{"id":92632,"date":"2019-10-09T15:30:45","date_gmt":"2019-10-09T18:30:45","guid":{"rendered":"http:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/?p=92632"},"modified":"2019-10-09T15:30:45","modified_gmt":"2019-10-09T18:30:45","slug":"estupro-de-criancas-uma-epidemia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/estupro-de-criancas-uma-epidemia-brasileira\/","title":{"rendered":"Estupro de crian\u00e7as, uma epidemia brasileira"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><em>Ela atende v\u00edtimas de estupro no IML,\u00a0de beb\u00eas de dias a senhora de 80 anos<\/em><\/h2>\n<p>Em dez anos como m\u00e9dica legista do IML (Instituto M\u00e9dico Legal) de S\u00e3o Paulo, aconteceu uma vez de Mariana da Silva Ferreira, 40, pensar em desistir. Foi depois de atender, em 2011, uma menina de tr\u00eas anos com a fralda encharcada de sangue. Ela tinha que fazer um laudo pericial para dizer se havia ind\u00edcios de estupro. \u201cA crian\u00e7a tinha les\u00f5es genitais t\u00e3o graves que, quando vi a situa\u00e7\u00e3o, meu mundo caiu. Fui para o banheiro chorar.\u201d A menina havia sido violentada pelo vizinho de porta da fam\u00edlia, uma pessoa a quem a m\u00e3e confiava a filha quando precisava sair de casa.<\/p>\n<p>\u201cPensei comigo: &#8216;Chega, n\u00e3o volto mais&#8217;.\u201d Fez uma carta de exonera\u00e7\u00e3o e apresentou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do IML. Estava prestes a deixar o cargo, mas uma pergunta insistia em ecoar na sua cabe\u00e7a: \u201cPor que tanta crian\u00e7a?\u201d. Queria saber por que a maioria das v\u00edtimas que atendia tinham menos de 12 anos. Desistiu de desistir. Encontrar uma resposta se tornou sua obsess\u00e3o.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a tratar as pacientes \u201ccomo pessoas, n\u00e3o como casos\u201d, colocou adesivos da Turma da M\u00f4nica na sala de per\u00edcia e passou a distribuir bal\u00f5es, an\u00e9is de pl\u00e1stico, \u201ccomo os de festa infantil\u201d, e pirulitos aos pequenos. E fundou uma entidade para preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sexual, a Pr\u00f3digs, por meio da qual d\u00e1 palestras e cursos de capacita\u00e7\u00e3o e divulga material informativo.<\/p>\n<p>Nesses dez anos, contabiliza 4.000 per\u00edcias de sexologia forense. A paciente mais jovem tinha sete dias de vida. Em uma mesma semana, chegou a atender um beb\u00ea de seis meses e uma senhora de 80 anos, ambas v\u00edtimas de estupro. \u201c\u00c9 um trabalho que me faz por em xeque a f\u00e9 nas pessoas porque est\u00e1 na minha m\u00e3o, para eu examinar, o resultado do pior que um ser humano pode fazer.\u201d<\/p>\n<p>No IML em que trabalha, situado no Hospital P\u00e9rola Byington, na capital paulista, trabalha 40 horas semanais, intercalando plant\u00f5es. Atende muitas garotas violentadas sexualmente por pais e padrastos, lida com familiares negligentes e pericia mulheres arrasadas por viola\u00e7\u00f5es de todo tipo. Afirma que a porcentagem de pacientes do sexo feminino segue os n\u00fameros das pesquisas sobre estupros: cerca de 70% a 80% dos casos.<\/p>\n<p>\u201cComo voc\u00ea consegue?\u201d, \u00e9 a pergunta que mais escuta. \u201c\u00c9 como diz o dependente qu\u00edmico: um dia de cada vez\u201d, responde. E, ao lembrar que seu inc\u00f4modo n\u00e3o chega aos p\u00e9s da devasta\u00e7\u00e3o que um estupro faz na vida de uma v\u00edtima, d\u00e1 sentido ao seu trabalho: \u201cSe entrou comigo, \u00e9 a pessoa mais importante do mundo naquele momento. \u00c9 a minha maneira de ajud\u00e1-las\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>Estupro de crian\u00e7as: uma epidemia brasileira<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Brasil vive uma tr\u00e1gica epidemia de viol\u00eancia sexual contra menores. Segundo dados do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2019, uma menina de at\u00e9 13 anos \u00e9 estuprada a cada 15 minutos. Um estudo in\u00e9dito do Instituto Sou da Paz que ser\u00e1 divulgado nos pr\u00f3ximos dias mostra que, enquanto estupros em geral ca\u00edram 2,5% no primeiro semestre de 2019 em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2018, os registros do crime contra vulner\u00e1veis (menores de 14) subiram 1%.<\/p>\n<p>Apesar dos dados e de conviver diariamente com a realidade chocante que os n\u00fameros representam, Mariana consegue ter seu lado otimista. \u201cAcho que estamos em um momento de transi\u00e7\u00e3o: apesar de haver muitos casos, vejo mais abertura para discutir o assunto e menos toler\u00e2ncia das pessoas aos crimes\u201d, diz.<\/p>\n<p>Pela Pr\u00f3digs, ela conta, j\u00e1 deu palestras em sal\u00e3o de pr\u00e9dio, escola, universidade e igreja. \u201cTem muita gente querendo aprender. Depois das aulas, sempre recebo mensagens e emails dizendo: &#8216;Conseguimos denunciar, o agressor foi preso&#8217;.\u201d<\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>\u201cQuando Damares assumiu, pensei que teria potencial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o\u201d<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mariana tinha esperan\u00e7a de que, ao assumir o cargo, a ministra Damares Alves, do Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos, pudesse apresentar propostas para resolver o problema. \u201cVi o depoimento dela contando que tamb\u00e9m foi abusada, \u00e9 chocante. Pensei que, por j\u00e1 ter vivido isso, seu governo teria muito potencial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Mas o que observou foi n\u00e3o s\u00f3 a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas ao tema, mas tamb\u00e9m um projeto que poderia piorar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas. \u201cQuando soube da not\u00edcia do ensino domiciliar, aquilo me arrepiou inteira. A maioria dos abusos acontece dentro de casa, todas as estat\u00edsticas provam isso. Ent\u00e3o \u00e9 deixar a crian\u00e7a \u00e0 merc\u00ea do abusador.\u201d<\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>Pais estupram, m\u00e3es s\u00e3o negligentes: quem mais denuncia \u00e9 a escola<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pais, padrastos, tios, av\u00f4s e amigos da fam\u00edlia s\u00e3o, na maioria das vezes, os autores da agress\u00e3o. A m\u00e3e que v\u00ea isso vai direto denunciar, certo? N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Mariana explica que percebe resist\u00eancia para o que o tema saia do seio familiar. \u201cA fam\u00edlia prefere esconder e resolver entre eles, \u00e9 como se denunciar fosse trazer uma vergonha para todos. Escuto muito que n\u00e3o querem expor o cara nem destruir a fam\u00edlia\u201d, diz. \u201cA\u00ed pergunto: que fam\u00edlia?\u201d<\/p>\n<p>Certa vez, conta, recebeu tr\u00eas garotas, entre 7 e 15 anos, encaminhadas para per\u00edcia durante investiga\u00e7\u00e3o ap\u00f3s uma den\u00fancia an\u00f4nima. Sobre a de 15, a m\u00e3e disse: \u201cEla j\u00e1 \u00e9 grande, sabia o que estava fazendo\u201d. Os abusos aconteciam h\u00e1 meses, e tanto m\u00e3e quanto av\u00f3 sabiam que o pai estuprou as tr\u00eas filhas por dois anos.<\/p>\n<p>A partir da pr\u00f3pria experi\u00eancia, Mariana v\u00ea na escola a chave para combater a viol\u00eancia sexual infantil. \u201cA crian\u00e7a passa tempo l\u00e1, os professores conhecem o comportamento dela e podem notar mudan\u00e7as, veem um desenho, t\u00eam tempo para conversar\u201d, diz. \u201cPor isso, \u00e9 t\u00e3o importante falar de sexualidade infantil em sala de aula.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuando falamos de sexualidade infantil, logo associam com ensinar a crian\u00e7a a ter rela\u00e7\u00f5es sexuais. N\u00e3o tem nada a ver\u201d, diz a m\u00e9dica. \u201cEduca\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 explicar que a regi\u00e3o \u00edntima \u00e9 uma parte do corpo onde ningu\u00e9m pode fazer carinho, um adulto n\u00e3o pode passar a m\u00e3o nem colocar a boca e, se isso acontecer, precisa contar para a mam\u00e3e.\u201d<\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>\u201cLaudo negativo n\u00e3o \u00e9 prova de que n\u00e3o houve estupro\u201d<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A m\u00e9dica conta como fica aflita em casos em que o laudo pericial d\u00e1 negativo, ou seja, quando n\u00e3o h\u00e1 nenhuma marca f\u00edsica que prove o crime. Em muitas investiga\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o em colher outras provas, e a per\u00edcia acaba sendo decisiva.<\/p>\n<p>O problema, diz, \u00e9 que estupradores de menores seguem um padr\u00e3o: os primeiros abusos n\u00e3o costumam deixar les\u00f5es. \u201cCome\u00e7am com passadas de m\u00e3o, sexo oral. No geral, eles n\u00e3o deixam les\u00f5es, pois sabem que ser\u00e3o pegos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para explicar melhor o problema, ela relembra um de seus casos. \u201cUma garota de 21 anos chegou aqui contando que era estuprada desde os seis pelo padrasto. Ainda crian\u00e7a, depois de uma den\u00fancia an\u00f4nima, passou por uma per\u00edcia, que deu negativa. O caso foi arquivado\u201d, diz. \u201cO padrasto pegou uma c\u00f3pia do laudo e a garota dizia lembrar dele balan\u00e7ando o documento no rosto dela: &#8216;Viu? Deu negativo. Agora voc\u00ea vai virar a mulher da casa&#8217;. Foi quando come\u00e7aram as penetra\u00e7\u00f5es.\u201d Aos 12, a garota fugiu de casa. E, aos 21, fez a den\u00fancia porque ficou sabendo que o mesmo homem, agora, estava abusando das sobrinhas.<\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>Estuprador de crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 monstro nem doente<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mariana \u00e9 taxativa: quem violenta uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um \u201cmonstro\u201d, como se costuma falar. \u201cS\u00e3o pessoas agrad\u00e1veis, de quem todos gostam, e tem uma imagem positiva na comunidade\u201d, diz. Ela ainda explica que abusadores n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, ped\u00f3filos, como dita o senso comum. \u201cApenas 20% dos agressores t\u00eam diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. Dizer que \u00e9 um doente \u00e9 faz\u00ea-lo se beneficiar legalmente\u201d, afirma, referindo-se \u00e0 possibilidade de pessoas com doen\u00e7as mentais serem consideradas inimput\u00e1veis, ou seja, n\u00e3o poderem ser punidas criminalmente.<\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>\u201cDenuncie. Se n\u00e3o der em nada, denuncie de novo. E de novo\u201d<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 algumas maneiras de denunciar um abuso infantil. Uma delas \u00e9 o Disque 100. O n\u00famero do governo federal \u00e9 um canal que recebe den\u00fancias an\u00f4nimas e repassa a \u00f3rg\u00e3os competentes, como conselhos tutelares e Minist\u00e9rio P\u00fablico. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel procurar diretamente o conselho tutelar local ou qualquer delegacia. \u201cJ\u00e1 escutei de v\u00edtimas adultas violentadas na inf\u00e2ncia: &#8216;Todo mundo sabia, e ningu\u00e9m fez nada&#8217;. \u00c9 triste demais\u201d, diz Mariana. \u201cPor isso, minha orienta\u00e7\u00e3o \u00e9: denuncie. Tem gente que diz que n\u00e3o d\u00e1 em nada, mas eu respondo: denuncie de novo e de novo. N\u00e3o pare de denunciar. Quem se omite tamb\u00e9m comete um abuso.\u201d<\/p>\n<p align=\"right\"><i>(Por Camila Brandalise\/Universa\/Ag\u00eancia Patr\u00edcia Galv\u00e3o)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela atende v\u00edtimas de estupro no IML,\u00a0de beb\u00eas de dias a senhora de 80 anos Em dez anos como m\u00e9dica legista do IML (Instituto M\u00e9dico Legal) de S\u00e3o Paulo, aconteceu<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":92633,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[305,150],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92632"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92632"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92632\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":92634,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92632\/revisions\/92634"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariodamanhapelotas.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}