{"id":154492,"date":"2026-07-13T13:51:35","date_gmt":"2026-07-13T16:51:35","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=154492"},"modified":"2026-07-13T13:51:35","modified_gmt":"2026-07-13T16:51:35","slug":"fatores-sociais-e-estruturais-empurram-mulheres-para-cesarianas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/fatores-sociais-e-estruturais-empurram-mulheres-para-cesarianas\/","title":{"rendered":"Fatores sociais e estruturais empurram mulheres para cesarianas"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Pesquisa do Unicef mostra desigualdades que pesam para a decis\u00e3o. No Brasil, mais de 60% dos partos ocorrem por cesariana, quando a recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 de 15%<\/em><\/h3>\n<p>O que leva tantas gestantes brasileiras a terem seus filhos por cesariana ao inv\u00e9s do parto normal? De acordo com pesquisa divulgada nesta segunda-feira (13) pelo Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef),\u00a0n\u00e3o \u00e9 uma escolha individual isolada, mas uma consequ\u00eancia de fatores psicol\u00f3gicos, sociais e estruturais.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) preconiza que at\u00e9 15% dos nascimentos ocorram via cesariana, cirurgia que salva vidas em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, mas tamb\u00e9m traz riscos por se tratar de um procedimento extenso e complexo. Mas,\u00a0no Brasil, a propor\u00e7\u00e3o de cesarianas passa de 60%, se aproximando de 90% na rede privada de sa\u00fade, de acordo com dados oficiais. Isso coloca o nosso pa\u00eds entre os tr\u00eas com a maiores taxas de ces\u00e1ria do mundo.<\/p>\n<p>O estudo partiu de uma pesquisa divulgada\u00a0em 2014 pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), segundo a qual\u00a0sete\u00a0em cada dez gestantes do pa\u00eds desejavam ter um parto normal no come\u00e7o da gravidez. O objetivo foi entender o que acontece durante a gesta\u00e7\u00e3o ou parto para que boa parte dessas pessoas acabem passando por uma ces\u00e1rea.<\/p>\n<p>Intitulada\u00a0<em>J\u00e1 decidiu sobre o parto? Influ\u00eancias e barreiras na decis\u00e3o da via de nascimento entre gestantes<\/em>,\u00a0a pesquisa ouviu 94 gestantes e pu\u00e9rperas e 37 profissionais de sa\u00fade em S\u00e3o Paulo (SP) e Bel\u00e9m (PA), tanto na rede p\u00fablica quanto na rede privada.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Fatores econ\u00f4micos e psicol\u00f3gicos<\/strong><\/h4>\n<p>Na capital paulista, em 2024, 56,19% dos nascimentos foram por cesariana, alcan\u00e7ando 71,05% nos hospitais privados. J\u00e1 em Bel\u00e9m\u00a0essa taxa sobe para 69,28% dos nascimentos em geral e chega a 80,41% na rede particular. Ambas as cidades t\u00eam leis que d\u00e3o direito \u00e0 gestante de pedir pela cirurgia no momento do parto.<\/p>\n<p>O Unicef identificou influ\u00eancias positivas e barreiras que favorecem ou impedem a escolha pelo parto normal. &#8220;Embora o desejo de protagonismo e de uma experi\u00eancia positiva esteja presente, outras condi\u00e7\u00f5es sociais e estruturais tamb\u00e9m s\u00e3o determinantes na forma como cada gestante vivencia e constr\u00f3i sua decis\u00e3o&#8221;, conclui o estudo.<\/p>\n<p>No plano psicol\u00f3gico, pelo lado positivo, as participantes relataram que a recupera\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida favorece a escolha pelo parto normal.\u00a0J\u00e1 o medo da dor faz a balan\u00e7a pender para o lado da cesariana.<\/p>\n<p>Essas cren\u00e7as est\u00e3o relacionadas ao plano social, porque as gestantes s\u00e3o fortemente influenciadas pelas experi\u00eancias de outras mulheres, principalmente m\u00e3es, av\u00f3s e demais familiares.<\/p>\n<p>De acordo com a especialista em Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o do Unicef\u00a0no Brasil\u00a0Stephanie Amaral, essas hist\u00f3rias contribuem muito para a constru\u00e7\u00e3o social do parto normal como uma experi\u00eancia de grande sofrimento. Mas, na verdade, muitas situa\u00e7\u00f5es configuram viol\u00eancia obst\u00e9trica e n\u00e3o deveriam ter acontecido.<\/p>\n<p>&#8220;Relatos de parto altamente desrespeitosos, com episiotomia presente, com v\u00e1rios procedimentos e interven\u00e7\u00f5es que n\u00e3o eram necess\u00e1rias, com indu\u00e7\u00e3o de parto sem necessidade&#8230;Todas essas viol\u00eancias est\u00e3o muito presentes no imagin\u00e1rio das pessoas e na viv\u00eancia de outras&#8221;, ela complementa.<\/p>\n<p>Ainda assim,\u00a0entre as usu\u00e1rias do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), as experi\u00eancias familiares tendem a valorizar mais o parto normal, por causa das dificuldades vividas ap\u00f3s a cirurgia. Mas, de acordo com Stephanie, isso se deve principalmente a uma faceta cruel da desigualdade social.<\/p>\n<p>&#8220;Essa escolha pelo parto normal est\u00e1 muito relacionada \u00e0 necessidade de ter uma recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, por n\u00e3o ter uma rede de apoio para cuidar do beb\u00ea e at\u00e9 de outros filhos e da casa&#8221;, diz a especialista do Unicef.<\/p>\n<p>J\u00e1 entre as usu\u00e1rias do servi\u00e7o privado, a aus\u00eancia da rede de apoio como desvantagem para a ces\u00e1ria sequer foi mencionada.<\/p>\n<p>&#8220;No setor privado, as mulheres que escolhem o parto normal fazem isso porque entendem os benef\u00edcios para a m\u00e3e e para o beb\u00ea. Ent\u00e3o, elas se preparam e\u00a0muitas vezes t\u00eam condi\u00e7\u00e3o de contratar uma equipe pr\u00f3pria\u00a0para ter realmente uma experi\u00eancia positiva de parto&#8221;, complementa.<\/p>\n<p>Outra barreira, verificada exclusivamente entre usu\u00e1rias do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, \u00e9 o desejo de fazer uma laqueadura, o que acaba levando as gestantes a\u00a0optarem pela cesariana, mesmo reconhecendo os riscos da cirurgia e o desconforto do p\u00f3s-operat\u00f3rio.<\/p>\n<p>De acordo com Stephanie, isso mostra como as mulheres n\u00e3o s\u00e3o orientadas a respeito de outros m\u00e9todos contraceptivos de longa dura\u00e7\u00e3o, eficazes e dispon\u00edveis no SUS, como o implante subd\u00e9rmico e o DIU, ou mesmo sobre a possibilidade de fazer a laqueadura ap\u00f3s o parto normal ou fora da gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Prepara\u00e7\u00e3o para o parto<\/strong><\/h4>\n<p>Entre os fatores estruturais, a centralidade das equipes de assist\u00eancia aparece tanto como facilitador, quanto como barreira. De um lado, a equipe de pr\u00e9-natal continua tendo maior autoridade, frente \u00e0 enxurrada de conte\u00fado das redes sociais, e iniciativas institucionais de incentivo ao parto normal fazem diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Por outro lado, as gestantes afirmam receber informa\u00e7\u00f5es superficiais sobre o trabalho de parto durante o pr\u00e9-natal e desconhecer a possibilidade de fazer um plano de parto com as suas prefer\u00eancias, principalmente no SUS. A pesquisa tamb\u00e9m identificou baixa ades\u00e3o \u00e0s atividades de orienta\u00e7\u00e3o ou in\u00edcio tardio do pr\u00e9-natal, al\u00e9m de acolhimento inadequado das adolescentes.<\/p>\n<p>J\u00e1 as gestantes e pu\u00e9rperas do setor privado demonstraram maior preparo, por iniciativa pr\u00f3pria. Algumas, inclusive, relataram\u00a0ter trocado de profissional diversas vezes diante da recusa em realizar o parto vaginal, ou de abordagens desestimulantes.<\/p>\n<p>&#8220;No setor p\u00fablico, elas falam assim: &#8216;Ah, n\u00e3o adianta me preparar. Eu n\u00e3o quero ter expectativa sobre o parto porque na verdade quem vai decidir vai ser o m\u00e9dico&#8217;.\u00a0Ent\u00e3o, tem esse sentimento de impot\u00eancia. Para que eu vou criar um monte de expectativa, sendo que, l\u00e1, vai acontecer o que a equipe m\u00e9dica quer fazer, dependendo se o m\u00e9dico vai com a minha cara ou n\u00e3o?&#8221;, relata Stephanie Amaral.<\/p>\n<p>Outro ponto de diferen\u00e7a entre as duas redes \u00e9 o acesso \u00e0 analgesia, amplamente dispon\u00edvel na rede privada e restrito a poucos hospitais de refer\u00eancia no SUS.<\/p>\n<p>&#8220;O parto \u00e9 um momento muito imprevis\u00edvel. A gente n\u00e3o sabe quanto tempo ele vai durar, qual o n\u00edvel de dor que essa mulher vai tolerar, se ela vai precisar ou n\u00e3o de analgesia para n\u00e3o entrar em sofrimento. Ent\u00e3o, ter analgesia dispon\u00edvel \u00e9 uma quest\u00e3o de dignidade&#8221;, defende a especialista do Unicef.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Recomenda\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h4>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o da oferta de analgesia e de outros m\u00e9todos n\u00e3o farmacol\u00f3gicos para al\u00edvio da dor \u00e9 uma das principais recomenda\u00e7\u00f5es do Unicef para gestores p\u00fablicos e privados, assim como:<\/p>\n<p><strong>Qualificar e melhorar o pr\u00e9-natal\u00a0com informa\u00e7\u00f5es claras sobre fases do trabalho de parto<\/strong>, manejo da dor, Plano de Parto, direitos, e planejamento reprodutivo, incluindo orienta\u00e7\u00e3o sobre laqueadura ap\u00f3s parto vaginal e m\u00e9todos contraceptivos revers\u00edveis de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Incluir parceiros e acompanhantes no pr\u00e9-natal e nas orienta\u00e7\u00f5es sobre trabalho de parto<\/strong>,\u00a0para que possam apoiar a decis\u00e3o informada da mulher sem substitu\u00ed-la ou pression\u00e1-la. Tamb\u00e9m reconhecer e ampliar a atua\u00e7\u00e3o de doulas como apoio f\u00edsico, emocional e informacional.<\/p>\n<p><strong>Mobilizar m\u00e3es, av\u00f3s, sogras, parteiras e refer\u00eancias locais como aliadas do cuidado<\/strong>,\u00a0reconhecendo saberes tradicionais em territ\u00f3rios ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhos, entre outros povos e comunidades tradicionais, e fortalecendo conte\u00fados confi\u00e1veis nos espa\u00e7os digitais onde gestantes buscam informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ampliar as pol\u00edticas p\u00fablicas para apoiar m\u00e3es antes, durante e depois do parto<\/strong>,\u00a0como programas de\u00a0busca ativa e ades\u00e3o precoce ao pr\u00e9-natal; garantia da recep\u00e7\u00e3o e registro do Plano de Parto nas maternidades; fortalecimento da vincula\u00e7\u00e3o pr\u00e9via da gestante ao local do parto; qualifica\u00e7\u00e3o das equipes de sa\u00fade para o uso de m\u00e9todos n\u00e3o farmacol\u00f3gicos para al\u00edvio da dor, amplia\u00e7\u00e3o de Centros de Parto Normal e Parto Humanizado; e expans\u00e3o do acesso \u00e0 analgesia e \u00e0 laqueadura ap\u00f3s parto vaginal.<\/p>\n<p><strong>Revisar modelos que favorecem a cesariana sem indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica<\/strong>,\u00a0ao fortalecer a seguran\u00e7a jur\u00eddica das equipes para decis\u00f5es baseadas em evid\u00eancias; incluir capacita\u00e7\u00e3o sobre direitos, desigualdades e cuidado respeitoso na forma\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade; criar modelos de financiamento e remunera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o incentivem cesarianas sem indica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica; e monitorar indicadores de sa\u00fade materna e neonatal com transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>O Unicef tamb\u00e9m lan\u00e7ou a campanha\u00a0<em><a href=\"http:\/\/parto.unicef.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Parto normal. Uma escolha que merece respeito<\/strong><\/a>,\u00a0<\/em>que convida gestantes, fam\u00edlias, redes de apoio e profissionais de sa\u00fade a refletirem sobre como as opini\u00f5es podem pressionar as mulheres, a despeito de seus desejos e das melhores recomenda\u00e7\u00f5es de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;A OMS traz esse conceito de experi\u00eancia positiva de parto. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um parto qualquer, s\u00f3 para as crian\u00e7as nascerem e continuarem saud\u00e1veis e vivas. A gente t\u00e1 falando de uma experi\u00eancia que realmente deve ser respeitosa, que fique como algo importante para a mulher&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A gente teve pessoas que falaram assim: &#8216;Deus me livre ter outro filho!&#8217;, porque a experi\u00eancia foi t\u00e3o ruim que ela n\u00e3o quer passar por isso de novo. Mas o parto n\u00e3o precisa ser traum\u00e1tico. Ele \u00e9 uma experi\u00eancia intensa, mas que pode ser positiva e transformadora&#8221;, conclui Stephanie.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa do Unicef mostra desigualdades que pesam para a decis\u00e3o. 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