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Coluna de Cinema – Edição 62

Coluna de Cinema – Edição 62
20 janeiro
11:33 2026

Extermínio – O Templo dos Ossos: assim caminha a humanidade

Estamos diante de uma verdadeira raridade no cinema de franquias. É incomum que um quarto filme não apenas sustente o interesse do público, mas se afirme como o melhor capítulo de toda a série. “Extermínio: O Templo dos Ossos” (8 Years Later: The Bone Temple) alcança esse feito ao expandir seu universo narrativo com ousadia, inteligência e uma inquietação moral que acompanha a saga desde seu início em 2002.

O longa retoma os acontecimentos do filme anterior, ambientado 28 anos após o surto original do vírus da Raiva. Naquele desfecho, um garoto chamado Spike, interpretado pelo promissor Alfie Williams, abandona a relativa segurança da Ilha Sagrada, uma comunidade em quarentena no litoral nordeste da Inglaterra, e parte rumo ao continente devastado. Ele é movido por rumores sobre um médico recluso, Dr. Kelson, vivido por Ralph Fiennes (de “Conclave”), uma figura quase mítica que teria erguido um ossuário monumental em homenagem à humanidade dizimada. O filme anterior encerrou-se com uma reviravolta extraordinária, tão impactante que muitos optaram por não mencioná-la publicamente por questões de spoiler, e é justamente a partir desse ponto que ”O Templo dos Ossos” amplia de forma decisiva o horizonte da franquia.

A narrativa acompanha principalmente o Dr. Kelson, personagem central deste novo capítulo, em sua tentativa obsessiva e por vezes imprudente de compreender as vítimas do vírus, em especial os chamados “alfas”, infectados excepcionalmente fortes, dotados de musculatura hipertrofiada e brutalidade quase mítica, capazes de decapitar um homem com as próprias mãos. Esse esforço de compreensão científica e moral acaba conduzindo o espectador ao coração simbólico do filme, onde a linha entre humanidade e monstruosidade se torna cada vez mais indistinta.

Apesar de sempre ter orbitado o imaginário zumbi, a série “Extermínio” manteve, desde os primeiros filmes, um distanciamento conceitual dos mortos-vivos clássicos de George Romero. Os infectados eram, tecnicamente, humanos dominados por um vírus mutante da raiva, ainda vivos, ainda reconhecíveis. Três décadas depois, a franquia parece finalmente confortável em assumir, sem subterfúgios, a iconografia do zumbi, ainda que ressignificada por um viés biológico e social próprio.

Sob a direção segura de Nia DaCosta, cineasta de “Candyman”, o filme mantém o ritmo acelerado característico da série, mas acrescenta uma camada de inquietação moral mais densa. O arco narrativo que atravessa décadas se consolida não apenas como uma jornada de horror e sobrevivência, mas como uma alegoria social cada vez mais perturbadora, refletindo sobre colapso civilizatório, fanatismo e a fragilidade dos códigos éticos quando a ordem desaparece.

Uma mudança narrativa significativa desta quarta parte desloca parcialmente o foco dos infectados para um grupo de satanistas errantes, liderados pelo ameaçador e carismático Jimmy Crystal (Jack O’Connell). Este acréscimo potencializa o clima de terror ao sugerir que, em um mundo em ruínas, o verdadeiro horror pode não residir apenas nos monstros biológicos, mas também nas formas extremas de organização humana que emergem do caos.

Ainda assim, o grande destaque do filme é inegavelmente Ralph Fiennes. Com um físico musculoso, aparência selvagem e um refinamento erudito nos gestos e na fala, o ator constrói um personagem profundamente ambíguo. Anos de isolamento daquilo que se convencionou chamar de civilização moldaram um caráter marcado por valores próprios de justiça, empatia e memória histórica. Sua atuação confere densidade emocional ao filme e transforma o médico do Templo dos Ossos na figura mais memoráveis de toda a franquia.

“O Templo dos Ossos” apresenta carnificina gráfica, violência ritualística e sacrifícios suficientes para satisfazer os fãs do terror mais visceral. No entanto, seus maiores prazeres residem menos no sangue derramado e mais na força dramática de seus personagens, especialmente na performance magistral de Fiennes. Cada minuto em que está em cena justifica atenção redobrada e confirma que, poucas vezes, o horror contemporâneo foi tão brutal e, ao mesmo tempo, tão humanamente perturbador.

Jorge Ghiorzi

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