{"id":155410,"date":"2026-08-14T13:51:21","date_gmt":"2026-08-14T16:51:21","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=155410"},"modified":"2026-08-14T13:51:21","modified_gmt":"2026-08-14T16:51:21","slug":"coluna-de-cinema-edicao-90","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/coluna-de-cinema-edicao-90\/","title":{"rendered":"Coluna de Cinema \u2013 Edi\u00e7\u00e3o 90"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><em>O Fim da Rua: de volta para o passado<\/em><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-155411 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua02.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua02.jpg 800w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua02-300x150.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua02-150x75.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua02-768x385.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>Um t\u00edpico bairro residencial de sub\u00farbio de uma grande cidade dos Estados Unidos. Uma fam\u00edlia formada por pai, m\u00e3e, dois filhos adolescentes e um cachorro. Uma boa casa com gramado, carro na garagem e cercas brancas: o retrato do sonho americano de felicidade aparente que, nas sombras da intimidade, esconde as fraturas de um casamento em crise. Como met\u00e1fora desse iminente abalo dom\u00e9stico, um fen\u00f4meno inexplic\u00e1vel provoca um lapso espa\u00e7o-temporal que lan\u00e7a a vizinhan\u00e7a direto para a Era Jur\u00e1ssica, no tempo em que os dinossauros dominavam o planeta. Diante de um ambiente t\u00e3o hostil, os personagens precisam encontrar maneiras de garantir n\u00e3o apenas a sobreviv\u00eancia, mas tamb\u00e9m a preserva\u00e7\u00e3o do n\u00facleo familiar. Este \u00e9 o contexto de <strong><em>O Fim da Rua<\/em><\/strong> (<em>The End of Oak Street<\/em>), um misto de drama, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a\u00e7\u00e3o e mist\u00e9rio dirigido por David Robert Mitchell (o mesmo do interessante <em>Corrente do Mal<\/em>, de 2014). O casal protagonista, Greg e Denise, \u00e9 interpretado por Ewan McGregor e Anne Hathaway em atua\u00e7\u00f5es honestas e viscerais em sua entrega.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de J. J. Abrams na produ\u00e7\u00e3o revela de imediato a grande inspira\u00e7\u00e3o desta aventura dist\u00f3pica. Mesmo sem assinar a dire\u00e7\u00e3o, Abrams imprime no projeto aquele toque inconfund\u00edvel dos anos 1980, t\u00e3o marcante na obra de nomes como Steven Spielberg e Joe Dante. Essa influ\u00eancia fica clara na forma como o filme se apropria de uma premissa de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica especulativa e a conecta a sentimentos profundamente humanos. O enredo situa os personagens no confronto entre o encantamento das descobertas da adolesc\u00eancia e os dilemas tipicamente adultos, enquanto enfrentam a amea\u00e7a assustadora que coloca em risco o ambiente familiar. Al\u00e9m disso, ao apostar na f\u00f3rmula do mist\u00e9rio, bem no esp\u00edrito de s\u00e9ries como <em>Al\u00e9m da Imagina\u00e7\u00e3o<\/em>, a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 desperta a nostalgia do <em>sci-fi<\/em> cl\u00e1ssico, como tamb\u00e9m garante um ritmo \u00e1gil que equilibra suspense e drama.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-155412 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua01.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua01.jpg 700w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua01-300x163.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua01-150x81.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/p>\n<p>A ambienta\u00e7\u00e3o oitentista (a hist\u00f3ria se passa em 1982), al\u00e9m de acionar esse gatilho nost\u00e1lgico, traz outro elemento fundamental para a l\u00f3gica interna da narrativa ao homenagear um per\u00edodo ainda anal\u00f3gico. Sem computadores, wi-fi, dispositivos digitais ou telefones celulares, o isolamento daquele bairro e de seus moradores se estabelece tamb\u00e9m pelas limita\u00e7\u00f5es em compreender o que efetivamente est\u00e1 ocorrendo. Esse &#8220;desconhecimento&#8221;, que em um mundo digital seria resolvido em poucos minutos, contribui decisivamente para potencializar a sensa\u00e7\u00e3o de uma amea\u00e7a inexplic\u00e1vel. A bem da verdade, a ci\u00eancia e a f\u00edsica te\u00f3rica explicariam em tese o fen\u00f4meno, e a men\u00e7\u00e3o ao astrof\u00edsico e divulgador cient\u00edfico Carl Sagan, feita por uma das personagens, refor\u00e7a o embasamento l\u00f3gico dessa fantasia.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o do medo do desconhecido, matriz primordial da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ganha for\u00e7a ao focar nas consequ\u00eancias desse evento catastr\u00f3fico sobre personagens espec\u00edficos. A escala global da trag\u00e9dia existe como pano de fundo, mas o filme acerta ao concentrar sua narrativa na dimens\u00e3o humana e \u00edntima do colapso. Ao privar o espectador de uma vis\u00e3o panor\u00e2mica do caos, a narrativa nos limita \u00e0 mesma ignor\u00e2ncia e vulnerabilidade dos protagonistas. O pavor n\u00e3o vem apenas do perigo iminente, mas da incerteza absoluta sobre o que sobrou do mundo al\u00e9m daquela rua.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-155413 aligncenter\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua03.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua03.jpg 620w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua03-300x163.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/filme-fim-da-rua03-150x81.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p>Essa sensa\u00e7\u00e3o de perigo constante ganha contornos f\u00edsicos pela visceralidade das cenas gr\u00e1ficas, que d\u00e3o o tom sem rodeios e elevam o impacto do suspense. Longe da espetaculariza\u00e7\u00e3o higienizada comum no g\u00eanero contempor\u00e2neo, o filme opta por uma viol\u00eancia mais crua e direta. As apari\u00e7\u00f5es das criaturas resgatam o peso, a ferocidade e a imprevisibilidade de predadores reais. Assim, devolve-se a essas feras monumentais o status de animais mais aterradores que j\u00e1 pisaram na Terra, recuperando a impon\u00eancia perdida ap\u00f3s as recentes e descart\u00e1veis sequ\u00eancias da franquia <em>Jurassic World<\/em>.<\/p>\n<p>Essa atmosfera de brutalidade reflete-se diretamente no elenco, explorando, por exemplo, uma faceta f\u00edsica e intensa de Anne Hathaway ao coloc\u00e1-la para correr, suar e portar armas. Esse registro contrasta com a imagem de glamour e leveza consolidada por ela em com\u00e9dias rom\u00e2nticas e dramas de \u00e9poca. Embora a atriz j\u00e1 tenha se aventurado pela a\u00e7\u00e3o e pelo <em>sci-fi<\/em> (como em <em>Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge<\/em> e <em>Interestelar<\/em>), ver sua figura, t\u00e3o associada \u00e0 eleg\u00e2ncia, imersa no caos da sobreviv\u00eancia gera um estranhamento produtivo que joga a favor da tens\u00e3o constante da narrativa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-139295 alignright\" src=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi.jpg 298w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-230x300.jpg 230w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/jorge-ghiorzi-115x150.jpg 115w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/>Mesmo com sua viol\u00eancia brutal, por vezes escancarada e em outras apenas sugerida, <em>O Fim da Rua<\/em> \u00e9 um filme que essencialmente diverte ao provocar a adrenalina do espectador em uma verdadeira montanha-russa de emo\u00e7\u00f5es, alternando momentos verdadeiramente tocantes com outros de pavor genu\u00edno. A melhor maneira de apreciar este pesadelo suburbano \u00e9 n\u00e3o procurar (nem esperar) respostas: apenas deixe-se levar pelas sensa\u00e7\u00f5es e entre neste jogo que transita entre o bizarro e o mais puro escapismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jorge Ghiorzi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>jghiorzi@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Fim da Rua: de volta para o passado Um t\u00edpico bairro residencial de sub\u00farbio de uma grande cidade dos Estados Unidos. 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