Diário da Manhã

quinta, 13 de agosto de 2020

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EDUCAÇÃO : Aulas no “Google Classroom” ainda não engrenaram no RS

22 julho
09:26 2020

Alunos com dificuldade de acesso, e professores sem dinheiro para internet

Por Carlos Cogoy

         Até maio, em decorrência da suspensão das aulas por conta da quarentena, as aulas remotas conseguiram estabelecer uma dinâmica de ensino e aprendizagem. A partir deste mês, no entanto, a adesão ao Google Classroom nas escolas estaduais, ainda não engrenou. É o que tem sido expresso por professores e diretores de diferentes escolas locais. Na Escola Estadual de Ensino Médio Cel. Pedro Osório, o diretor Hélcio Fernandes Barbosa Júnior, relata as dificuldades com a nova metodologia. Doutor em educação pela UFPel e, à frente da gestão 2019/2021 na direção da escola, ele expressa: “O Google Classroom é uma falácia do governo, com relação ao acesso dos alunos. Várias informações foram dadas na mídia e via 5ª  CRE, que não se concretizaram”.

Diretor Hélcio Fernandes Jr

Diretor Hélcio Fernandes Jr

ABISMO SOCIAL – Hélcio menciona sobre as adversidades nesta nova etapa: “É a forma mais difícil de acesso do aluno e traz um problema social à tona, cria um ambiente de desigualdade profunda, pois muitos alunos não tem acesso à boa internet, algumas famílias dispõem de apenas um aparelho de celular para várias crianças e adolescentes. E os professores, em estado de miséria, com salários há mais de cinco anos sem serem pagos em dia, muitos com empréstimos intermináveis, estão buscando soluções para poder fazer chegar ao aluno as atividades que devem propor. Aparelhos que não comportam espaço, e condições para que haja uma real aprendizagem dos alunos, são uma constante nesse sistema de Google Classroom”.

ESVAZIAMENTO – O diretor observa que, antes da plataforma, a dinâmica consistia no contato via grupo da escola no Facebook. Tarefas eram postadas, os alunos reenviavam e, nalguns casos, atividades eram entregues na escola. Com a mudança, o diretor avalia: “O governo anunciou que a plataforma entraria em ação no início do mês de julho mas, quando os professores acessaram havia muitos erros. Algumas turmas não apareciam, e alunos sequer conseguiam criar as senhas de acesso, já que o governo cria uma conta de email para os estudantes. Um caos se estabeleceu na vida dos alunos, e dos professores que não conseguem usar a plataforma. Passamos da metade de julho, e temos números inexpressivos de alunos que acessam sistematicamente a plataforma. Numa turma de 35 alunos como temos na escola, o acesso varia entre quatro e dezessete alunos nas aulas”.

DESIGUALDADE – Para o diretor, o Google Classroom é pior do que o sistema de aulas remotas. Na plataforma, o professor posta os conteúdos, que ficam gravados, e mantém-se conectado no horário de aula, para esclarecer dúvidas. Mas, na Escola Pedro Osório, poucos têm sido os alunos que acessam e interagem. “A dificuldade dos alunos em se cadastrar, acessar e utilizar a plataforma, impossibilita que esta cumpra seu objetivo. Muitos não têm acesso algum à internet. Muitos pais não possuem conhecimento do sistema para poder auxiliar os filhos. Famílias também com equipamentos aquém dos que seriam necessários para utilizarem as ferramentas que a plataforma oferece. Alunos sem condições, sentem-se inferiorizados perante colegas que conseguem acessar a ferramenta com plenitude. É a criação de um abismo social que se acentua em tempos de pandemia, onde aumenta a frustração dos professores, já desmotivados pela desvalorização da educação no Estado, e ainda beneficia quem tem condições, prejudicando estudantes em estado de vulnerabilidade social”, desabafa Hélcio.

Escola com 78 anos, tem 1.149 alunos e 63 professores

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SUCATEAMENTO – Hélcio sugere que o governador deveria parar de divulgar um acesso que não está acontecendo. Conforme analisa, não houve tempo de adaptação à ferramenta. O diretor afirma que o trabalho somente deveria iniciar, à medida que todos tivessem acesso, e soubessem manusear adequadamente. As reivindicações, não só da Escola Pedro Osório, como de outras escolas locais, têm sido encaminhadas à coordenadora Alice Maria Szezepanski (5ª CRE), para que busque soluções junto à Secretaria da Educação (SEDUC). Ele conclui: “Não adianta fingir que existe aprendizado efetivo do ensino público, em uma plataforma cheia de erros e um público alvo que não tem familiaridade em utilizá-la. Além disso, professores foram sucateados pelo governo atual, e pelo que o antecedeu. Então, não possuem condições de adquirir equipamentos eletrônicos capazes de desenvolver um trabalho satisfatório para oferecer qualidade aos estudantes. Os professores estão sendo obrigados a utilizar seus equipamentos próprios e pagar internet do próprio bolso, sendo que não recebem em dia, para poder satisfazer as determinações do governo do estado do Rio Grande do Sul”.

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