{"id":75090,"date":"2018-05-02T09:19:48","date_gmt":"2018-05-02T12:19:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=75090"},"modified":"2018-05-02T09:19:48","modified_gmt":"2018-05-02T12:19:48","slug":"mulheres-negras-aula-inaugural-com-historias-saberes-dores-e-sabores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/mulheres-negras-aula-inaugural-com-historias-saberes-dores-e-sabores\/","title":{"rendered":"MULHERES NEGRAS : Aula inaugural com hist\u00f3rias, saberes, dores e sabores"},"content":{"rendered":"<p><b>Numa iniciativa in\u00e9dita na UFPel, a aula inaugural da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o reuniu os relatos de quatro mulheres negras<\/b><\/p>\n<p><b>Por Carlos Cogoy<\/b><\/p>\n<p><b>E<\/b>la perguntou ao p\u00fablico que lotou o audit\u00f3rio do Centro de Artes (CEARTES\/UFPel), quinta \u00e0 noite, quem se autodeclarava negro. Boa parte do p\u00fablico, ergueu o bra\u00e7o. A lideran\u00e7a negra Luciana Cust\u00f3dio \u2013 preside o Conselho Municipal da Mulher -, ent\u00e3o, contrastou a manifesta\u00e7\u00e3o atual com per\u00edodo recente. Segundo ela, at\u00e9 pouco tempo, se houvesse a pergunta, talvez ningu\u00e9m se identificasse como negro ou negra. O motivo para entender essa mudan\u00e7a, \u00e9 que a comunidade negra cada vez conquista mais voz e espa\u00e7o. Mas, embora tenha aumentado a autoestima, ainda s\u00e3o in\u00fameras as adversidades decorrentes do racismo. Para a supera\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do vi\u00e9s jur\u00eddico, a\u00e7\u00f5es afirmativas e pol\u00edticas p\u00fablicas, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial. Por\u00e9m, em sala de aula, ainda s\u00e3o poucas as refer\u00eancias \u00e0 comunidade negra. Como exemplo, o n\u00famero de docentes negros no ensino superior. De acordo com a professora dra. Georgina Lima (FaE\/UFPel), do total de 1.494 professores na UFPel, apenas vinte s\u00e3o negros. Destes, somente oito s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Diante dessa brutal desigualdade, a doutoranda Raquel Silveira (FURG), afirmou que \u00e9 preciso \u201cenxergar seus pares: na cor da pele, nas hist\u00f3rias de vidas partilhadas, com muitas experi\u00eancias semelhantes e outras n\u00e3o t\u00e3o semelhantes assim, e que tamb\u00e9m ir\u00e3o nos constituir como mulheres negras e homens negros, jovens negros\u201d. J\u00e1 a professora Marielda Barcellos Medeiros \u2013 doutoranda em antropologia na UFPel -, ressaltou o quanto a ancestralidade deve ser respeitada pois, na cultura negra, permite a todos o direito de se manifestar, e n\u00e3o aceita discrimina\u00e7\u00e3o. Exemplificando a dimens\u00e3o da religi\u00e3o de matriz africana, mencionou a luta da vereadora Marielle Franco (PSol), assassinada no Rio de Janeiro a 14 de mar\u00e7o, que era mulher negra, l\u00e9sbica e filha de Oy\u00e1. No dia 26, Georgina, Marielda, Raquel e Luciana, protagonizaram um encontro in\u00e9dito na UFPel. Sob a coordena\u00e7\u00e3o do professor Rog\u00e9rio W\u00fcrdig, elas proferiram a aula inaugural da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>COLETIVOS NEGROS<\/b>\u00a0\u2013 Na escola ela se acomodava ao fundo, escondendo-se pois n\u00e3o queria ser vista. Mas, aluna da professora Maritza Freitas, foi convidada para trocar de lugar, e passou a sentar na frente. Posteriormente, integrou-se \u00e0s aulas de dan\u00e7a da professora Maritza no Col\u00e9gio Pelotense. Atrav\u00e9s da corporeidade, encontrou seu lugar de express\u00e3o, passando tamb\u00e9m a refletir e verbalizar sobre as quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais. Na aula inaugural na UFPel, Raquel mencionou sobre o surgimento do grupo Odara que, atrav\u00e9s da dan\u00e7a e percuss\u00e3o, valoriza a arte e cultura negra h\u00e1 quase vinte anos. E recordou pelotenses como Giba Giba, que idealizou o projeto \u201cCabobu\u201d, integrando os \u201ctambores do sul aos tambores do mundo\u201d, bem como a escritora Maria Helena Vargas da Silveira que, entre os doze livros publicados, um deles \u00e9 intitulado \u201cOdara &#8211; Fantasia e Realidade\u201d (1993). Raquel cursou educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, fez o mestrado na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, lecionou no ensino superior, e atualmente \u00e9 doutoranda na FURG.<\/p>\n<p>Ela lembrou conceito de autoria do companheiro Miguel Dias, professor, poeta e pesquisador, prematuramente falecido no dia do professor ano passado, que formulava \u201cnegros e negras em movimento\u201d, dimensionando como saber tamb\u00e9m a corporeidade, inser\u00e7\u00e3o e viv\u00eancias. A doutoranda acrescentou: \u201cDan\u00e7ar me fez falar. O corpo negro vive a di\u00e1spora no cotidiano.<\/p>\n<div id=\"attachment_75097\" style=\"width: 274px\" class=\"wp-caption alignright\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-75097\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-75097\" alt=\"Luciana Cust\u00f3dio \" src=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-luciana-custodio-264x300.jpg\" width=\"264\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-luciana-custodio-264x300.jpg 264w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-luciana-custodio-132x150.jpg 132w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-luciana-custodio.jpg 473w\" sizes=\"(max-width: 264px) 100vw, 264px\" \/><p id=\"caption-attachment-75097\" class=\"wp-caption-text\">Luciana Cust\u00f3dio<\/p><\/div>\n<p>Entre dandaras e odaras, somos corpos negros contadores de hist\u00f3rias. N\u00e3o esque\u00e7amos os que vieram antes de n\u00f3s. E, para incomodar o senhor da casa grande, queremos a escritora Concei\u00e7\u00e3o Evaristo na Academia Brasileira de Letras\u201d. Raquel tamb\u00e9m expressou: \u201cUma vida diferente, a partir da arte a possibilidade de ativar o pensamento. Provocar, inquietar as pessoas sobre as quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais, as quest\u00f5es da vida, do mundo, da humanidade. Um corpo pol\u00edtico. Todas a vezes que tentam nos dizer os lugares que podemos estar, vivemos situa\u00e7\u00f5es constantes de enfrentamento, racismo, preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, seja na escola, trabalho, rua, espa\u00e7os art\u00edsticos, em diferentes locais\u201d.<\/p>\n<p><b>ENCONTRO COM ELA<\/b> foi o poema de Marielda Barcellos Medeiros, lido pela autora no evento. Nos versos: Hoje encontrei com ela\/ Minha rainha, a mais bela\/ Me esperava gigante, imponente\/ Meu cora\u00e7\u00e3o batendo forte\/ Acelerado\/ As pernas, bambearam\/ Mas sustentaram meu corpo suado\/ Conversei com Ela\/ Pedi clareza em meus passos\/ Que me guiasse por caminhos sem breu\/ Pedi por n\u00f3s, todos n\u00f3s\/ Ela respondeu com presen\u00e7a dentro de mim\/ Com a sonoridade das ondas de seu mar. Na abertura da aula inaugural, Marielda mencionou a forma\u00e7\u00e3o, destacando o aprendizado com a bisav\u00f3, av\u00f3 e m\u00e3e. Tamb\u00e9m ressaltou lideran\u00e7as negras, como Vera Triunfo, Ernestina Pereira e Ana Centeno. E Marielda valorizou \u201ctodas as mulheres com hist\u00f3rico de luta e resist\u00eancia, relacionado a quest\u00f5es do povo negro, no Brasil e principalmente no Estado\u201d. Doutoranda em antropologia na UFPel, Marielda \u00e9 pedagoga, com mestrado em educa\u00e7\u00e3o. Aposentada, trabalhou na SME, 5\u00aa CRE e SEDUC\/RS. Ao encerrar, manifestou: \u201cSiga sem medo, continue a caminhar, teu cora\u00e7\u00e3o transborda amor e f\u00e9, nada vai te abalar\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_75092\" style=\"width: 299px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-75092\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-75092\" alt=\"P\u00f3s-doutora Georgina Lima\" src=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-georgina-lima-289x300.jpg\" width=\"289\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-georgina-lima-289x300.jpg 289w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-georgina-lima-144x150.jpg 144w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-georgina-lima.jpg 579w\" sizes=\"(max-width: 289px) 100vw, 289px\" \/><p id=\"caption-attachment-75092\" class=\"wp-caption-text\">P\u00f3s-doutora Georgina Lima<\/p><\/div>\n<p><b>GUABIROBA PRESENTE<\/b> \u2013 Luciana Cust\u00f3dio est\u00e1, como disse, presidente do Conselho Municipal da Mulher. Acad\u00eamica de pedagogia na UFPel, ela lembrou a sua trajet\u00f3ria, passando pelas v\u00e1rias etapas que s\u00e3o \u201cpermitidas\u201d aos negros. E, divertiu-se ao recordar que, no af\u00e3 de ser aceita e interagir, chegou a integrar centro tradicionalista, sendo at\u00e9 posteira. O preconceito racial foi inevit\u00e1vel. Ela observa a fase como reflexo da desinforma\u00e7\u00e3o e doutrina\u00e7\u00e3o. Assim, somente ao chegar na universidade, passou a entender as contradi\u00e7\u00f5es e injusti\u00e7as. Na Guabiroba, onde \u00e9 l\u00edder comunit\u00e1ria, est\u00e1 \u00e0 frente de in\u00fameros projetos sociais, que aproximam cultura, sa\u00fade e gera\u00e7\u00e3o de renda. Na aula inaugural, Luciana retomou o protagonismo pois, ap\u00f3s o assassinato de Marielle Franco, ficou t\u00e3o abalada que silenciou diante da dor, consequ\u00eancia da brutalidade e da agress\u00e3o ao peso simb\u00f3lico.<\/p>\n<p><b>QUILOMBO EDUCA<\/b> \u2013 P\u00f3s-doutora em educa\u00e7\u00e3o, a professora Georgina Lima (FaE\/UFPel), \u00e9 uma das oito mulheres negras que lecionam na UFPel. Na sua fala, lembrou projeto que teve in\u00edcio em 2006, junto a comunidades quilombolas no Paran\u00e1. Como desafio, sistematizar a educa\u00e7\u00e3o numa cultura marcada pelo emp\u00edrico. E Georgina exemplificou as peculiaridades da escola, constru\u00edda coletivamente, aberta aos saberes da comunidade, respeitando o conhecimento de gera\u00e7\u00f5es. \u201cAntes de se tornar uma escola, \u00e9 preciso que seja a escola que se deseja. Ent\u00e3o, com itiner\u00e2ncia para aqueles e aquelas, que precisam da educa\u00e7\u00e3o como forma de alcan\u00e7ar a dignidade humana. Em 2006 estavam na beira da estrada. Atualmente, com a titularidade alcan\u00e7ada\u201d, disse. E a docente afirmou: \u201cEstamos na di\u00e1spora e partilhamos cultura, mas a hegemonia branca n\u00e3o partilha direitos, adquiridos pelo b\u00f4nus que \u00e9 ser branco\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_75095\" style=\"width: 706px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-75095\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-75095\" alt=\"Luciana, Marielda Medeiros, Raquel Silveira e Georgina \" src=\"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-na-ufpel.jpg\" width=\"696\" height=\"510\" srcset=\"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-na-ufpel.jpg 696w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-na-ufpel-150x109.jpg 150w, https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/mulheres-negras-na-ufpel-300x219.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><p id=\"caption-attachment-75095\" class=\"wp-caption-text\">Luciana, Marielda Medeiros, Raquel Silveira e Georgina<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa iniciativa in\u00e9dita na UFPel, a aula inaugural da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o reuniu os relatos de quatro mulheres negras Por Carlos Cogoy Ela perguntou ao p\u00fablico que lotou o audit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":75093,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,30],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75090"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75090"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75098,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75090\/revisions\/75098"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}