{"id":155027,"date":"2026-08-03T13:46:18","date_gmt":"2026-08-03T16:46:18","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=155027"},"modified":"2026-08-03T13:46:18","modified_gmt":"2026-08-03T16:46:18","slug":"hospital-universitario-sao-francisco-de-paula-integra-pesquisa-nacional-do-inca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/hospital-universitario-sao-francisco-de-paula-integra-pesquisa-nacional-do-inca\/","title":{"rendered":"Hospital Universit\u00e1rio S\u00e3o Francisco de Paula integra pesquisa nacional do INCA"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>Pesquisa coordenada pelo Instituto Nacional de C\u00e2ncer (INCA), em parceria com a Ag\u00eancia Internacional para Pesquisa em C\u00e2ncer (IARC) e a Coorte de Pelotas (UFPel) investiga o aumento do c\u00e2ncer colorretal em adultos mais jovens<\/em><\/h3>\n<p>Durante d\u00e9cadas, o c\u00e2ncer de intestino grosso (c\u00f3lon e reto) foi considerado uma doen\u00e7a t\u00edpica do envelhecimento. A maioria dos diagn\u00f3sticos ocorria ap\u00f3s os 60 anos, realidade que orientou recomenda\u00e7\u00f5es para rastreamento, estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o sobre quem estaria mais exposto ao risco. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, esse cen\u00e1rio come\u00e7ou a mudar. Em diferentes pa\u00edses, pesquisadores passaram a registrar um aumento consistente de casos entre adultos com menos de 50 anos, fen\u00f4meno ainda sem explica\u00e7\u00e3o definitiva e que hoje ocupa lugar central nas discuss\u00f5es da oncologia.<\/p>\n<p>O crescimento n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo apenas \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do acesso aos exames. Embora a colonoscopia tenha permitido identificar les\u00f5es que antes permaneciam ocultas, os dados epidemiol\u00f3gicos mostram que mais pessoas est\u00e3o, de fato, desenvolvendo a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 real&#8221;, afirma a m\u00e9dica Simone Guaraldi (foto acima), pesquisadora do Programa de Carcinog\u00eanese Molecular do Instituto Nacional de C\u00e2ncer (INCA). Segundo a especialista, a evolu\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos diagn\u00f3sticos explica apenas parte desse aumento. &#8220;Quando uma doen\u00e7a cresce, a primeira pergunta que fazemos \u00e9: por qu\u00ea?&#8221;<\/p>\n<p>Foi em busca dessa resposta que Guaraldi retornou a Pelotas para acompanhar mais uma etapa do estudo coordenado pelo INCA em parceria com a Coorte de Pelotas, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), uma das mais importantes pesquisas epidemiol\u00f3gicas em andamento no pa\u00eds. Inserida em uma colabora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica internacional, a investiga\u00e7\u00e3o procura identificar os mecanismos biol\u00f3gicos e ambientais envolvidos no desenvolvimento do c\u00e2ncer de intestino e descobrir de que maneira essas altera\u00e7\u00f5es podem ser reconhecidas antes mesmo do aparecimento dos primeiros sintomas.<\/p>\n<p>Uma etapa decisiva desse trabalho ocorre no Hospital Universit\u00e1rio S\u00e3o Francisco de Paula. \u00c9 na institui\u00e7\u00e3o que s\u00e3o realizadas as colonoscopias dos participantes selecionados para o estudo, procedimento que possibilita identificar les\u00f5es precursoras, remover p\u00f3lipos quando necess\u00e1rio e coletar amostras destinadas \u00e0s an\u00e1lises cl\u00ednicas, histopatol\u00f3gicas e moleculares conduzidas pela equipe de pesquisadores.<\/p>\n<p>Na passagem por Pelotas, a pesquisadora destacou a estrutura oferecida pelo Hospital Universit\u00e1rio S\u00e3o Francisco de Paula e o comprometimento das equipes envolvidas. Na avalia\u00e7\u00e3o da especialista, investiga\u00e7\u00f5es dessa complexidade dependem da integra\u00e7\u00e3o entre assist\u00eancia, ensino e produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, al\u00e9m do rigor t\u00e9cnico empregado em todas as fases da coleta de dados.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia desse esfor\u00e7o tamb\u00e9m aparece nas proje\u00e7\u00f5es nacionais. Segundo a Estimativa de Incid\u00eancia de C\u00e2ncer 2026\u20132028, publicada pelo INCA, o Brasil dever\u00e1 registrar cerca de 53,8 mil novos casos de c\u00e2ncer de c\u00f3lon e reto por ano, sendo 26.270 entre homens e 27.540 entre mulheres. O levantamento coloca a doen\u00e7a entre as mais incidentes do pa\u00eds e destaca seu elevado potencial de preven\u00e7\u00e3o e detec\u00e7\u00e3o precoce, al\u00e9m de evidenciar diferen\u00e7as regionais relacionadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, aos h\u00e1bitos de vida, ao ambiente e ao acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Mais do que dimensionar o problema, esses n\u00fameros ajudam a explicar por que grupos de pesquisa espalhados pelo mundo passaram a concentrar esfor\u00e7os na mesma quest\u00e3o levantada por Guaraldi: o que mudou para que um c\u00e2ncer historicamente associado ao envelhecimento passasse a surgir com frequ\u00eancia crescente entre adultos mais jovens?<\/p>\n<p>Encontrar a resposta para essa pergunta significa voltar muitos anos antes do diagn\u00f3stico. Ao contr\u00e1rio do que costuma sugerir o senso comum, o c\u00e2ncer de intestino n\u00e3o surge de forma repentina. Entre a primeira altera\u00e7\u00e3o em uma c\u00e9lula e o aparecimento dos sintomas existe um processo que pode levar anos, marcado pelo ac\u00famulo de modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, influ\u00eancias ambientais e h\u00e1bitos de vida capazes de alterar progressivamente o funcionamento do organismo. \u00c9 essa sequ\u00eancia de eventos, conhecida como carcinog\u00eanese, que hoje concentra parte expressiva das pesquisas em oncologia.<\/p>\n<p>&#8220;O aumento dos casos chama a aten\u00e7\u00e3o do mundo inteiro&#8221;, observa Guaraldi. &#8220;Quando isso acontece, precisamos entender por qu\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, n\u00e3o existe uma explica\u00e7\u00e3o \u00fanica para o crescimento da incid\u00eancia entre adultos mais jovens. A ci\u00eancia trabalha com diferentes hip\u00f3teses, que incluem mudan\u00e7as no padr\u00e3o alimentar, aumento da obesidade, sedentarismo, diabetes, consumo de bebidas alco\u00f3licas, tabagismo e doen\u00e7as inflamat\u00f3rias intestinais. Nenhum desses elementos, entretanto, \u00e9 suficiente para explicar sozinho o fen\u00f4meno. O desafio est\u00e1 em compreender de que maneira essas condi\u00e7\u00f5es interagem com a predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e favorecem o desenvolvimento da doen\u00e7a ao longo da vida.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de perspectiva transformou tamb\u00e9m a forma como os cientistas investigam o c\u00e2ncer. Se durante d\u00e9cadas o foco esteve concentrado no aperfei\u00e7oamento de cirurgias, medicamentos e outras modalidades de tratamento, hoje boa parte dos esfor\u00e7os busca responder a uma quest\u00e3o anterior: quais transforma\u00e7\u00f5es ocorrem nas c\u00e9lulas muito antes de o tumor existir?<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que ganharam relev\u00e2ncia as chamadas assinaturas mutacionais, padr\u00f5es deixados no DNA pelas diferentes agress\u00f5es sofridas pelo organismo ao longo da vida. Durante a entrevista, Guaraldi recorreu a um exemplo simples para explicar o conceito. Quando uma an\u00e1lise identifica uma assinatura caracter\u00edstica da exposi\u00e7\u00e3o ao tabaco, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer que aquele tumor guarda marcas biol\u00f3gicas associadas ao cigarro, mesmo sem conhecer o hist\u00f3rico do paciente.<\/p>\n<p>Essas &#8220;impress\u00f5es digitais&#8221; moleculares tornaram-se uma das principais ferramentas para investigar a origem do c\u00e2ncer. A identifica\u00e7\u00e3o desses padr\u00f5es permite reconstruir parte da hist\u00f3ria da doen\u00e7a e compreender como diferentes exposi\u00e7\u00f5es, ambientais ou comportamentais, deixam registros permanentes no material gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>Embora a investiga\u00e7\u00e3o tenha como foco o c\u00e2ncer de intestino, ela integra uma rede internacional dedicada a compreender como diferentes tumores se desenvolvem. A estrat\u00e9gia segue a mesma l\u00f3gica de grandes iniciativas colaborativas, como o Mutographs, estudo internacional do qual Guaraldi participou e que contribuiu para ampliar o conhecimento sobre as chamadas assinaturas mutacionais, marcas deixadas no DNA por diferentes exposi\u00e7\u00f5es ao longo da vida.<\/p>\n<p>As amostras obtidas nas colonoscopias realizadas no Hospital Universit\u00e1rio S\u00e3o Francisco de Paula seguem inicialmente para o INCA, onde s\u00e3o analisadas pelo Programa de Carcinog\u00eanese Molecular, coordenado por Luis Felipe Ribeiro Pinto. Em seguida, passam pela IARC, na Fran\u00e7a, sob a coordena\u00e7\u00e3o de Paul Brennan, e posteriormente chegam ao Wellcome Sanger Institute, no Reino Unido, onde s\u00e3o submetidas a an\u00e1lises gen\u00f4micas conduzidas pela equipe liderada por Sir Michael Stratton. O percurso conecta a coleta realizada em a uma das mais importantes redes internacionais de pesquisa em c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o do Hospital nessa rede cient\u00edfica depende da qualidade das informa\u00e7\u00f5es produzidas em cada etapa do estudo. A equipe participa da constru\u00e7\u00e3o de um banco de dados que permitir\u00e1 acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e compreender como fatores gen\u00e9ticos, ambientais e comportamentais se combinam ao longo da vida para favorecer o aparecimento do c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Para o m\u00e9dico endoscopista Lysandro Nader (foto acima), respons\u00e1vel t\u00e9cnico pelo Servi\u00e7o de Endoscopia Digestiva, integrar uma pesquisa dessa dimens\u00e3o significa colocar a assist\u00eancia prestada pelo hospital a servi\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>&#8220;Mais do que realizar exames, temos a oportunidade de contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias cient\u00edficas. Pesquisas como essa ampliam o conhecimento sobre o c\u00e2ncer e podem orientar estrat\u00e9gias que beneficiem milhares de pessoas no futuro.&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto a ci\u00eancia busca explicar por que o c\u00e2ncer de intestino tem sido diagnosticado cada vez mais cedo, parte das estrat\u00e9gias para reduzir o impacto da doen\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 bem estabelecida. A principal delas \u00e9 o rastreamento por colonoscopia, capaz de identificar les\u00f5es precursoras e remov\u00ea-las antes que evoluam para um tumor.<\/p>\n<p>Atualmente, pessoas sem fatores adicionais de risco devem realizar o primeiro exame aos 45 anos, mesmo na aus\u00eancia de sintomas. A recomenda\u00e7\u00e3o, adotada pelas principais sociedades m\u00e9dicas, reflete justamente a mudan\u00e7a no perfil epidemiol\u00f3gico observada nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Na entrevista, Guaraldi chamou aten\u00e7\u00e3o para um dos principais obst\u00e1culos ao diagn\u00f3stico precoce: a ideia, ainda bastante disseminada, de que a colonoscopia s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1ria quando surgem sinais da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Essa informa\u00e7\u00e3o precisa chegar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o adianta pensar: &#8216;Eu n\u00e3o sinto nada, ent\u00e3o n\u00e3o preciso fazer o exame&#8217;. \u00c9 exatamente por isso que ele deve ser feito.&#8221;<\/p>\n<p>Em algumas situa\u00e7\u00f5es, no entanto, a investiga\u00e7\u00e3o precisa come\u00e7ar mais cedo. Pessoas com doen\u00e7as inflamat\u00f3rias intestinais, como retocolite ulcerativa e doen\u00e7a de Crohn, apresentam risco aumentado e necessitam de acompanhamento individualizado.<\/p>\n<p>Ao longo da conversa, Guaraldi insistiu que um dos maiores desafios da oncologia n\u00e3o \u00e9 apenas produzir conhecimento, mas fazer com que ele alcance quem mais precisa.<\/p>\n<p>&#8220;O que adianta a gente conversar sobre coisas t\u00e9cnicas se isso n\u00e3o chega ao paciente?&#8221;<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o sintetiza um desafio que vai al\u00e9m dos laborat\u00f3rios. Enquanto pesquisadores buscam esclarecer por que o c\u00e2ncer de intestino mudou de comportamento e passou a atingir um n\u00famero crescente de adultos mais jovens, medidas capazes de reduzir seu impacto j\u00e1 est\u00e3o dispon\u00edveis. Ampliar o acesso ao rastreamento, reconhecer precocemente os sinais de alerta e transformar evid\u00eancias cient\u00edficas em informa\u00e7\u00e3o acess\u00edvel continuam sendo as ferramentas mais eficazes para diminuir a mortalidade da doen\u00e7a e aproximar a pesquisa da pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa coordenada pelo Instituto Nacional de C\u00e2ncer (INCA), em parceria com a Ag\u00eancia Internacional para Pesquisa em C\u00e2ncer (IARC) e a Coorte de Pelotas (UFPel) investiga o aumento do c\u00e2ncer<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":155028,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,150],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/155027"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=155027"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/155027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":155029,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/155027\/revisions\/155029"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/155028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=155027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=155027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=155027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}