{"id":148556,"date":"2025-10-27T08:33:08","date_gmt":"2025-10-27T11:33:08","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=148556"},"modified":"2025-10-27T08:33:08","modified_gmt":"2025-10-27T11:33:08","slug":"o-samba-o-traco-e-a-eternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/o-samba-o-traco-e-a-eternidade\/","title":{"rendered":"O samba, o tra\u00e7o e a eternidade"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>O samba n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m, mas \u00e9 de todos que ainda acreditam que a arte pode curar o tempo<\/em><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Marcelo Gonzales*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>@celogonzales @vidadevinil<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 datas que n\u00e3o apenas marcam o tempo: elas o redesenham. 27 de outubro \u00e9 uma dessas. Em 2023, Zeca Baleiro escolheu esse dia para lan\u00e7ar o \u00e1lbum <em>O Samba N\u00e3o \u00c9 de Ningu\u00e9m<\/em>, e, sem saber, ou talvez sabendo com o instinto dos artistas que carregam o Brasil dentro, fez dessa data um reencontro entre som, mem\u00f3ria e tra\u00e7o. A capa do disco foi assinada por Elifas Andreato, artista que j\u00e1 n\u00e3o estava entre n\u00f3s, mas cuja presen\u00e7a continua a desenhar o rosto da m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel olhar para a capa e n\u00e3o sentir o gesto de Elifas, o Brasil profundo, o povo em forma de cor, a m\u00e3o que pintava com indigna\u00e7\u00e3o e ternura. Elifas nunca foi um ilustrador decorativo. Era um cronista do pa\u00eds em imagens. Cada disco que tocava, ele transformava em manifesto, como se o som precisasse ser visto para ser sentido por inteiro. E agora, mesmo depois de sua partida, sua arte reaparece como quem n\u00e3o aceita o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Zeca Baleiro, por sua vez, sempre teve essa habilidade rara de juntar as pontas da can\u00e7\u00e3o brasileira. <em>O Samba N\u00e3o \u00c9 de Ningu\u00e9m<\/em> \u00e9 mais que um \u00e1lbum: \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o. \u00c9 o gesto de um artista que, depois de tantos caminhos, decide se entregar a um g\u00eanero que sempre o espreitou, mas que ele adiava enfrentar de frente. O samba, aqui, n\u00e3o pertence a ningu\u00e9m, porque \u00e9 de todos, e de todos os tempos. Zeca canta com respeito e reinven\u00e7\u00e3o, com a serenidade de quem sabe que tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pris\u00e3o, \u00e9 passagem.<\/p>\n<p>E h\u00e1 algo de profundamente simb\u00f3lico no fato de essa capa ser uma das \u00faltimas obras de Elifas Andreato. O homem que deu rosto a tantos discos de Chico Buarque, Paulinho da<\/p>\n<p>Viola, Martinho da Vila, Elis Regina e tantos outros, agora sela seu nome numa obra que respira o mesmo ar desses mestres. A arte visual e a arte sonora se reencontram, e o Brasil, por um instante, volta a ser essa coisa viva e contradit\u00f3ria que Elifas tanto pintou: alegre e sofrida, esperan\u00e7osa e ferida, mas sempre pulsante.<\/p>\n<p>Pery Ribeiro, nascido tamb\u00e9m em um 27 de outubro, l\u00e1 em 1937, talvez sorrisse desse acaso bonito. Porque ele foi a primeira voz de <em>Garota de Ipanema<\/em>, e sabia o que era ser o primeiro a dar som a um sentimento coletivo. A data de seu nascimento e o lan\u00e7amento deste \u00e1lbum de Zeca Baleiro formam uma ponte: a heran\u00e7a e a reinven\u00e7\u00e3o, o ontem e o agora.<\/p>\n<p>O samba n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m, mas \u00e9 de Elifas. \u00c9 de Pery. \u00c9 de Zeca. \u00c9 do povo que canta sem saber de onde vem o canto. \u00c9 do Brasil que, mesmo cansado, ainda encontra um motivo para girar o disco e ouvir de novo o som de sua pr\u00f3pria alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>*Marcelo Gonzales \u00e9 autor do blog Que Dia \u00e9 Hoje?, vive entre discos de vinil e muita m\u00eddia f\u00edsica, sempre atento \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 cultura e ao jornalismo, compartilhando hist\u00f3rias que conectam gera\u00e7\u00f5es. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O samba n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m, mas \u00e9 de todos que ainda acreditam que a arte pode curar o tempo Marcelo Gonzales* @celogonzales @vidadevinil H\u00e1 datas que n\u00e3o apenas marcam<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":148557,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148556"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=148556"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":148558,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148556\/revisions\/148558"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/148557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=148556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=148556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=148556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}