Diretor do grupo AHora teria orientado trabalhadores a evitar dívidas e compras, anuncia uma crise econômica “sem precedentes” e associa o fim da escala 6×1 ao fechamento de pequenos negócios
O Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) recebeu denúncia sobre uma mensagem atribuída ao diretor-executivo do grupo A Hora, Adair Weiss, enviada na quinta-feira, 15 de outubro, a jornalistas do jornal A Hora do Sul e da Rádio Pelotense, em Pelotas, pelo Whatsapp. Diante do conteúdo, a entidade encaminhou notícia de fato ao Ministério Público do Trabalho (MPT), solicitando a apuração da conduta e as devidas providências.
Na mensagem, o diretor, que já foi presidente da Associação dos Diários do Interior, orienta os trabalhadores a evitar dívidas e compras, anuncia uma crise econômica “sem precedentes” e associa o fim da escala 6×1 ao fechamento de pequenos negócios e à redução das receitas de mídia dos veículos de comunicação. O texto foi enviado em meio ao debate eleitoral, às vésperas do segundo turno, um dia após a aprovação no Senado Federal da PEC 221, na noite de quinta-feira, 15 de outubro.
“Para o SindJoRS, o teor da comunicação representa uma ameaça velada, ao projetar sobre os empregados um cenário de insegurança financeira e profissional relacionado à conquista de direitos trabalhistas. A posição de autoridade de quem transmite a mensagem agrava a preocupação com seus efeitos sobre os trabalhadores. O Sindicato reafirma que o debate sobre jornada de trabalho e os rumos do país deve ocorrer com respeito à liberdade de consciência, à dignidade e aos direitos das categorias profissionais. A relação de emprego não pode servir de instrumento para disseminar medo ou constranger posições políticas e reivindicações trabalhistas”, afirma a nota do SindJorRS.
O episódio registrado em Pelotas ocorre em um contexto de preocupação nacional com a pressão política exercida sobre trabalhadores. Segundo levantamento do Ministério Público do Trabalho (MPT) divulgado pelo g1 nesta terça-feira (20), o Brasil contabilizou 663 denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho entre os dias 1º e 19 de outubro, uma média de 35 registros por dia. Em setembro, foram 553 denúncias, contra 68 no mesmo mês de 2022, um aumento de aproximadamente 713%.
O MPT alerta que o assédio eleitoral ocorre quando relações de trabalho são utilizadas para intimidar, constranger ou influenciar as escolhas políticas dos trabalhadores. Embora o aumento das denúncias não signifique necessariamente que os episódios tenham crescido na mesma proporção, os números reforçam a importância de apurar situações que possam comprometer a liberdade de manifestação política. Em Pelotas, a denúncia encaminhada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) ao MPT busca justamente a apuração de uma mensagem enviada a profissionais da imprensa local.
A Federação Nacional de Jornalistas – FENAJ repercutiu a nota em apoio ao sindicato gaúcho, que diz que “acompanhará os desdobramentos da notícia de fato e permanece à disposição dos profissionais para receber relatos e prestar orientação. Caberá ao Ministério Público do Trabalho apurar os fatos e avaliar as medidas pertinentes.”
O Diário da Manhã fez contato com o diretor-executivo do grupo A Hora, Adair Weiss para ouvir o outro lado. Até a publicação desta reportagem, não havia recebido resposta. O espaço segue aberto ao contraditório e será atualizado se houver manifestação.