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Feito no Céu

Feito no Céu
06 novembro
09:10 2025

Há vozes que o tempo não silencia. Freddie foi feito no céu e continua ecoando entre as estrelas

Marcelo Gonzales*

@celogonzales @vidadevinil

Made in Heaven. O nome por si só já é um abraço de saudade e um sussurro vindo do alto. Lançado em 6 de novembro de 1995, esse disco do Queen carrega uma aura que ultrapassa qualquer explicação técnica, qualquer adjetivo frio. É o adeus mais bonito que uma banda poderia oferecer ao seu vocalista e, ao mesmo tempo, um reencontro, porque, de alguma forma, Freddie Mercury nunca foi embora.

Sempre gostei de pensar que esse título não foi apenas uma escolha poética, mas uma confissão. “Feito no Céu.” E quem, senão Freddie, seria capaz de transformar o próprio céu em estúdio? Quem mais traria de lá uma voz que parece atravessar o tempo e pousar suavemente em cada coração que o escuta? É quase uma ironia divina, quando o homem que veio do céu volta a ele, mas antes nos deixa um presente envolto em luz e melodia.

Made in Heaven não é apenas um álbum, é um testamento de amor, coragem e arte. Foi concluído após a morte de Freddie, com a banda reunindo gravações deixadas por ele e tecendo ao redor dessas faíscas um mosaico de emoção pura. Brian May, Roger Taylor e John Deacon fizeram aqui algo que transcende o luto. Construíram uma ponte entre a eternidade e a Terra, para que todos nós pudéssemos atravessá-la cada vez que o play é apertado.

E que viagem essa travessia é. It’s a Beautiful Day abre o disco com uma declaração simples, mas que Freddie transforma em hino, o dia é lindo, e ele o diz com uma serenidade quase celestial. Parece uma despedida, mas também uma bênção. Made in Heaven, a faixa-título, soa como um eco suave do próprio nome do álbum com um artista nos lembrando que, sim, há beleza nas alturas.

Logo depois, Let Me Live (Deixe-me Viver) surge como um pedido, uma súplica que é também celebração. É Freddie dizendo o que todos nós, humanos, deveríamos dizer mais vezes. E quem consegue ouvir Mother Love (Amor de Mãe) sem sentir o nó na garganta? Essa foi a última música que Freddie gravou em vida, interrompida quando ele já não tinha mais forças. Brian May finalizou os vocais, mas o vazio deixado é quase palpável. A música termina com um som distante, como se Freddie tivesse apenas mudado de cômodo, e não partido.

Too Much Love Will Kill You (Amor Demais Vai Te Matar) é a confissão mais honesta do disco. Uma ferida aberta cantada com doçura. E quando chega You Don’t Fool Me  (Você Não Me Engana) , há uma sensação de que Freddie ri, brinca, se disfarça na batida, fazendo do groove sua última gargalhada. A Winter’s Tale fecha o ciclo com calma: é inverno, mas há sol. É fim, mas é começo.

Tudo nesse álbum pulsa saudade, mas não uma saudade amarga. É uma saudade boa, que aquece. Uma nostalgia que acredita, que sorri, que sabe que, se algo foi feito no céu, é porque veio para tocar a eternidade.

Freddie Mercury foi mais do que um cantor, foi uma centelha de luz que o mundo teve a sorte de testemunhar. Um artista que, mesmo ausente, continua presente em cada nota, cada respiração, cada coro que ecoa em nossos fones.

Hoje, quase três décadas após o lançamento de Made in Heaven, ainda sinto que o céu se abre quando ouço sua voz. E talvez essa seja a maior dádiva da arte: ela não morre, apenas muda de forma.

Amanhã, seguimos com outro capítulo dessa imensa sinfonia que é a vida, com a esperança de que, em cada canção, exista sempre um pedaço do paraíso.

*Marcelo Gonzales é autor do blog Que Dia é Hoje?, vive entre discos de vinil e muita mídia física, sempre atento à música, à cultura e ao jornalismo, compartilhando histórias que conectam gerações.

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