Rajadas de vento ultrapassaram 130 km/h nas bases físicas de Pelotas e Capão do Leão; Levantamento inicial estima mais de R$ 1,5 milhão em perdas estruturais


Três das quatro bases físicas da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, foram afetadas pelo ciclone que atingiu o Rio Grande do Sul na madrugada de 21 de setembro. A intensidade do fenômeno mobilizou os empregados em uma força-tarefa para a recomposição das atividades essenciais. A Unidade executa medidas emergenciais que incluem a desobstrução de acessos, a reconstituição de telhas, o restabelecimento gradual das redes elétrica e de conectividade, a proteção de experimentos sensíveis ao clima, o levantamento detalhado dos danos e a negociação de apoio da Diretoria-Executiva da Embrapa.

“Desde o primeiro momento as nossas equipes estavam lá. Logo após o temporal já começaram a trabalhar e verificar os primeiros danos. Fizeram um trabalho à exaustão para que as equipes pudessem circular pelas estruturas”, relata o chefe-geral da Unidade, Leonardo Ferreira Dutra.

Cobertura do Sispel, na ETB, foi arrastada. Fotos: Francisco Orlandi



Os dados agrometeorológicos registrados na região revelam a dimensão da tempestade. Na Estação Agroclimatológica de Pelotas, localizada na Estação Experimental Terras Baixas (ETB) em Capão do Leão - operada em parceria entre a Embrapa, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) - , foram registradas rajadas de 137,5 km/h.

Nas estações da Unidade, os picos de vento atingiram marcas históricas. No Campo Experimental de Melhoramento de Arroz e Bioclimático, na ETB, as rajadas alcançaram 120,7 km/h, enquanto na Sede atingiram 96,6 km/h. Segundo o pesquisador José Reinaldo Moraes, responsável pelo Laboratório de Agrometeorologia da Embrapa Clima Temperado, os dados das estações agrometeorológicas foram registrados a dois metros do solo, e a intensidade dos ventos aumenta com a altitude. Isso ajuda a entender a faixa de destruição deixada nas edificações, coberturas e vegetação em Pelotas e Capão do Leão.

“Os danos causados foram graves, comprometendo principalmente o fornecimento de energia elétrica e internet. Até mesmo os geradores, que deveriam funcionar em caso de falta de energia, tiveram que passar por manutenção por causa do rompimento de cabos”, afirma Dutra.

 

Estragos nas bases físicas


A ETB foi a base física mais impactada. A força do vento derrubou quase 200 eucaliptos ao longo da estrada. Em um primeiro momento, o acesso com veículos motorizados ficou bloqueado, o que forçou o acesso às infraestruturas a pé. Segundo Dutra, foram necessários dois dias para abrir o caminho, mas árvores tombadas continuam sendo retiradas com uso de motosserras, tratores e retroescavadeiras. Além disso, mais de 20 quilômetros de cercas e arames foram arrancados, o que causou uma dispersão do gado.

A área do Sispel, na ETB, foi a mais afetada.



O coordenador da ETB, Gilmar Alves, afirma que o Sistema de Pesquisa e Desenvolvimento em Pecuária Leiteira (Sispel) foi o mais afetado. As telhas que protegem as edificações voaram cerca de 150 metros. Segundo Alves, todas as construções da base física sofreram com algum nível de destelhamento. Uma árvore caiu sobre o galpão de armazenamento de ração do gado de leite, provocando danos à infraestrutura. A rede elétrica local e a bomba de combustível também foram danificadas.

Cobertura do Sispel voou cerca de 150 metros. Terneiros tiveram ferimentos.



Na Estação Experimental Cascata (EEC), em Pelotas, o principal problema foi o destelhamento parcial de estruturas estratégicas, como o Centro de Formação de Agricultores Familiares (Cecaf), a Biofábrica, o prédio da Administração e a Casa das Sementes. Segundo o coordenador da EEC, Ernesto Guarino, no posto de combustível local, uma bomba foi derrubada com o impacto do vento.

A Sede da Unidade, também em Pelotas, sofreu danos em estruturas metálicas de estufas, telados e casas de vegetação, que foram retorcidas ou perderam completamente suas coberturas de tela e plástico (veja foto ao lado). Árvores de grande porte não experimentais e oliveiras foram arrancadas pela raiz. Segundo a supervisora do Setor de Gestão de Campos Experimentais da Sede, Fernanda Quintanilha Azevedo, o maior desafio agora é proteger as plantas experimentais de doenças e intempéries, evitando o comprometimento dos ensaios.

Pesquisadores, analistas e técnicos foram a campo desde o primeiro dia para avaliar os estragos e tomar medidas emergenciais, priorizando o salvamento dos experimentos mais sensíveis. Na ETB, pelo menos dois terneiros precisaram passar por procedimentos veterinários e foram encaminhados à clínica veterinária da UFPel. Em seguida, os empregados iniciaram o trabalho braçal de remoção de escombros e limpeza das áreas afetadas, com apoio de equipes externas.

Casa de vegetação na Sede da Unidade teve a estrutura danificada.


Infraestrutura e apoio institucional


A tempestade provocou a queda de cerca de 30 postes e gerou pelo menos 20 pontos de rompimento na rede de fibra óptica que atende a Unidade. Para manter as atividades operacionais mínimas, a Sede passou a utilizar, em caráter provisório, conexão de internet via rádio. Os empregados que precisam exclusivamente de internet para trabalhar, permanecem em trabalho remoto até a data de hoje. A partir desta terça-feira (29), todos os empregados lotados na Sede voltam a trabalhar de forma presencial. Nas bases da Cascata (EEC) e Terras Baixas (ETB), a energia elétrica está sendo restabelecida gradualmente, mas os serviços de dados permanecem suspensos temporariamente até a conclusão dos reparos das operadoras externas. Para assegurar a operação dos sistemas essenciais, a Unidade adotou o uso temporário de geradores para manutenção das atividades básicas.

A Chefia-Geral encaminhou um relatório preliminar de danos e necessidades à Diretoria-Executiva, solicitando aporte financeiro emergencial. “Tivemos o apoio integral e imediato da Diretoria. Além disso, recebemos mensagens de solidariedade de chefes-gerais de outras Unidades. Desde o primeiro momento, foi solicitado que fizéssemos um levantamento dos danos emergenciais, que depois serão complementados com um levantamento de cunho estrutural”, afirmou o chefe da Embrapa Clima Temperado.

O levantamento inicial dos estragos estima mais de R$ 1,5 milhão em perdas, valor que será complementado ao fim da análise dos danos. As comissões e equipes técnicas seguem trabalhando em campo para catalogar detalhadamente todas as avarias e consolidar o balanço definitivo.