{"id":149157,"date":"2025-11-19T08:55:48","date_gmt":"2025-11-19T11:55:48","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=149157"},"modified":"2025-11-19T08:55:48","modified_gmt":"2025-11-19T11:55:48","slug":"ultraprocessados-ja-sao-quase-um-quarto-da-alimentacao-dos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/ultraprocessados-ja-sao-quase-um-quarto-da-alimentacao-dos-brasileiros\/","title":{"rendered":"Ultraprocessados j\u00e1 s\u00e3o quase um quarto da alimenta\u00e7\u00e3o dos brasileiros"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Levantamento em 93 pa\u00edses mostra que o consumo aumentou em 91<\/em><\/h3>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de ultraprocessados na alimenta\u00e7\u00e3o dos brasileiros mais que dobrou desde os anos 80, passando de 10% para 23%.\u00a0O\u00a0alerta vem de uma s\u00e9rie de artigos publicados nesta ter\u00e7a-feira (18) por mais de 40 cientistas, liderados por pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>A colet\u00e2nea publicada na revista Lancet mostra que este n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado do Brasil.\u00a0Dados de 93 pa\u00edses mostram que o consumo de ultraprocessados aumentou ao longo dos anos em todos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do Reino Unido, onde se manteve est\u00e1vel em 50%. O pa\u00eds europeu s\u00f3 \u00e9 superado nessa propor\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos, onde os ultraprocessados perfazem mais de 60% da dieta.<\/p>\n<p>Carlos Monteiro, pesquisador do N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade (Nupens) da USP e l\u00edder do trabalho, alerta que esse consumo crescente est\u00e1 reestruturando as dietas em todo o mundo, e n\u00e3o ocorre por acaso:<\/p>\n<p>\u201dEssa mudan\u00e7a na forma como as pessoas se alimentam \u00e9 impulsionada por grandes corpora\u00e7\u00f5es globais, que obt\u00eam lucros extraordin\u00e1rios priorizando produtos ultraprocessados, apoiadas por fortes estrat\u00e9gias de marketing e lobby pol\u00edtico que bloqueiam pol\u00edticas p\u00fablicas de promo\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o adequada e saud\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Em trinta anos, esse consumo triplicou na Espanha e na Coreia do Norte, alcan\u00e7ando \u00edndices de aproximadamente 32% tamb\u00e9m na China, onde a participa\u00e7\u00e3o dos ultraprocessados nas compras familiares era de apenas 3,5% passando a 10,4%. J\u00e1 na Argentina, o aumento foi menor, ao longo do mesmo per\u00edodo, mas saiu de 19% para 29%.<\/p>\n<p>Os artigos destacam que o aumento foi percebido nos pa\u00edses de baixa, m\u00e9dia e alta renda, sendo que os \u00faltimos j\u00e1 partiram de patamares altos, enquanto as na\u00e7\u00f5es com renda menor registraram altas mais expressivas.<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, isso reproduz um padr\u00e3o percebido tamb\u00e9m dentro dos pa\u00edses: os ultraprocessados come\u00e7aram a ser consumidos por pessoas de maior renda, mas depois se espalharam entre outros p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores ressalvam, no entanto, que o problema \u00e9 multifatorial, influenciado pela renda, mas tamb\u00e9m por quest\u00f5es culturais. Alguns pa\u00edses de alta renda t\u00eam taxa de consumo expressivo, como o Canad\u00e1, com 40%, enquanto outras na\u00e7\u00f5es, com padr\u00e3o semelhante, como It\u00e1lia e Gr\u00e9cia se mant\u00e9m abaixo de 25%.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio lembra que esses produtos passaram a ser comuns em alguns pa\u00edses de alta renda ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, mas se tornaram um fen\u00f4meno global, e seu consumo se acelerou, a partir da d\u00e9cada de 80, com a globaliza\u00e7\u00e3o. Em paralelo, tamb\u00e9m cresceram as taxas globais de obesidade e de doen\u00e7as como diabetes tipo 2, c\u00e2ncer colorretal e doen\u00e7a inflamat\u00f3ria intestinal.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias cient\u00edficas produzidas ao longo desse tempo apontam que dietas ricas em ultraprocessados est\u00e3o associadas \u00e0 ingest\u00e3o excessiva de calorias, pior qualidade nutricional e maior exposi\u00e7\u00e3o a aditivos e subst\u00e2ncias qu\u00edmicas nocivas. Al\u00e9m disso, os pesquisadores fizeram uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica de 104 estudos de longo prazo e 92 deles relataram risco aumentado de uma ou mais doen\u00e7as cr\u00f4nicas, incluindo c\u00e2ncer, doen\u00e7as cardiovasculares e metab\u00f3licas.<\/p>\n<p>\u201cO conjunto das evid\u00eancias apoia a tese de que a substitui\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es alimentares tradicionais por ultraprocessados \u00e9 um fator central no aumento global da carga de m\u00faltiplas doen\u00e7as cr\u00f4nicas relacionadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o&#8221;, explicam os cientistas.\u00a0Eles dizem que a\u00a0pesquisa sobre efeitos na sa\u00fade humana continuar\u00e1, mas isso n\u00e3o deve atrasar\u00a0as pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica em todos os n\u00edveis\u00a0&#8220;destinadas a restaurar, preservar, proteger e promover dietas baseadas em alimentos integrais e em seu preparo como pratos e refei\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 est\u00e3o atrasadas\u201d, enfatizam os cientistas.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>O que s\u00e3o ultraprocessados?<\/strong><\/h4>\n<p>O termo \u201cultraprocessados\u201d come\u00e7ou a se popularizar, ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o nova, por pesquisadores brasileiros, em 2009. Ela divide os alimentos em quatro grupos, de acordo com o grau de modifica\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s passarem por processos industriais:<\/p>\n<ul>\n<li>Alimentos n\u00e3o processados ou minimamente processados s\u00e3o vendidos em sua forma natural, ou apenas ap\u00f3s algum processo que mant\u00e9m sua estrutura b\u00e1sica, como congelamento, fracionamentos, moagem, embalo e etc. Exemplos: frutas e legumes; carnes e peixes, gr\u00e3os e cereais embalados.<\/li>\n<li>Ingredientes processados. S\u00e3o produzidos a partir de alimentos in natura e geralmente usados na prepara\u00e7\u00e3o de outros alimentos. Exemplos: \u00f3leo de soja, a\u00e7\u00facar e sal.<\/li>\n<li>Alimentos processados: S\u00e3o os produtos do grupo 1, adicionados a ingredientes do grupo 2 ou modificados atrav\u00e9s de m\u00e9todos semelhantes aos caseiros. Por exemplo: legumes e peixes enlatados, macarr\u00e3o, sucos 100% feitos com frutas e etc.<\/li>\n<li>Alimentos ultraprocessados: produtos comerciais resultantes da mistura de alimentos in natura baratos com aditivos qu\u00edmicos, altamente modificados por processos industriais. Esses aditivos t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de torn\u00e1-los altamente dur\u00e1veis, prontos para consumo e super palat\u00e1veis. Exemplo: biscoitos recheados, refrigerantes, macarr\u00e3o instant\u00e2neo e\u00a0iogurtes saborizados.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o nova tamb\u00e9m foi encabe\u00e7ada por Carlos Monteiro, l\u00edder do relat\u00f3rio global publicado nesta ter\u00e7a-feira. Ele refor\u00e7a que o objetivo da classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 facilitar o entendimento sobre \u201ccomo o processamento afeta a qualidade da nossa dieta e a nossa sa\u00fade\u201d e contribuir para a cria\u00e7\u00e3o de diretrizes, como o Guia Alimentar da Popula\u00e7\u00e3o Brasileira, criado pelo Nupens para o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que incorporou a classifica\u00e7\u00e3o nova\u00a0na sua segunda edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 20 anos\u00a0estudando as mudan\u00e7as na produ\u00e7\u00e3o de alimentos no Brasil, ligadas ao aumento da obesidade, n\u00f3s percebemos que o processamento de alimentos tinha mudado de prop\u00f3sito. Deixou de ser para preserva\u00e7\u00e3o de alimentos e passou a ser a cria\u00e7\u00e3o de substitutos para os alimentos, feitos de ingredientes baratos e aditivos\u201d, destaca.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Recomenda\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h4>\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m apresentam propostas para diminuir o consumo desses produtos\u00a0e pedem que as grandes empresas sejam responsabilizadas pelo papel que desempenham na promo\u00e7\u00e3o de dietas n\u00e3o saud\u00e1veis.\u00a0Uma das principais recomenda\u00e7\u00f5es \u00e9 que os aditivos usados, como corantes e aromatizantes, sejam sinalizados nas embalagens, assim como o excesso de gordura, sal e a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Outra medida considerada essencial \u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o desses produtos em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, como escolas e hospitais.\u00a0Nesse ponto, o Brasil \u00e9 citado como exemplo, por causa do Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE) do Brasil, que vem reduzindo a oferta desses produtos e estabeleceu que 90% dos alimentos oferecidos nas escolas devem ser frescos ou minimamente processados, a partir do ano que vem.<\/p>\n<p>Os autores tamb\u00e9m prop\u00f5em restri\u00e7\u00f5es mais rigorosas \u00e0 publicidade, especialmente \u00e0s que s\u00e3o direcionadas ao p\u00fablico infantil e destacam que, em paralelo a redu\u00e7\u00e3o da oferta de ultraprocessados, \u00e9 preciso aumentar a disponibilidade de alimentos in natura.\u00a0Uma estrat\u00e9gia sugerida \u00e9 a sobretaxa\u00e7\u00e3o de determinados ultraprocessados para financiar alimentos frescos destinados a fam\u00edlias de baixa renda.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m refor\u00e7a que o aumento no consumo desses alimentos n\u00e3o \u00e9 culpa de decis\u00f5es individuais, mas responsabilidade das grandes corpora\u00e7\u00f5es globais. De acordo com os autores, essas empresas utilizam ingredientes baratos e m\u00e9todos industriais para reduzir custos, e impulsionam o consumo com marketing agressivo e designs atraentes.<\/p>\n<p>Com vendas anuais globais de US$ 1,9 trilh\u00e3o, os ultraprocessados representam o setor mais lucrativo da ind\u00fastria aliment\u00edcia. Esses lucros, segundo os pesquisadores \u201calimentam o crescimento do poder corporativo nos sistemas alimentares, permitindo que essas empresas ampliem sua produ\u00e7\u00e3o, influ\u00eancia pol\u00edtica e presen\u00e7a de mercado, moldando dietas em escala global.\u201d<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Levantamento em 93 pa\u00edses mostra que o consumo aumentou em 91 A participa\u00e7\u00e3o de ultraprocessados na alimenta\u00e7\u00e3o dos brasileiros mais que dobrou desde os anos 80, passando de 10% para<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":149158,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,150],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149157"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=149157"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149157\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":149159,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149157\/revisions\/149159"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/149158"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=149157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=149157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=149157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}