{"id":148713,"date":"2025-11-03T14:46:25","date_gmt":"2025-11-03T17:46:25","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=148713"},"modified":"2025-11-03T14:46:25","modified_gmt":"2025-11-03T17:46:25","slug":"adeus-a-lo-borges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/adeus-a-lo-borges\/","title":{"rendered":"Adeus a L\u00f4 Borges"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>As cordas silenciam e a m\u00fasica permanece<\/em><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Marcelo Gonzales*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>@celogonzales @vidadevinil<\/strong><\/p>\n<p>Hoje o Brasil amanheceu com um vazio que n\u00e3o se traduz em palavras e que talvez nem a mais bonita melodia consiga abra\u00e7ar. Perdemos L\u00f4 Borges no dia 2 de novembro de 2025 e junto dele partiu um peda\u00e7o da nossa mem\u00f3ria afetiva, da nossa paisagem interna, do horizonte que Minas projetou para o mundo. H\u00e1 despedidas que ecoam como se o tempo parasse e hoje a m\u00fasica brasileira parou para respirar fundo e sentir essa dor.<\/p>\n<p>A not\u00edcia chega como uma nota suspensa que n\u00e3o resolve. Fica no ar tremendo, pedindo compreens\u00e3o de algo que ainda n\u00e3o sabemos explicar. O pa\u00eds se recolhe. Quem cresceu ouvindo aquele timbre \u00edntimo, quase confessional, sente como se tivesse perdido um amigo que sempre esteve por perto. Um amigo que falava baixinho com o cora\u00e7\u00e3o de cada um.<\/p>\n<p>L\u00f4 era assim. Um compositor de alma livre que caminhava pela vida carregando acordes como quem carrega lembran\u00e7as num bolso de cal\u00e7a surrada. Minas sempre teve esse dom de revelar artistas que murmuram verdades suaves e profundas e ele foi um dos maiores entre eles. Um dos fundadores do Clube da Esquina, movimento que reinventou a MPB ao unir jazz, Beatles, rock, poesia universal e o ar rarefeito das montanhas mineiras. Ali, na esquina de Santa Tereza, nasceu uma revolu\u00e7\u00e3o serena e eterna e L\u00f4 escreveu seus cap\u00edtulos com a delicadeza de quem sabe ouvir o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Quando ele cantava, a voz n\u00e3o vinha para impressionar. Vinha para tocar. Havia um sorriso t\u00edmido na emiss\u00e3o, um mundo inteiro guardado atr\u00e1s daquele jeito moleque que envelheceu sem nunca perder o brilho. Era como se cada palavra carregasse uma luz discreta, capaz de iluminar mem\u00f3rias que nem sab\u00edamos que guard\u00e1vamos. E quando sua m\u00fasica encontrava os nossos dias, algo dentro da gente se ajeitava.<\/p>\n<p>Seu primeiro voo foi gigante. Em 1972, ao lado de Milton Nascimento, ajudou a conceber o lend\u00e1rio \u00e1lbum Clube da Esquina. No mesmo ano, lan\u00e7ou seu disco solo, aquele do t\u00eanis, o disco que virou s\u00edmbolo de liberdade musical e de juventude inquieta. Um \u00e1lbum que parece caminhar por ruas molhadas ao entardecer, misturando inoc\u00eancia e profundidade, sonho e realidade, risco e beleza. H\u00e1 discos que s\u00e3o vidas. O dele foi isso.<\/p>\n<p>Depois vieram tantas outras obras e cada uma delas carregando uma parte do seu cora\u00e7\u00e3o generoso. A Via L\u00e1ctea. Os Borges. Nuvem Cigana. Sonho Real. Meu Filme. Feira Moderna. Um Dia e Meio. Bhanda.\u00a0 Harmonia. Horizonte Vertical. Rio da Lua. D\u00ednamo. Muito Al\u00e9m do Fim. Chama Viva. N\u00e3o Me Espere na Esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A lista \u00e9 longa, e mesmo assim insuficiente para dimensionar o impacto de sua trajet\u00f3ria. Cada \u00e1lbum foi um recome\u00e7o. Cada can\u00e7\u00e3o foi um gesto de afeto.<\/p>\n<p>Quem nunca parou no meio da tarde ouvindo <em>Um Girassol da Cor do Seu Cabelo<\/em> e se permitiu sentir a vida inteira em uma \u00fanica frase. Quem nunca se deixou ser levado por <em>O Trem Azul<\/em> enquanto o mundo desacelerava l\u00e1 fora. Quem nunca abriu uma janela real ou imagin\u00e1ria ao som de <em>Paisagem da Janela<\/em>. M\u00fasicas que nos acompanharam em fases, em despedidas, em viagens, em abra\u00e7os, em sil\u00eancios.<\/p>\n<p>Hoje as pessoas voltam a essas can\u00e7\u00f5es como quem retorna para casa em dia de chuva. Porque a m\u00fasica dele tem esse dom de aquecer. E em momentos como este precisamos desse calor mais do que nunca.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar do menino que compunha r\u00e1pido, com urg\u00eancia de vida, como se cada cria\u00e7\u00e3o fosse um sopro que o universo entregava e ele apenas devolvia para o mundo. Ele dizia que algumas faixas do Clube da Esquina nasceram e foram gravadas no mesmo dia. Era inspira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pedia licen\u00e7a. Era vida que escorria pela ponta dos dedos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o foi s\u00f3 no Brasil que sua m\u00fasica encontrou eco. Artistas do mundo inteiro reconheceram nele uma fonte rara. Alex Turner, dos Arctic Monkeys, j\u00e1 confessou ter sido inspirado por sua obra. N\u00e3o por acaso. L\u00f4 tinha esse toque universal e ao mesmo tempo t\u00e3o nosso. Era um mineiro do mundo e um cidad\u00e3o \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>A not\u00edcia de sua partida trouxe como\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o surgindo homenagens, mem\u00f3rias, palavras sentidas. Muitos lamentando profundamente a perda de um irm\u00e3o musical. Outros artistas est\u00e3o escrevendo, chorando, lembrando. A classe art\u00edstica se recolhe para tentar entender o tamanho do sil\u00eancio que agora se abre. E n\u00f3s, f\u00e3s, tentamos costurar esse vazio com m\u00fasica. Porque \u00e9 isso que ele nos ensinou a fazer.<\/p>\n<p>Hoje a cidade de Belo Horizonte parece mais baixa. Santa Tereza amanhece de cabe\u00e7a inclinada. O trem azul n\u00e3o passa e o girassol permanece parado, tentando compreender por que a luz se recolheu t\u00e3o cedo. A janela continua aberta, mas o ar entra mais devagar.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a gratid\u00e3o ressoa. A obra que L\u00f4 deixa \u00e9 uma bagagem infinita. \u00c9 afeto guardado em acordes. \u00c9 poesia que caminha entre n\u00f3s. \u00c9 ch\u00e3o e \u00e9 c\u00e9u. \u00c9 hist\u00f3ria e \u00e9 futuro. L\u00f4 n\u00e3o foi um artista comum. Foi um sopro divino desses que a vida nos d\u00e1 de presente e depois leva de volta devagarzinho.<\/p>\n<p>E n\u00f3s vamos seguir ouvindo. Vamos seguir cantando. Vamos seguir olhando para o horizonte com a mesma esperan\u00e7a que ele sempre colocou nas melodias. H\u00e1 artistas que n\u00e3o morrem. H\u00e1 vozes que permanecem suspensas para sempre no ar. L\u00f4 Borges \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p>Hoje nos despedimos com dor profunda.\u00a0 Mas tamb\u00e9m com amor imenso.<\/p>\n<p>Que a sua m\u00fasica continue atravessando gera\u00e7\u00f5es. Que seu nome ecoe sempre nas esquinas da nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Que sua can\u00e7\u00e3o nos visite todas as manh\u00e3s.<\/p>\n<p>Boa\u00a0 viagem, L\u00f4.<\/p>\n<p>Seu trem azul agora segue um trilho que a gente ainda n\u00e3o consegue ver.<\/p>\n<p>Mas sabemos que ele nos espera depois da curva.<\/p>\n<p>E at\u00e9 l\u00e1, seguiremos ouvindo.<\/p>\n<p>Seguindo. Sentindo.<\/p>\n<p>Com gratid\u00e3o eterna por tudo o que voc\u00ea deixou.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>*Marcelo Gonzales \u00e9 autor do blog Que Dia \u00e9 Hoje?, vive entre discos de vinil e muita m\u00eddia f\u00edsica, sempre atento \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 cultura e ao jornalismo, compartilhando hist\u00f3rias que conectam gera\u00e7\u00f5es. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cordas silenciam e a m\u00fasica permanece Marcelo Gonzales* @celogonzales @vidadevinil Hoje o Brasil amanheceu com um vazio que n\u00e3o se traduz em palavras e que talvez nem a mais<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":148714,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148713"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=148713"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148713\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":148715,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148713\/revisions\/148715"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/148714"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=148713"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=148713"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=148713"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}