{"id":64415,"date":"2017-07-17T08:46:17","date_gmt":"2017-07-17T11:46:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=64415"},"modified":"2017-07-17T19:23:47","modified_gmt":"2017-07-17T22:23:47","slug":"ufpel-o-preconceito-nao-impediu-sua-formatura-em-medicina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/ufpel-o-preconceito-nao-impediu-sua-formatura-em-medicina\/","title":{"rendered":"UFPEL  : O preconceito n\u00e3o impediu sua formatura em medicina"},"content":{"rendered":"<p><b>No s\u00e1bado houve o baile da formatura em medicina na UFPel, e a bajeense Miriam Walker foi a \u00fanica negra na turma<\/b><\/p>\n<p><b>Por Carlos Cogoy<\/b><\/p>\n<div id=\"attachment_64416\" style=\"width: 245px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-2.jpg\" rel=\"lightbox\" title=\"UFPEL  : O preconceito n\u00e3o impediu sua formatura em medicina\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-64416\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-64416\" alt=\"Miriam Walker realizar\u00e1 resid\u00eancia na \u00e1rea de medicina da fam\u00edlia\" src=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-2-235x300.jpg\" width=\"235\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-2-235x300.jpg 235w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-2-117x150.jpg 117w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-2.jpg 470w\" sizes=\"(max-width: 235px) 100vw, 235px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-64416\" class=\"wp-caption-text\">Miriam Walker realizar\u00e1 resid\u00eancia na \u00e1rea de medicina da fam\u00edlia<\/p><\/div>\n<p>As cotas s\u00e3o essenciais. Afirma\u00e7\u00e3o de Miriam Walker que, semana passada, formou-se em medicina na UFPel. \u00danica negra na turma de formandos, a bajeense conta que, diariamente, enfrentou racismo e preconceito. Embora n\u00e3o tenha ingressado atrav\u00e9s da pol\u00edtica de cotas, ela ressalta que o instrumento \u00e9 fundamental para atenuar a desigualdade hist\u00f3rica. Na sequ\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o, planeja a resid\u00eancia em \u201cmedicina de fam\u00edlia e comunidade\u201d. Ela explica: \u201cCostumo brincar que \u00e9 a \u2018medicina de humanas\u2019. Gosto da proximidade com as pessoas, a forma de aten\u00e7\u00e3o e cuidado, a participa\u00e7\u00e3o social, a interven\u00e7\u00e3o constru\u00edda coletivamente, a resolutividade. M\u00e9dico de fam\u00edlia \u00e9 aquele que acompanha a vida toda. \u00c9 o coordenador do cuidado\u201d.<\/p>\n<p><b>RACISMO<\/b>\u00a0\u2013 Em 2016, houve uma colega negra que concluiu o curso de medicina na UFPel. Neste ano, foi a vez de Miriam. Para 2018, como observa, provavelmente n\u00e3o haver\u00e1 negro na turma de formandos. De acordo com Miriam, n\u00e3o se trata de acaso ou coincid\u00eancia. Ela identifica como \u201csistema, estrutura. E n\u00e3o basta entrar. Permanecer \u00e9 muito dif\u00edcil, doloroso. E, dentro da universidade, n\u00e3o h\u00e1 qualquer lugar para que se encontre \u2018afeto\u2019, \u2018acolhimento\u2019 real, porque, por mais empatia que um indiv\u00edduo tenha, n\u00e3o estando exposto ao racismo, ele n\u00e3o \u00e9 capaz de sequer tocar a superf\u00edcie do tanto que isso nos afeta\u201d.<\/p>\n<p><b>ESTRAT\u00c9GIA<\/b>\u00a0\u2013 Miriam relata: \u201cSempre digo que fui a primeira cotista da UFPel, antes mesmo delas existirem. Reprovei no segundo semestre do curso. Sendo negra e com uma apar\u00eancia que, acredito, remete fortemente \u00e0 pobreza no imagin\u00e1rio de muitos, fui compreendida como cotista. Ningu\u00e9m considerava incongruente existir s\u00f3 uma, n\u00e9? No ano que entrei, tinha uma colega negra. Haviam negros em outras turmas, mas sempre poucos. Confesso que, depois das experi\u00eancias que tive na UERGS, percebi que deveria me manter\u00a0\u00a0afastada de grandes grupos ou discuss\u00f5es. O racismo muda a trajet\u00f3ria da gente. Encarei a UFPel sendo muito mais reservada. A universidade insinua que nossa perman\u00eancia \u00e9 uma concess\u00e3o, \u00e9 preciso \u2018aceitar as regras\u2019 que ela nos imp\u00f5e. No caso da medicina, h\u00e1 sempre a quest\u00e3o de \u2018se encaixar no padr\u00e3o\u2019. Sendo completamente fora dos padr\u00f5es imaginados, aquele n\u00e3o poderia ser o meu espa\u00e7o. E muitos trabalharam para refor\u00e7ar isso. Decidi que a minha socializa\u00e7\u00e3o em Pelotas deveria ocorrer em outro ambiente. A padroniza\u00e7\u00e3o era um pre\u00e7o muito alto a pagar pra me sentir aceita\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_64417\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica.jpg\" rel=\"lightbox\" title=\"UFPEL  : O preconceito n\u00e3o impediu sua formatura em medicina\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-64417\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-64417\" alt=\"Atendimento na UBS Areal leste\" src=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-300x235.jpg\" width=\"300\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-300x235.jpg 300w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica-150x117.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/miriam-walker-medica.jpg 626w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-64417\" class=\"wp-caption-text\">Atendimento na UBS Areal leste<\/p><\/div>\n<p><b>PRECONCEITO<\/b>\u00a0\u2013 Sobre o cotidiano na forma\u00e7\u00e3o, Miriam menciona: \u201cN\u00e3o houve um \u00fanico dia em que n\u00e3o sofri com racismo e preconceito. Desde professores dizendo que sab\u00edamos determinada mat\u00e9ria porque \u2018n\u00e3o \u00e9ramos cotistas\u2019, aos que diziam que \u2018s\u00f3 pobre \u00e9 gordo\u2019. Tamb\u00e9m a abordagem inadequada por parte de seguran\u00e7as, com bra\u00e7os estendidos e portas fechadas, impedindo minha passagem, ou t\u00e9cnicos de enfermagem gritando comigo pelo corredor e \u2018revistando\u2019 prontu\u00e1rios que estavam em meu poder, a incredulidade dos colegas ao perceberem que \u2018o esteto de patr\u00e3o\u2019 era meu, preceptora achando divertido que residente a\u00e7oitasse o namorado negro ou, ao fazer reclama\u00e7\u00e3o na Ouvidoria, e ouvir a pergunta \u2018por que voc\u00eas est\u00e3o com essa mania de que tudo \u00e9 racismo?\u2019, ouvir justificativas de atitudes racistas com o famoso \u2018minha esposa at\u00e9 \u00e9 morena\u2019, ser chamada de \u2018esquizoide\u2019. Alguns dos exemplos e situa\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p><b>DOCENTES<\/b>\u00a0\u2013 Em rela\u00e7\u00e3o ao conv\u00edvio com os professores, Miriam observa: \u201cMuitos s\u00e3o imparciais. Outros, esfor\u00e7am-se pra s\u00ea-lo. S\u00e3o poucos os docentes que perdem a civilidade e declaram seu racismo abertamente. Muitos preceptores t\u00eam dificuldade em equacionar a rela\u00e7\u00e3o pessoal e a profissional e, em vista disso, alguns colegas apontavam a \u2018injusti\u00e7a\u2019 de minhas avalia\u00e7\u00f5es subjetivas. J\u00e1 tive, por exemplo, nota descontada para \u2018combinar\u2019\u00a0\u00a0com a nota um pouco mais baixa de um colega\u201d.<\/p>\n<p><b>TRAJET\u00d3RIA<\/b>\u00a0\u2013 Na cidade natal, Miriam residiu at\u00e9 os quatro anos. Com a fam\u00edlia, os pais s\u00e3o formados em direito e letras, ela morou em diferentes cidades. Assim, estudou tanto em escolas p\u00fablicas, quanto particulares. O ensino m\u00e9dio foi cursado na rede privada de ensino. Em 2000 passou a tentar a medicina e, em duas ocasi\u00f5es, preparou-se em cursinhos espec\u00edficos. Em 2001, passou a cursar biomedicina. E, enquanto tamb\u00e9m teve per\u00edodos nos cursos de enfermagem, administra\u00e7\u00e3o de sistemas e servi\u00e7os de sa\u00fade, Miriam prosseguiu tentando o ingresso na medicina.\u00a0\u00a0\u201cFiz o ENEM em 2009. J\u00e1 2010 foi o primeiro ano de SISU, mas n\u00e3o tive \u2018nota suficiente\u2019 para medicina na primeira chamada. Meu nome ficou na lista de espera. Foi uma surpresa o ingresso no semestre seguinte\u201d, diz ela.<\/p>\n<p><b>LUTA<\/b>\u00a0\u2013 Miriam salienta a coletividade: \u201cN\u00e3o consigo me imaginar m\u00e9dica sem considerar as quest\u00f5es sociais. Fui criada dentro do movimento negro e fui acumulando pautas ao longo da vida. N\u00e3o seria capaz de abandonar isso justamente no momento que mais posso contribuir. Ser m\u00e9dica me coloca, aos olhos do mundo, em outro patamar. E isso tem que ser usado em favor das nossas lutas\u201d. Aos jovens e aqueles que est\u00e3o empenhados no ingresso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o superior, ela recomenda: \u201c\u00c9 poss\u00edvel. Ocuparemos todos os espa\u00e7os. Digo que estou sempre dispon\u00edvel e tento estar mesmo, qualquer pessoa que me veja na rua, \u00e9 s\u00f3 chegar e bater um papo. Porque n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, a academia \u00e9 um ambiente hostil. Mas n\u00e3o precisamos passar por ela sozinhos. Somos poucos l\u00e1 dentro? Sim, ainda. Daqui da porta de sa\u00edda posso dizer que h\u00e1 muito amor do lado de fora, formamos conex\u00f5es de apoio que ultrapassam fronteiras. \u00c9 isso que nos permite seguir e resistir. Tem uma m\u00fasica, chamada \u2018Escolhas\u2019, de Tiago Delau, que diz o seguinte: \u2018se \u00e9 pra frente que se anda, meu bonde n\u00e3o engata r\u00e9\u2019\u201d.<\/p>\n<p><b>Fraudador n\u00e3o pode ser m\u00e9dico porque n\u00e3o tem \u00e9tica<\/b><\/p>\n<p><b>R<\/b>epercutiu no Pa\u00eds, a pol\u00eamica sobre os estudantes que fraudaram o acesso a cotas no curso de medicina da UFPel. Ela conta que ouviu de um m\u00e9dico: \u201cFraudador n\u00e3o pode ser m\u00e9dico, porque n\u00e3o tem \u00e9tica&#8221;.<\/p>\n<p><b>DIREITO<\/b>\u00a0\u2013 Miriam reflete: \u201cQuando a UFPel introduziu a pol\u00edtica de cotas, eu sonhava com o in\u00edcio do semestre. Queria ver \u2018bixos\u2019 e \u2018bixetes\u2019 pretos! Me causou estranheza notar que n\u00e3o tinha mudado muito o cen\u00e1rio. A justificativa da universidade era que \u2018os negros n\u00e3o sabiam que podiam acessar as cotas\u2019. \u2018Se a culpa \u00e9 minha, boto onde eu quiser\u2019, ent\u00e3o s\u00f3 podia ser nossa. E toda vez que encontrava um fraudador na Leiga, me sentia agredida, mesmo sabendo que o meu sofrimento n\u00e3o comove. Quem frauda tem um sentimento de perten\u00e7a que jamais me foi permitido vivenciar. \u00c9 muito f\u00e1cil ser negro s\u00f3 na autodeclara\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Ser negro na vida real \u00e9 diferente. Agora \u00e9 tarde, aposto que essas pessoas inventariam hist\u00f3rias que corroborassem sua falsa identidade \u00e9tnica, mas fico imaginando as viv\u00eancias de racismo que tiveram ao longo da vida\u201d.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No s\u00e1bado houve o baile da formatura em medicina na UFPel, e a bajeense Miriam Walker foi a \u00fanica negra na turma Por Carlos Cogoy As cotas s\u00e3o essenciais. 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