{"id":148680,"date":"2025-10-31T11:02:04","date_gmt":"2025-10-31T14:02:04","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=148680"},"modified":"2025-10-31T11:02:04","modified_gmt":"2025-10-31T14:02:04","slug":"coluna-de-cinema-edicao-53","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-53\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 53"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Bom Menino: pelos olhos do medo<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-148682 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-bom-menino-cachorro.png\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-bom-menino-cachorro.png 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-bom-menino-cachorro-300x150.png 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-bom-menino-cachorro-150x75.png 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-bom-menino-cachorro-768x384.png 768w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>Imagine um filme de horror e suspense onde tudo que vemos e sentimos \u00e9 filtrado pela percep\u00e7\u00e3o de um c\u00e3o. Esta \u00e9 a premissa ousada e genial de <strong><em>\u201cBom Menino\u201d<\/em><\/strong> (Good Boy, 2025), dirigido por Ben Leonberg. O filme n\u00e3o apenas utiliza um cachorro como protagonista, mas mergulha o espectador por completo em sua subjetividade, criando uma experi\u00eancia de medo \u00fanica e profundamente cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>A trama segue um homem que, ap\u00f3s uma trag\u00e9dia familiar n\u00e3o detalhada, se refugia na antiga casa de sua fam\u00edlia, um local carregado de mem\u00f3rias e suspeito de ser, em algum n\u00edvel, mal-assombrado. Ele n\u00e3o est\u00e1 sozinho, seu fiel c\u00e3o, Indy, faz companhia. \u00c9 atrav\u00e9s dos olhos e ouvidos de Indy que testemunhamos o tutor passar por uma inquietante transforma\u00e7\u00e3o, possivelmente ligada a uma maldi\u00e7\u00e3o heredit\u00e1ria, enquanto ambos s\u00e3o expostos a amea\u00e7as invis\u00edveis, mas potencialmente fatais.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o narrativa de adotar a perspectiva canina tem implica\u00e7\u00f5es formais profundas. A c\u00e2mera permanece quase sempre em \u00e2ngulo baixo, e os humanos s\u00e3o retratados de forma fragmentada, apenas torsos, m\u00e3os, pernas, etc. Seus rostos raramente s\u00e3o vistos por completo, nunca se constituindo como personagens plenos, mas como &#8220;objetos de cena&#8221; dentro do mundo sensorial de Indy. A reconhecida sensibilidade canina \u00e9 traduzida com maestria, nos conduzindo a dimens\u00f5es sonoras e visuais inacess\u00edveis \u00e0 percep\u00e7\u00e3o humana. Nesse universo, sil\u00eancios se tornam eloquentes e ru\u00eddos se amplificam, construindo uma tens\u00e3o constante.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-148683 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/cachorro.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/cachorro.jpg 600w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/cachorro-300x168.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/cachorro-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Nesse contexto, h\u00e1 algo de brilhante na express\u00e3o neutra de Indy. Ela funciona como uma tela em branco para as proje\u00e7\u00f5es do espectador, um princ\u00edpio que remete diretamente ao famoso Efeito Kuleshov. O cineasta russo Lev Kuleshov demonstrou, nos anos 1920, que uma mesma express\u00e3o facial impass\u00edvel adquire significados diferentes conforme a imagem que a precede ou sucede. Em \u201c<em>Bom Menino\u201d<\/em>, o olhar do c\u00e3o n\u00e3o comunica por si s\u00f3, mas pelo contexto criado pela montagem. Cada corte, cada novo enquadramento projeta sobre ele uma emo\u00e7\u00e3o: medo, alerta, curiosidade. O significado n\u00e3o est\u00e1 intrinsicamente em seus olhos, mas naquilo que o espectador, guiado pelo filme, decide ver neles. Ele nada expressa, mas tudo reflete.<\/p>\n<p>A magia do filme \u00e9 que essa &#8220;atua\u00e7\u00e3o&#8221; convincente \u00e9 alcan\u00e7ada sem a depend\u00eancia de truques digitais, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de baix\u00edssimo or\u00e7amento. O segredo reside na paci\u00eancia do realizador e no trabalho magistral de edi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 surpresa, ent\u00e3o, descobrir que Indy \u00e9, na vida real, o cachorro do pr\u00f3prio roteirista e diretor, Ben Leonberg. Essa sintonia real entre dono e animal explica parte do sucesso, com o restante da magia sendo conquistado na sala de corte, onde os fragmentos de comportamento canino s\u00e3o costurados para criar uma performance narrativa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-148681 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-cachorrogood-boy-1.jpg\" alt=\"\" width=\"668\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-cachorrogood-boy-1.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-cachorrogood-boy-1-300x159.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-cachorrogood-boy-1-150x80.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filme-cachorrogood-boy-1-768x408.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 668px) 100vw, 668px\" \/><\/p>\n<p>Apesar da engenhosidade de sua premissa e de sua curta dura\u00e7\u00e3o (pouco mais de 70 minutos), \u00e9 ineg\u00e1vel que, em certo ponto, as situa\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o come\u00e7am a se tornar um pouco repetitivas, sem conduzir a trama para frente com a agilidade que se poderia esperar. No entanto, este \u00e9 um trope\u00e7o menor diante da realiza\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/>Por fim, para al\u00e9m de seus m\u00e9ritos como filme de terror, \u201c<em>Bom Menino\u201d<\/em> refor\u00e7a de maneira poderosa e comovente a conex\u00e3o \u00fanica entre c\u00e3es e seres humanos. O filme nos lembra que, por vezes, a lealdade mais pura e a percep\u00e7\u00e3o mais agu\u00e7ada do perigo v\u00eam de uma criatura que, embora n\u00e3o fale nossa l\u00edngua, nos entende de uma forma que talvez n\u00f3s mesmos n\u00e3o sejamos capazes. \u00c9 um testemunho arrepiante e belo do v\u00ednculo que desafia at\u00e9 mesmo as sombras mais antigas e assustadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bom Menino: pelos olhos do medo Imagine um filme de horror e suspense onde tudo que vemos e sentimos \u00e9 filtrado pela percep\u00e7\u00e3o de um c\u00e3o. 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