{"id":148643,"date":"2025-10-30T13:16:47","date_gmt":"2025-10-30T16:16:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=148643"},"modified":"2025-10-30T13:16:47","modified_gmt":"2025-10-30T16:16:47","slug":"schizophrenia-silencio-e-um-30-de-outubro-entre-criacao-e-partida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/schizophrenia-silencio-e-um-30-de-outubro-entre-criacao-e-partida\/","title":{"rendered":"Schizophrenia, sil\u00eancio e um 30 de outubro entre cria\u00e7\u00e3o e partida"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>30 de outubro, lan\u00e7amento de Schizophrenia e morte de Jam Master Jay<\/em><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Marcelo Gonzales*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>@celogonzales @vidadevinil<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 datas em que o tempo parece se partir em dois. Como se o mundo respirasse vida e morte na mesma inspira\u00e7\u00e3o. Como se o som e o sil\u00eancio resolvessem, num pacto secreto, dividir a posse de um mesmo dia. O dia 30 de outubro \u00e9 um desses. De um lado, o nascimento de Schizophrenia, o \u00e1lbum do Sepultura que redefiniu o metal brasileiro e projetou o pa\u00eds na geografia sonora do mundo. De outro, a morte brutal de Jam Master Jay, o DJ que ajudou a fundar o hip hop moderno e que viu sua hist\u00f3ria interrompida no est\u00fadio, no Queens, em 2002. Entre um e outro, um mesmo fio de som que se rompe e renasce. Uma mesma sensa\u00e7\u00e3o de desordem, de mente dividida, como se a pr\u00f3pria m\u00fasica tivesse sido acometida por uma esp\u00e9cie de esquizofrenia coletiva.<\/p>\n<p>Penso em Schizophrenia como um grito. Um grito que saiu de Minas Gerais e ecoou pelo planeta inteiro. Gravado no est\u00fadio J.G. em Belo Horizonte, lan\u00e7ado em 30 de outubro de 1987 pela Cogumelo Records, o disco marcou a chegada de Andreas Kisser, a consolida\u00e7\u00e3o de uma forma\u00e7\u00e3o que unia Max e Igor Cavalera, Paulo Jr. e uma f\u00faria que o mundo ainda n\u00e3o sabia decifrar. A crueza das guitarras, os vocais em transe, o peso ritual\u00edstico das baterias, tudo em Schizophrenia parecia cuspir contra qualquer forma de conten\u00e7\u00e3o. Era a mente brasileira dizendo ao mundo: <em>\u201cestamos aqui, e n\u00e3o pedimos licen\u00e7a para existir\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O vinil original vinha com um encarte que mais parecia um espelho quebrado, desenhos distorcidos, rostos, s\u00edmbolos, fragmentos. A pr\u00f3pria capa j\u00e1 era um manifesto visual, uma representa\u00e7\u00e3o da confus\u00e3o interna, do caos que habita cada cria\u00e7\u00e3o. Talvez por isso o nome tenha sido t\u00e3o certeiro. Schizophrenia, ou, no nosso idioma, esquizofrenia, n\u00e3o apenas como transtorno mental, mas como estado de alma, de quem sente o mundo de modo dilacerado, misturando dor e beleza, sanidade e f\u00faria. E o disco era exatamente isso: um colapso criativo, um del\u00edrio controlado pela precis\u00e3o dos riffs.<\/p>\n<p>O \u00e1lbum n\u00e3o trouxe pr\u00eamios imediatos, n\u00e3o figurou nas paradas de forma avassaladora, mas trouxe algo que valia muito mais, que se chama respeito. Os cr\u00edticos estrangeiros come\u00e7aram a olhar para o Brasil com outro tipo de curiosidade. O som que sa\u00eda de Belo Horizonte tinha textura, tinha verdade. E n\u00f3s, brasileiros, sentimos orgulho, um orgulho puro, daquele tipo que n\u00e3o se explica, apenas se sente. Era o sentimento de pertencimento a uma cena mundial que, at\u00e9 ent\u00e3o, parecia inalcan\u00e7\u00e1vel. Era o Brasil erguendo a cabe\u00e7a e dizendo, entre distor\u00e7\u00f5es e gritos: <em>\u201ctamb\u00e9m sabemos fazer hist\u00f3ria\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Enquanto isso, o outro 30 de outubro, o de 2002, seria o oposto exato desse nascimento. Jam Master Jay, o DJ que revolucionou a forma de tocar e entender o hip hop, foi assassinado dentro de seu est\u00fadio em Nova York. Jason Mizell, seu nome de batismo, tinha 37 anos e deixava para tr\u00e1s um legado que moldou gera\u00e7\u00f5es. Foi ele quem deu forma ao som da Run-D.M.C., quem colocou a batida do DJ como protagonista e n\u00e3o como pano de fundo. Sua morte foi um golpe seco. E a not\u00edcia se espalhou como um sil\u00eancio ensurdecedor.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero transform\u00e1-lo em her\u00f3i. N\u00e3o quero canoniz\u00e1-lo como m\u00e1rtir. Havia rumores, na \u00e9poca, sobre envolvimentos obscuros, neg\u00f3cios errados, disputas e d\u00edvidas. Mas o que me interessa aqui \u00e9 o impacto cultural e emocional do que se perdeu. Porque, naquele instante, o hip hop ficou sem ch\u00e3o. O cen\u00e1rio urbano norte-americano viveu um curto-circuito de sentimentos, de incredulidade, raiva, tristeza, confus\u00e3o. Russell Simmons, cofundador da Def Jam, disse em nota p\u00fablica: <em>\u201cPerdemos um dos arquitetos do nosso som. Perdemos um irm\u00e3o, e o sil\u00eancio agora \u00e9 pesado demais.\u201d<\/em> Outros artistas, de LL Cool J a Chuck D, expressaram o mesmo atordoamento, a mesma sensa\u00e7\u00e3o de que o g\u00eanero havia perdido o pr\u00f3prio eixo.<\/p>\n<p>Uma testemunha ocular, Uriel Rincon, relatou ao tribunal anos depois<em>: \u201cEu olhei e vi Jay cair. Tentei segurar o ferimento, mas ele j\u00e1 n\u00e3o respondia.\u201d<\/em> Outro depoimento, de Yarrah Concepcion, foi ainda mais duro: <em>\u201cEu sabia que ele se fora. S\u00f3 pude tentar ver se ainda respirava.\u201d<\/em> A brutalidade do ato dissolveu a fronteira entre arte e trag\u00e9dia. E o hip hop, t\u00e3o acostumado a transformar dor em poesia, dessa vez pareceu paralisado.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a met\u00e1fora da esquizofrenia volta a fazer sentido. A esquizofrenia cl\u00ednica \u00e9 um dist\u00farbio que fragmenta o pensamento, embaralha percep\u00e7\u00f5es, altera a liga\u00e7\u00e3o com a realidade. Pois foi assim que o meio musical se sentiu naquele 30 de outubro, sendo dividido, desorientado, afetado. De um lado, o metal brasileiro em plena afirma\u00e7\u00e3o; do outro, o hip hop americano em colapso emocional. Uma data bipolar da hist\u00f3ria da m\u00fasica, um lado gritando, o outro silenciado, mesmo com a diferen\u00e7a de anos&#8230;<\/p>\n<p>Nos dias que se seguiram, f\u00e3s do Sepultura celebravam com euforia o nascimento de uma obra que, aos poucos, ganharia status de culto. F\u00e3s de Jay, por outro lado, acendiam velas, cantavam seus refr\u00f5es e tentavam entender por que o destino havia desligado o toca-discos no meio da festa. Os dois mundos, t\u00e3o diferentes, vibravam sob o mesmo c\u00e9u, numa esp\u00e9cie de sinfonia dissonante entre o orgulho e o luto.<\/p>\n<p>Hoje, quase quatro d\u00e9cadas depois do lan\u00e7amento de Schizophrenia, percebo que o \u00e1lbum continua reverberando como um manifesto de resist\u00eancia. Max e Igor Cavalera regravaram-no em 2023, trazendo nova energia, nova leitura, como se o passado exigisse sempre um recome\u00e7o. O disco segue vivo, ensinado em riffs o que significa nascer \u00e0 margem e conquistar o centro.<\/p>\n<p>J\u00e1 o nome de Jam Master Jay sobrevive em forma de legado, n\u00e3o de santifica\u00e7\u00e3o, mas de t\u00e9cnica, de influ\u00eancia. DJs do mundo inteiro ainda copiam seus cortes, estudam seus movimentos de scratch, reverenciam sua presen\u00e7a no palco. \u00c9 o tipo de imortalidade que n\u00e3o se conquista com discursos, mas com som. O hip hop moderno ainda o carrega, mesmo sem o colocar num pedestal. Ele permanece como parte da funda\u00e7\u00e3o, da argamassa invis\u00edvel que sustenta o g\u00eanero.<\/p>\n<p>Quando olho para esse 30 de outubro, sinto que a hist\u00f3ria quis me ensinar uma li\u00e7\u00e3o dura: o som e o sil\u00eancio s\u00e3o partes de uma mesma melodia. Schizophrenia nasceu do caos criativo, Jam Master Jay morreu dentro de um est\u00fadio, v\u00edtima de outro tipo de caos. E eu, espectador distante, fico com a impress\u00e3o de que a m\u00fasica \u00e9 feita de extremos, de pulsa\u00e7\u00f5es e pausas, de nascimentos e aus\u00eancias.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos escolher entre o aplauso e o luto. Ambos cabem no mesmo cora\u00e7\u00e3o. Podemos celebrar o disco que elevou o nome do Brasil e, ao mesmo tempo, respeitar o sil\u00eancio que se abateu sobre o hip hop. Porque, no fundo, cada nota tocada e cada batida interrompida fazem parte da mesma sinfonia humana.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que eu digo que o 30 de outubro n\u00e3o \u00e9 apenas uma data no calend\u00e1rio da m\u00fasica, \u00e9 uma cicatriz. Uma cicatriz que fala. Que canta. Que ainda d\u00f3i. Mas que, como toda ferida sonora, continua ecoando.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0*Marcelo Gonzales \u00e9 autor do blog Que Dia \u00e9 Hoje?, vive entre discos de vinil e muita m\u00eddia f\u00edsica, sempre atento \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 cultura e ao jornalismo, compartilhando hist\u00f3rias que conectam gera\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>30 de outubro, lan\u00e7amento de Schizophrenia e morte de Jam Master Jay Marcelo Gonzales* @celogonzales @vidadevinil H\u00e1 datas em que o tempo parece se partir em dois. 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