{"id":150334,"date":"2026-01-23T00:49:20","date_gmt":"2026-01-23T03:49:20","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=150334"},"modified":"2026-01-22T13:51:48","modified_gmt":"2026-01-22T16:51:48","slug":"coluna-de-cinema-edicao-63","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-63\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 63"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Marty Supreme: mergulho no abismo da ambi\u00e7\u00e3o<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-150335 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martysupreme.jpg\" alt=\"\" width=\"651\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martysupreme.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martysupreme-300x175.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martysupreme-150x88.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martysupreme-768x448.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 651px) 100vw, 651px\" \/><\/p>\n<p>Quem j\u00e1 assistiu a \u201c<em>Joias Brutas<\/em>\u201d (Uncut Gems, 2019), codirigido por Josh e Benny Safdie, reconhecer\u00e1 imediatamente o estilo autoral que Josh Safdie reafirma em <strong><em>\u201cMarty Supreme<\/em><\/strong>\u201d (2025), seu primeiro longa-metragem em dire\u00e7\u00e3o solo desde a parceria com o irm\u00e3o. Assim como no filme estrelado por Adam Sandler, um senso de urg\u00eancia implac\u00e1vel atravessa toda a narrativa, instaurando uma atmosfera de caos meticulosamente orquestrado que arrasta o espectador para um estado de tens\u00e3o quase cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Esse modelo fren\u00e9tico reaparece em \u201c<em>Marty Supreme<\/em>\u201d por meio de uma sucess\u00e3o de acontecimentos aparentemente aleat\u00f3rios, que irrompem na trama como pequenos n\u00facleos narrativos quase aut\u00f4nomos. Interl\u00fadios ca\u00f3ticos envolvendo personagens secund\u00e1rios exc\u00eantricos e situa\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis parecem, \u00e0 primeira vista, ligeiramente deslocados da linha central da hist\u00f3ria. Trata-se, no entanto, de uma ilus\u00e3o cuidadosamente constru\u00edda. Esses desvios n\u00e3o fragmentam o filme, mas ampliam seu alcance tem\u00e1tico. O efeito \u00e9 semelhante ao p\u00e2nico existencial que atravessava o j\u00e1 citado \u201c<em>Joias Brutas\u201d<\/em>. O resultado \u00e9 um filme explosivo e imprevis\u00edvel, compar\u00e1vel a uma partida de t\u00eanis de mesa \u00e1gil, nervosa e definida por reviravoltas improvisadas, tratada como uma met\u00e1fora direta para o mundo inst\u00e1vel que cerca seu protagonista.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-150336 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-diamond-films-8-1130x590-1.jpg\" alt=\"\" width=\"651\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-diamond-films-8-1130x590-1.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-diamond-films-8-1130x590-1-300x157.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-diamond-films-8-1130x590-1-150x78.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-diamond-films-8-1130x590-1-768x401.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 651px) 100vw, 651px\" \/><\/p>\n<p>Embora seja uma hist\u00f3ria ficcional, o personagem Marty Mauser, interpretado com intensidade por Timoth\u00e9e Chalamet, carrega ecos vagos do lend\u00e1rio jogador de t\u00eanis de mesa norte-americano Marty Reisman, \u00edcone dos anos 1940 e 1950. Conhecido como \u201cThe Needle\u201d (O Agulha) por sua magreza, Reisman elevou o esporte a um espet\u00e1culo de entretenimento participando de exibi\u00e7\u00f5es promocionais, influenciando diretamente a constru\u00e7\u00e3o de um anti-her\u00f3i carism\u00e1tico, manipulador e perform\u00e1tico.<\/p>\n<p>Nesse contexto, os adjetivos que orbitam Marty Mauser (narcisista, arrogante, pretensioso, manipulador, oportunista e perform\u00e1tico) deixam de funcionar como meros tra\u00e7os psicol\u00f3gicos e passam a operar como sintomas de uma l\u00f3gica cultural mais ampla. Marty \u00e9 menos um indiv\u00edduo singular do que a encarna\u00e7\u00e3o de um tipo reconhec\u00edvel. O malandro contempor\u00e2neo, moldado por uma \u00e9tica de autopromo\u00e7\u00e3o permanente, que confunde ambi\u00e7\u00e3o com destino e carisma com legitimidade. Ao acompanhar sua trajet\u00f3ria quase ritualizada em dire\u00e7\u00e3o ao sucesso, \u201c<em>Marty Supreme<\/em>\u201d constr\u00f3i um retrato deliberadamente ca\u00f3tico e visceral dos mecanismos que produzem a fama, intrinsecamente inst\u00e1vel e ef\u00eamera, alimentada pelo excesso e pela exposi\u00e7\u00e3o, e que carrega, desde a origem, a semente inevit\u00e1vel da autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-150337 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-1.jpg\" alt=\"\" width=\"551\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-1.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-1-150x84.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/marty-supreme-1-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 551px) 100vw, 551px\" \/><\/p>\n<p>Um dos destaques do elenco \u00e9 a atriz Gwyneth Paltrow, que interpreta Kay Stone, uma estrela de cinema aposentada e socialite rica, casada, que se envolve com Marty. Sua presen\u00e7a marca um retorno \u00e0s telas em produ\u00e7\u00f5es de grande visibilidade, ap\u00f3s anos afastada dos holofotes cinematogr\u00e1ficos. Paltrow traz sofistica\u00e7\u00e3o, profundidade emocional e um toque de ironia refinada a Kay, revelando vulnerabilidades sutis, embora a complexidade da personagem n\u00e3o seja explorada em toda a sua extens\u00e3o, j\u00e1 que o foco absoluto do filme permanece no protagonista e em sua jornada obsessiva.<\/p>\n<p>Outro elemento marcante \u00e9 a trilha sonora, que mescla hits cl\u00e1ssicos dos anos 1980, com can\u00e7\u00f5es de <em>Tears for Fears<\/em>, <em>Peter Gabriel<\/em> e <em>New Order<\/em>. Essa escolha ousada, contrastando com o cen\u00e1rio dos anos 1950, amplifica a energia ansiosa de Marty, transformando a narrativa em uma experi\u00eancia vibrante.<\/p>\n<p>O interesse de Marty \u00e9 um tanto amb\u00edguo, n\u00e3o se limitando meramente ao dinheiro ou aos benef\u00edcios decorrentes do capitalismo. Sua luta interior revela algo mais profundo, ligado ao ego, \u00e0 autoestima, ao reconhecimento social e aos desafios pessoais que o impulsionam no mundo do t\u00eanis de mesa. O filme estabelece, nesse sentido, um arco simb\u00f3lico que evoca os cerca de nove meses da gesta\u00e7\u00e3o, iniciado pelo ato sexual que resulta na gravidez indesejada da namorada Rachel (a \u00f3tima Odessa A\u2019zion, uma atriz a ser acompanhada com aten\u00e7\u00e3o) e culminando no nascimento da crian\u00e7a ao final da jornada. Dentro desse recorte temporal, que funciona como met\u00e1fora central para o processo de transforma\u00e7\u00e3o do protagonista, Marty alternadamente nasce, perece, renasce, vence e sucumbe, at\u00e9 alcan\u00e7ar seu momento de reden\u00e7\u00e3o e epifania pessoal, reconciliando-se com suas ambi\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-139295\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/>Em resumo, \u201c<em>Marty Supreme<\/em>\u201d \u00e9 uma obra explosiva de Josh Safdie que captura o frenesi da ambi\u00e7\u00e3o t\u00f3xica, transformando o t\u00eanis de mesa em met\u00e1fora perfeita para o caos da fama. O filme proporciona uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica emocionalmente intensa, reafirmando Safdie como um dos cineastas mais vibrantes de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marty Supreme: mergulho no abismo da ambi\u00e7\u00e3o Quem j\u00e1 assistiu a \u201cJoias Brutas\u201d (Uncut Gems, 2019), codirigido por Josh e Benny Safdie, reconhecer\u00e1 imediatamente o estilo autoral que Josh Safdie<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":139279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150334"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=150334"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150334\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":150338,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150334\/revisions\/150338"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=150334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=150334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=150334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}