{"id":41446,"date":"2015-08-11T09:23:33","date_gmt":"2015-08-11T12:23:33","guid":{"rendered":"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=41446"},"modified":"2015-08-11T09:23:33","modified_gmt":"2015-08-11T12:23:33","slug":"cicatrizes-nao-silenciam-a-dor-da-cor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/cicatrizes-nao-silenciam-a-dor-da-cor\/","title":{"rendered":"Cicatrizes n\u00e3o silenciam a dor da cor"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><b>Pesquisas sinalizam para a persist\u00eancia do preconceito aos negros na cidade que enriqueceu atrav\u00e9s do trabalho escravizado<\/b><\/h2>\n<p><b>Por Carlos Cogoy<\/b><\/p>\n<p><b>U<\/b>samos as express\u00f5es pessoa de cor, moreninho e marrom, como se a palavra negro pudesse soar agressiva e desrespeitosa. Ao contr\u00e1rio, a negritude busca o fortalecimento do orgulho de ser negro.\u00a0 Da mesma forma, percebemos o uso da linguagem ainda carregado de \u201cpr\u00e9-conceitos\u201d, exemplos: Por que a pomba da paz, precisa ser branca? Por que os anjos s\u00e3o desenhados sempre com cabelos louros e olhos azuis? Da mesma forma os fara\u00f3s, e assim sucessivamente. Reflex\u00e3o da doutora Olga Maria Lima Pereira que, neste m\u00eas, estar\u00e1 lan\u00e7ando os livros \u201cReinterpretando sil\u00eancios \u2013 reflex\u00f5es sobre a doc\u00eancia negra na cidade de Pelotas\/RS\u201d (editora Nandyala), e \u201cCicatrizes da escravid\u00e3o: da hist\u00f3ria ao silenciamento\u201d (editora Um2). A autora aguarda pela chegada dos exemplares, para definir a data dos lan\u00e7amentos. No IFSul, ela \u00e9 t\u00e9cnica em Assuntos Educacionais e Coordenadora de Fomento \u00e0s A\u00e7\u00f5es Inclusivas, vinculada \u00e0 Pr\u00f3-reitoria de Extens\u00e3o e Cultura.<\/p>\n<div id=\"attachment_41450\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/olga-pereira.jpg.jpg\" rel=\"lightbox\" title=\"Cicatrizes n\u00e3o silenciam a dor da cor \"><img aria-describedby=\"caption-attachment-41450\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-41450\" alt=\"Pesquisadora Olga Pereira estar\u00e1 lan\u00e7ando dois livros neste m\u00eas\" src=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/olga-pereira.jpg-190x300.jpg\" width=\"190\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/olga-pereira.jpg-190x300.jpg 190w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/olga-pereira.jpg.jpg 380w\" sizes=\"(max-width: 190px) 100vw, 190px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-41450\" class=\"wp-caption-text\">Pesquisadora Olga Pereira estar\u00e1 lan\u00e7ando dois livros neste m\u00eas<\/p><\/div>\n<p><b>NEGRITUDE<\/b> \u2013 Olga Pereira cursou a licenciatura em literatura brasileira e portuguesa na UCPel. Ela ressalta que somente conseguiu cursar, pois foi contemplada com o ent\u00e3o \u201ccr\u00e9dito educativo\u201d. J\u00e1 o mestrado em Pol\u00edtica Social e doutorado em lingu\u00edstica, viabilizaram-se atrav\u00e9s da pol\u00edtica de aperfei\u00e7oamento de servidores no IFSul. Expressando gratid\u00e3o ao incentivo recebido na institui\u00e7\u00e3o, Olga Pereira desenvolveu pesquisas comprometidas com a quest\u00e3o \u00e9tnico-racial. Ela aborda sobre a motiva\u00e7\u00e3o: \u201cO tema da escravid\u00e3o sempre despertou meu interesse. Falo isso porque desde que estava no Segundo Grau, participei de Concursos Liter\u00e1rios que traziam como tema a \u2018Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura\u2019, inclusive, muitos trof\u00e9us, medalhas e certificados conquistei quando estudava na Escola Nossa Senhora de Lourdes. Posso dizer que talvez tenha sido a indigna\u00e7\u00e3o pela barb\u00e1rie sofrida por milhares de negros e negras em nosso Pa\u00eds que, de modo muito singular, despertou meu interesse pelo tema. Falo isso, porque a partir desse momento, nunca mais parei de pesquisar sobre o real papel dos negros no Brasil. Mesmo que, \u00e0 \u00e9poca, tenha estudados nos livros did\u00e1ticos que omitiam a verdadeira hist\u00f3ria. Infelizmente, por tudo que tenho vivido e conhecido atrav\u00e9s das vozes desses autores, as escolas e, infelizmente, a pr\u00f3pria academia, continuam a reproduzir uma hist\u00f3ria capenga em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o dos negros e da \u00c1frica como ber\u00e7o incontest\u00e1vel da hist\u00f3ria da humanidade. Apesar de alguns avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria narrada pelo pr\u00f3prio negro, estamos apenas engatinhando. Ainda \u00e9 percept\u00edvel a narrativa colonialista que persiste em depreciar o negro a partir da melanina\u201d.<\/p>\n<p><b>EXCLUS\u00c3O<\/b> &#8211; Charqueadas<b> <\/b>foram a base econ\u00f4mica do per\u00edodo de apogeu da elite pelotense. Enquanto os filhos dos \u201csenhores\u201d seguiam para estudar na Europa, o trabalho \u00e1rduo resultava da m\u00e3o-de-obra escravizada. No DNA pelotense est\u00e1 o preconceito. Olga menciona sobre o estudo no mestrado: \u201cAnalisei a trajet\u00f3ria dos alunos negros nos cursos de tecnologia do IFSUL. O recorte abrangeu de 2000 a 2008, e a conclus\u00e3o aconteceu em 2010, quando ainda havia n\u00e3o sido adotado o sistema de cotas. Percebi o reduzido n\u00famero de alunos negros que chegaram \u00e0 cola\u00e7\u00e3o de grau, bem como, desenvolvi an\u00e1lise aprofundada sobre os reais motivos que os impossibilitaram de concluir os cursos. Entre os motivos, posso afirmar que a causa do cancelamento e trancamento de matr\u00edculas, ocorreu por conta da necessidade de trabalhar, ou seja, \u00e9 dif\u00edcil optar quando na realidade somos privados de escolhas. Ainda que paire sobre a mem\u00f3ria coletiva que a harmonia racial \u00e9 amplamente acolhida em nossa sociedade, existe uma grande verdade que n\u00e3o podemos desconsiderar: ser pobre e negro n\u00e3o pode ser compar\u00e1vel a pobre e branco. A exclus\u00e3o, para os mais atentos e comprometidos com a igualdade entre os homens, \u00e9 percebida quando a cor aparece como crit\u00e9rio de exclus\u00e3o e dos constantes \u2018fechar de portas e de oportunidades\u2019\u201d.<\/p>\n<p><b>DISCRIMINA\u00c7\u00c3O<\/b> &#8211; No doutorado, a pesquisadora investigou o racismo no \u00e2mbito dos professores. Ela diz: \u201cMeu olhar foi sobre os docentes negros e negras da cidade de Pelotas, ou seja, como esses docentes, pertencentes a institui\u00e7\u00f5es de ensino das redes particular, municipal, estadual e federal, percebem o racismo institucional. Em especial na sociedade pelotense que, herdeira de uma hist\u00f3ria marcada pelo per\u00edodo charqueador permanece, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es, discriminando o negro nesses espa\u00e7os. Lamentalvemente o que pude perceber atrav\u00e9s das vozes desses docentes, \u00e9 que a cidade de Pelotas, mesmo que insista em enaltecer o mito da fr\u00e1gil democracia racial, continua depreciando o negro e sua intelectualidade a partir do pigmento da pele. \u00c9 recorrente a discrimina\u00e7\u00e3o sentida e, n\u00e3o raras as vezes que a presen\u00e7a, seja como docente ou num cargo de gest\u00e3o, seja duramente estranhada por alguns n\u00e3o negros. \u00c9 lament\u00e1vel perceber o quanto negros e negras continuam sendo destratados nas reparti\u00e7\u00f5es de ensino, bancos e na pr\u00f3pria sociedade pelotense. Pode parecer pessimismo da minha parte, no entanto, apenas exponho os relatos dessas experi\u00eancias narradas pelos pr\u00f3prios docentes em minha pesquisa.\u00a0 A intelectualidade do negro sempre \u00e9 posta em d\u00favida, ou seja,\u00a0 algo chocante que exige repara\u00e7\u00f5es e puni\u00e7\u00f5es mais severas. Temos que usar os crit\u00e9rios estabelecidos na lei que pune atos e a\u00e7\u00f5es de racismo e discrimina\u00e7\u00e3o. Puni-los como crimes e n\u00e3o transform\u00e1-los em retrata\u00e7\u00f5es de pouca relev\u00e2ncia, muitas vezes engavetadas atrav\u00e9s do simples \u2018pedido de desculpas\u2019. A dor e a humilha\u00e7\u00e3o causada ao outro n\u00e3o podem mais ficar relegadas ao descaso que, a cada dia, tem sido mais recorrente, tanto nas rela\u00e7\u00f5es\u00a0 interpessoais, como nas redes sociais\u201d.<\/p>\n<p><b>EXTERIOR<\/b> \u2013 Em outubro a pesquisadora pelotense estar\u00e1 no Chile. Ela foi convidada para participar do \u201cIV Congreso de la Internacional del Conocimiento &#8211; Ciencias, Tecnolog\u00edas y Culturas. Mirando al futuro de Am\u00e9rica Latina y el Caribe\u201d.<b> <\/b>Ela explica: \u201cAbordarei sobre as experi\u00eancias dos docentes negros e negras de Pelotas. E dias 13 e 14, estarei numa mesa de discuss\u00f5es sobre a Am\u00e9rica Latina frente a \u00c1frica e \u00c1sia. Tal reconhecimento \u00e9 para mim uma oportunidade muito significativa, pois representa a valoriza\u00e7\u00e3o do meu trabalho al\u00e9m da minha cidade, regi\u00e3o e pa\u00eds. E o mais importante, poderei ressaltar que ainda temos muito que aprender sobre o verdadeiro significado da democracia racial\u201d.<\/p>\n<p><b>PALESTRAS<\/b>, oficina e eventos, t\u00eam sido constantes na trajet\u00f3ria de Olga. Ele j\u00e1 esteve participando de atividades na Bahia, Esp\u00edrito Santo, Paran\u00e1, S\u00e3o Paulo, Santa Catarina, Para\u00edba, Par\u00e1 e Rio Grande do Norte. No Estado, palestrando em unidades da Unipampa em Jaguar\u00e3o e Bag\u00e9, enfocou a \u201cFragilidade das Legisla\u00e7\u00f5es de amparo ao negro no Brasil\u201d. Em Rio Grande S\u00e3o Leopoldo, presen\u00e7a em f\u00f3runs sobre a diversidade racial. Em Pelotas, na Secult explanou sobre \u201cSou dona do meu corpo e n\u00e3o escrava do senhor\u201d. Em escolas como Assis Brasil, Pelotense e IFSul, tem narrado sobre o \u201cquanto a cidade revela o racismo na pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Sempre levo um pouquinho da nossa realidade, enquanto cidade historicamente marcada pelo per\u00edodo charqueador. Em diferentes espa\u00e7os, motivam-se outras reflex\u00f5es. E tanto negros, bem como africanos que tenho conhecido, t\u00eam se mostrado muito respeitosos com o meu trabalho. N\u00e3o esque\u00e7o que, na Para\u00edba, quando estava apresentando o trabalho intitulado \u2018A dor da Cor\u2019, uma professora e pesquisadora negra, levantou e disse: \u2018parab\u00e9ns professora Olga, pela primeira vez na minha vida tive o prazer de ver uma pessoa branca falar da dor do negro com tanta sensibilidade e conhecimento da verdadeira hist\u00f3ria!\u2019\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisas sinalizam para a persist\u00eancia do preconceito aos negros na cidade que enriqueceu atrav\u00e9s do trabalho escravizado Por Carlos Cogoy Usamos as express\u00f5es pessoa de cor, moreninho e marrom, como<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":41449,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[32],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41446"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41446"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41446\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41451,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41446\/revisions\/41451"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41449"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41446"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41446"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41446"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}