Regina, Beth Carvalho, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, entre tantos outros. Era como se a televis\u00e3o, ainda jovem, descobrisse seu poder cultural, e a m\u00fasica descobrisse o poder de existir, mesmo vigiada.<\/p>\n<p>O Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1968 reuniu uma constela\u00e7\u00e3o de talentos e hist\u00f3rias. Al\u00e9m de Sabi\u00e1 e Pra N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei das Flores, estavam l\u00e1 can\u00e7\u00f5es como Andan\u00e7a, de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapaj\u00f3s, interpretada por Beth Carvalho e os Golden Boys, que ficou em terceiro lugar e se tornaria um cl\u00e1ssico atemporal. Era um palco onde os futuros gigantes da MPB ainda n\u00e3o sabiam o tamanho que teriam, cantavam apenas porque acreditavam.<\/p>\n<p>Olhar pra tr\u00e1s, hoje, \u00e9 perceber que a m\u00fasica venceu a morda\u00e7a. Se n\u00e3o fossem os versos, as met\u00e1foras, o risco, o subtexto e o sil\u00eancio de muitos compositores, talvez estiv\u00e9ssemos ainda presos \u00e0quela ditadura que tentou calar o pa\u00eds. Mas a can\u00e7\u00e3o atravessou o tempo, o medo e a censura. E, no final, venceu.<\/p>\n<p>Por isso, neste 6 de outubro de 2025, escrevo n\u00e3o apenas sobre um festival, mas sobre um marco de liberta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica. A cada nova pesquisa, sinto que estou menos distante daquela noite. Fecho os olhos, e posso quase sentir o cheiro de verniz do palco, o som met\u00e1lico das cordas afinando, o p\u00fablico se levantando, uns em vaias, outros em l\u00e1grimas. E l\u00e1, ao fundo, um sabi\u00e1 ainda canta, lembrando que a mem\u00f3ria \u00e9 o que nos devolve o que o tempo tentou levar.<\/p>\n<p>Para quem viveu, \u00e9 lembran\u00e7a. Para quem n\u00e3o viveu, \u00e9 heran\u00e7a. E para quem escreve sobre ela, \u00e9 miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>*Marcelo Gonzales \u00e9 autor do blog Que Dia \u00e9 Hoje?, vive entre discos de vinil e muita m\u00eddia f\u00edsica, sempre atento \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 cultura e ao jornalismo, compartilhando hist\u00f3rias que conectam gera\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p>Imagem Divulga\u00e7\u00e3o \u2013 Acervo Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1968 reuniu uma constela\u00e7\u00e3o de talentos e hist\u00f3rias Marcelo Gonzales* @celogonzales @vidadevinil Hoje \u00e9 6 de outubro. 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