{"id":154549,"date":"2026-07-15T13:52:11","date_gmt":"2026-07-15T16:52:11","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=154549"},"modified":"2026-07-15T13:52:11","modified_gmt":"2026-07-15T16:52:11","slug":"artigo-quando-a-imprudencia-mata-nao-e-acidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/artigo-quando-a-imprudencia-mata-nao-e-acidente\/","title":{"rendered":"Artigo: Quando a imprud\u00eancia mata, n\u00e3o \u00e9 \u201cacidente\u201d"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Enquanto uma mudan\u00e7a cultural n\u00e3o acontecer, continuaremos contabilizando vidas interrompidas e fam\u00edlias destru\u00eddas<\/em><\/h3>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Ricardo Viveiros*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 exatos 30 anos, perdi meu filho Ricardo Viveiros de Paula Filho e minha neta Mariana, de apenas sete meses, v\u00edtimas de um motorista que avan\u00e7ou um sinal vermelho na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo. O respons\u00e1vel fugiu sem prestar socorro. Testemunhas afirmaram que estava alcoolizado. Meu filho tinha 26 anos, era ilustrador, cartunista, marido e pai de tr\u00eas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Passei quase duas d\u00e9cadas buscando Justi\u00e7a. Quando finalmente veio a condena\u00e7\u00e3o, ela chegou tardia e insuficiente. O r\u00e9u recorreu, reduziu sua pena e permaneceu em liberdade. Desde ent\u00e3o, uma pergunta me acompanha: qual \u00e9, na pr\u00e1tica, a diferen\u00e7a entre matar algu\u00e9m conscientemente pelo uso de uma arma e assumir o volante ap\u00f3s beber, sabendo que isso pode resultar em morte?<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre crimes de tr\u00e2nsito continua cercada por uma palavra que suaviza trag\u00e9dias: \u201cacidente\u201d. Acidente sugere fatalidade, algo inevit\u00e1vel. Mas o que h\u00e1 de inevit\u00e1vel quando algu\u00e9m decide dirigir alcoolizado, exceder a velocidade ou ignorar um sem\u00e1foro vermelho? Essas s\u00e3o escolhas. E escolhas t\u00eam consequ\u00eancias previs\u00edveis.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros refor\u00e7am essa reflex\u00e3o. Segundo levantamento do Centro de Informa\u00e7\u00f5es sobre Sa\u00fade e \u00c1lcool (Cisa), o Brasil registrou, em 2024, 13.075 mortes em ocorr\u00eancias de tr\u00e2nsito relacionadas ao consumo de \u00e1lcool, um aumento de 6,2% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. A taxa de mortalidade chegou a 6,2 \u00f3bitos por 100 mil habitantes, a maior desde 2016. Mesmo com mais fiscaliza\u00e7\u00e3o e mais opera\u00e7\u00f5es da Lei Seca, o problema persiste.<\/p>\n<p>A Lei Seca, que completou 18 anos, salvou incont\u00e1veis vidas e tornou-se refer\u00eancia internacional. No entanto, a realidade demonstra que a legisla\u00e7\u00e3o, sozinha, n\u00e3o basta. Falta transformar a consci\u00eancia coletiva. Ainda existe toler\u00e2ncia social com quem bebe e dirige. Ainda h\u00e1 quem enxergue a infra\u00e7\u00e3o como um deslize, e n\u00e3o como uma amea\u00e7a concreta \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Especialistas alertam que o \u00e1lcool reduz reflexos, compromete a percep\u00e7\u00e3o de risco e estimula comportamentos mais agressivos e imprudentes. Em outras palavras, quem dirige alcoolizado sabe \u2013 ou deveria saber \u2013 que aumenta significativamente a possibilidade de matar algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio enfrentar um debate desconfort\u00e1vel: em determinadas circunst\u00e2ncias, mortes causadas por motoristas embriagados n\u00e3o deveriam ser tratadas apenas como resultado de culpa, mas como consequ\u00eancia de uma conduta que assume conscientemente o risco de produzir v\u00edtimas. N\u00e3o se trata de vingan\u00e7a, mas de responsabilidade.<\/p>\n<p>Nenhuma senten\u00e7a devolver\u00e1 meu filho ou minha neta. Nenhuma decis\u00e3o judicial apagar\u00e1 a dor de milhares de fam\u00edlias que, todos os anos, recebem a not\u00edcia de que um ente querido morreu porque algu\u00e9m resolveu misturar \u00e1lcool e dire\u00e7\u00e3o. Mas a sociedade precisa decidir se continuar\u00e1 chamando essas mortes de acidentes ou se passar\u00e1 a reconhec\u00ea-las pelo que muitas vezes s\u00e3o: trag\u00e9dias anunciadas, produzidas por escolhas deliberadas.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-154550 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ricardo-viveros.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"219\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ricardo-viveros.jpg 411w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ricardo-viveros-206x300.jpg 206w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/ricardo-viveros-103x150.jpg 103w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><br \/>\nEnquanto essa mudan\u00e7a cultural n\u00e3o acontecer, continuaremos contabilizando vidas interrompidas e fam\u00edlias destru\u00eddas. E continuaremos perguntando quantas mortes mais ser\u00e3o necess\u00e1rias para que dirigir alcoolizado deixe de ser visto como imprud\u00eancia e passe a ser encarado, definitivamente, como uma grave viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>*Ricardo Viveiros<\/strong>, jornalista, professor e escritor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto uma mudan\u00e7a cultural n\u00e3o acontecer, continuaremos contabilizando vidas interrompidas e fam\u00edlias destru\u00eddas Ricardo Viveiros* H\u00e1 exatos 30 anos, perdi meu filho Ricardo Viveiros de Paula Filho e minha neta<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":90879,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,27],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154549"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=154549"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154549\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":154551,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154549\/revisions\/154551"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90879"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=154549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=154549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=154549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}