{"id":150806,"date":"2026-02-13T09:49:26","date_gmt":"2026-02-13T12:49:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=150806"},"modified":"2026-02-13T09:49:26","modified_gmt":"2026-02-13T12:49:26","slug":"coluna-de-cinema-edicao-66","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-66\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 66"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>O Morro dos Ventos Uivantes: entre a est\u00e9tica exuberante e o vazio emocional<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-150808 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-ventos-uivantes1.jpg\" alt=\"\" width=\"670\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-ventos-uivantes1.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-ventos-uivantes1-300x185.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-ventos-uivantes1-150x92.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-ventos-uivantes1-768x472.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 670px) 100vw, 670px\" \/><\/p>\n<p>Entre a rever\u00eancia e a provoca\u00e7\u00e3o, a nova vers\u00e3o de <strong><em>\u201cO Morro dos Ventos Uivantes\u201d<\/em><\/strong> prefere o abismo. A adapta\u00e7\u00e3o dirigida por Emerald Fennell transforma o cl\u00e1ssico de Emily Bronte em um espet\u00e1culo visual sedutor, mas emocionalmente vazio, que confunde intensidade com excesso e moderniza\u00e7\u00e3o com simplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A trama central permanece reconhec\u00edvel: Cathy Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi) crescem juntos na isolada propriedade dos Ventos Uivantes, forjando um v\u00ednculo t\u00e3o apaixonado quanto destrutivo. Separados por conven\u00e7\u00f5es sociais, orgulho e ressentimento, tornam-se adultos consumidos por obsess\u00e3o, desejo e vingan\u00e7a, arrastando todos ao redor para uma espiral de dor. \u00c9 uma hist\u00f3ria sobre amor que se confunde com posse, desejo que se alimenta do pr\u00f3prio sofrimento.<\/p>\n<p>A diretora Emerald Fennell, por\u00e9m, toma liberdades em demasia. Elimina personagens centrais como Hindley e sua fam\u00edlia, redistribuindo v\u00edcios e falhas ao pai de Cathy (Martin Clunes, que rouba muitas cenas com seu senhor idoso de olhos brilhantes e amb\u00edgua jovialidade). A segunda metade do romance, que acompanha a gera\u00e7\u00e3o seguinte e oferece um eco moral \u00e0 trag\u00e9dia original, \u00e9 simplesmente descartada. Ao suprimir essa estrutura circular presente na obra original, a diretora abandona a complexidade narrativa de Bronte em favor de uma linha mais direta, por\u00e9m menos densa. At\u00e9 a quest\u00e3o da pele escura de Heathcliff, elemento crucial para discutir exclus\u00e3o, diversidade e racismo, \u00e9 tratada de forma t\u00edmida, quase apagada. Um silenciamento que enfraquece o peso social da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-150807 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/margot-morro-dos-ventos.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/margot-morro-dos-ventos.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/margot-morro-dos-ventos-300x158.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/margot-morro-dos-ventos-150x79.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/margot-morro-dos-ventos-768x403.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><\/p>\n<p>Visualmente deslumbrante, o filme se apresenta como uma luxuosa encena\u00e7\u00e3o de abandono: erotismo pulsante, pseudo-romantismo g\u00f3tico e uma tristeza calculada que surge no momento exato para provocar suspiros. Margot Robbie e Jacob Elordi s\u00e3o indiscutivelmente atraentes e protagonizam cenas de sexo quentes, inseridas com clara inten\u00e7\u00e3o de choque e sedu\u00e7\u00e3o. A qu\u00edmica f\u00edsica entre eles \u00e9 palp\u00e1vel e intensa, mas a conex\u00e3o emocional soa for\u00e7ada, como se o filme se esfor\u00e7asse demais para vender uma paix\u00e3o arrebatadora enquanto esvazia as reflex\u00f5es mais profundas do romance sobre classe, repress\u00e3o social e autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Elordi (que recentemente incorporou a nova vers\u00e3o do monstro de Frankenstein) incorpora um Heathcliff abusivo, ressentido e movido por impulso e rancor, com um magnetismo que funciona. O maior problema recai sobre Cathy. O roteiro n\u00e3o consegue conciliar a idade da personagem (adolescente impulsiva que morre jovem) com a da atriz (Robbie, com 35 anos), e piadas autoconscientes isoladas n\u00e3o resolvem a inconsist\u00eancia. Falta \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o a maturidade dram\u00e1tica, ou melhor, a imaturidade tr\u00e1gica, necess\u00e1ria para sustentar a dimens\u00e3o devastadora que a hist\u00f3ria exige.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-150809 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-dos-ventos-uivantes-margot-robbie-jacob-elordi.png\" alt=\"\" width=\"665\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-dos-ventos-uivantes-margot-robbie-jacob-elordi.png 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-dos-ventos-uivantes-margot-robbie-jacob-elordi-300x153.png 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-dos-ventos-uivantes-margot-robbie-jacob-elordi-150x77.png 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/morro-dos-ventos-uivantes-margot-robbie-jacob-elordi-768x392.png 768w\" sizes=\"(max-width: 665px) 100vw, 665px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/>Se n\u00e3o alcan\u00e7a o impacto visceral de <em>\u201cBela Vingan\u00e7a\u201d<\/em> (2020) ou <em>\u201cSaltburn\u201d<\/em> (2023), os filmes anteriores de Fennell, esta releitura ainda aposta alto no choque est\u00e9tico, na sensualidade g\u00f3tica e em uma trilha sonora moderna (com contribui\u00e7\u00f5es de Charli XCX) que refor\u00e7a o anacronismo deliberado. Este <em>\u201cO Morro dos Ventos Uivantes\u201d<\/em> n\u00e3o \u00e9 exatamente um filme para aquecer cora\u00e7\u00f5es no Dia dos Namorados. \u00c9 uma vers\u00e3o provocativa, estilizada e pol\u00eamica. Mas, ao final, resta a sensa\u00e7\u00e3o de que a obra dialoga mais com a marca autoral que Fennell imprime em seus projetos, marcados por seu gosto por excessos sensuais, s\u00e1tira de superf\u00edcie e est\u00e9tica maximalista, do que com a ess\u00eancia brutal, inquietante e profundamente humana de Emily Bronte.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Morro dos Ventos Uivantes: entre a est\u00e9tica exuberante e o vazio emocional Entre a rever\u00eancia e a provoca\u00e7\u00e3o, a nova vers\u00e3o de \u201cO Morro dos Ventos Uivantes\u201d prefere o<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":139279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150806"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=150806"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150806\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":150810,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150806\/revisions\/150810"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=150806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=150806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=150806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}