{"id":154658,"date":"2026-07-20T09:33:44","date_gmt":"2026-07-20T12:33:44","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=154658"},"modified":"2026-07-20T09:33:44","modified_gmt":"2026-07-20T12:33:44","slug":"coluna-de-cinema-edicao-86","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-86\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 86"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>A Odisseia: longo caminho de volta<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-154660 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia.jpg\" alt=\"\" width=\"676\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia-300x200.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia-150x100.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 676px) 100vw, 676px\" \/><\/p>\n<p>A impon\u00eancia po\u00e9tica do cl\u00e1ssico de Homero, obra seminal da literatura ocidental, encontra uma equivalente magnitude visual nas imagens colossais da adapta\u00e7\u00e3o \u201c<strong><em>A Odisseia\u201d<\/em><\/strong> (<em>The Odyssey<\/em>), de Christopher Nolan. Logo na abertura, o diretor nos lan\u00e7a em um territ\u00f3rio cercado de press\u00e1gios, pistas sutis e subtextos narrativos que preparam o terreno para o que est\u00e1 por vir. \u00c9 uma imers\u00e3o direta no desconhecido, na qual a imensid\u00e3o f\u00edsica do cen\u00e1rio serve como met\u00e1fora para o vazio e a incerteza do pr\u00f3prio destino humano. Na condi\u00e7\u00e3o de testemunhas, nos sentimos t\u00e3o perdidos e desamparados quanto os antigos navegantes diante de um oceano sem mapas.<\/p>\n<p>A trama, em ess\u00eancia, reconta a milenar saga de Odisseu, vivido por Matt Damon como um l\u00edder calejado e assombrado pelas decis\u00f5es do passado, cuja \u00fanica obsess\u00e3o \u00e9 retornar para sua terra natal, a ilha de \u00cdtaca, ap\u00f3s o fim da guerra devastadora na conquista de Troia. Enquanto ele enfrenta uma verdadeira prova\u00e7\u00e3o f\u00edsica e psicol\u00f3gica cruzando caminhos perigosos pelos mares, sua esposa Pen\u00e9lope, interpretada por Anne Hathaway, resiste como pode \u00e0 press\u00e3o de pretendentes que tentam usurpar seu lar e seu reino. Completa o n\u00facleo central o jovem Tel\u00eamaco, papel de Tom Holland, filho de Odisseu, que cresceu sem a figura paterna e agora tenta defender o legado da fam\u00edlia. \u00c9 a cl\u00e1ssica hist\u00f3ria de Homero sobre fam\u00edlia, lealdade, sobreviv\u00eancia, destino e culpa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-154661 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/odisseia1.jpeg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/odisseia1.jpeg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/odisseia1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/odisseia1-150x84.jpeg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/odisseia1-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>Para traduzir toda essa carga dram\u00e1tica e a pr\u00f3pria imensid\u00e3o desse mundo mitol\u00f3gico em imagens, Nolan recorre a escolhas est\u00e9ticas grandiosas. O diretor abriu m\u00e3o do registro digital e rodou o filme inteiramente em pel\u00edcula no formato IMAX de alta resolu\u00e7\u00e3o. Essa decis\u00e3o t\u00e9cnica n\u00e3o \u00e9 mero capricho visual, pois a textura org\u00e2nica da pel\u00edcula e a escala monumental das telas gigantes esmagam o espectador, transformando a sala de cinema em um templo de contempla\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma escolha que resgata a pr\u00f3pria ess\u00eancia do cinema como uma experi\u00eancia coletiva e sensorial de tirar o f\u00f4lego.<\/p>\n<p>Os minutos iniciais da obra de Christopher Nolan desestabilizam temporariamente a compreens\u00e3o do espectador, provocando uma desorienta\u00e7\u00e3o pelo denso volume de informa\u00e7\u00f5es apresentadas de imediato. No entanto, essa vertigem \u00e9 calculada. Por volta dos 50 minutos de proje\u00e7\u00e3o, as engrenagens narrativas come\u00e7am a entrar nos eixos e, em um passe de m\u00e1gica, o filme domina completamente a nossa aten\u00e7\u00e3o, sem dar espa\u00e7o para pausas ou f\u00f4lego restaurador. O resultado \u00e9 surpreendente, pois os quase 160 minutos de dura\u00e7\u00e3o fluem com tamanha organicidade que passam sem o peso arrastado comum a produ\u00e7\u00f5es desse porte.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-154659 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia2.jpg\" alt=\"\" width=\"676\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia2.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia2-300x169.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia2-150x84.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/matt-damon-odseia2-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 676px) 100vw, 676px\" \/><\/p>\n<p>A conex\u00e3o com o cl\u00e1ssico milenar fica ainda mais fascinante pela maneira como a hist\u00f3ria \u00e9 contada. Nolan, como \u00e9 sua caracter\u00edstica, aposta em uma narrativa n\u00e3o linear, em que o tempo se dobra e as cenas se misturam fora de ordem cronol\u00f3gica. Essa estrutura fragmentada, ali\u00e1s, j\u00e1 estava de alguma forma presente na obra de Homero, que tamb\u00e9m come\u00e7a no meio do caminho para s\u00f3 depois resgatar o passado atrav\u00e9s de lembran\u00e7as. A montagem din\u00e2mica desses diferentes planos narrativos funciona como um convite irresist\u00edvel, prendendo a nossa aten\u00e7\u00e3o de um jeito t\u00e3o forte que nos sentimos navegando lado a lado com o protagonista por aqueles reinos mitol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>No fundo, essa engrenagem temporal \u00e9 o ve\u00edculo perfeito para a receita cl\u00e1ssica da Jornada do Her\u00f3i. A viagem do protagonista por cen\u00e1rios gigantescos e perigosos serve como um espelho para o que acontece dentro dele. Cada monstro e obst\u00e1culo do mito grego ganha aqui uma roupagem psicol\u00f3gica. A f\u00faria implac\u00e1vel de Poseidon se transforma no peso esmagador do destino, enquanto o magnetismo perigoso do canto das sereias e os feiti\u00e7os de Circe passam a representar as distra\u00e7\u00f5es e tenta\u00e7\u00f5es que nos desviam do caminho. At\u00e9 mesmo o confronto cego com o Ciclope e a travessia tensa entre os redemoinhos de Car\u00edbdis e as garras tentaculares de Cila encontram paralelo naquelas decis\u00f5es limite onde qualquer erro \u00e9 fatal. Ao passar por testes que quase o fazem perder o ju\u00edzo, o her\u00f3i \u00e9 obrigado a deixar o orgulho e a vaidade de lado para finalmente conseguir voltar para casa. \u00c9 a constata\u00e7\u00e3o de que vencer os perigos do caminho acaba sendo a parte mais f\u00e1cil, porque o desafio de verdade \u00e9 encarar os fantasmas que carregamos na nossa pr\u00f3pria mente. Essa prova\u00e7\u00e3o interna \u00e9 ilustrada com perfei\u00e7\u00e3o no momento de epifania de Odisseu ap\u00f3s contemplar a aniquila\u00e7\u00e3o completa de Troia, incluindo a destrui\u00e7\u00e3o dos templos das divindades que, violados, desencadearam a f\u00faria implac\u00e1vel de Poseidon.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"151\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 151px) 100vw, 151px\" \/>Cercado de expectativas, o filme de Christopher Nolan se equilibra entre a grandiosidade de uma aventura de fantasia m\u00edtica e a escala \u00edntima da jornada de um homem consumido pela culpa e por uma promessa. Aparentemente, \u201c<em>A Odisseia\u201d<\/em> j\u00e1 nasce cl\u00e1ssico, embora s\u00f3 o teste do tempo possa, de fato, confirmar essa condi\u00e7\u00e3o. Evocando a ess\u00eancia da obra-prima de Dostoi\u00e9vski, a narrativa se projeta como um verdadeiro crime e castigo encenado no mitol\u00f3gico plano lim\u00edtrofe entre os homens e os deuses. Nessa fronteira espiritual e psicol\u00f3gica, Nolan transforma o peso do remorso humano em uma saga de propor\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas, na qual a busca pela reden\u00e7\u00e3o se torna t\u00e3o monumental quanto as pr\u00f3prias lendas que a cercam.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Odisseia: longo caminho de volta A impon\u00eancia po\u00e9tica do cl\u00e1ssico de Homero, obra seminal da literatura ocidental, encontra uma equivalente magnitude visual nas imagens colossais da adapta\u00e7\u00e3o \u201cA Odisseia\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":139279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154658"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=154658"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154658\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":154662,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154658\/revisions\/154662"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=154658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=154658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=154658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}