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Coluna de Cinema – Edição 75

Coluna de Cinema – Edição 75
17 abril
00:42 2026

Maldição da Múmia: resgate do medo profundo

A chegada de “Maldição da Múmia” (Lee Cronin’s The Mummy) aos cinemas em 2026 marca uma mudança significativa para a filmografia de uma das figuras mais clássicas do panteão do terror. Sob a direção de Lee Cronin, cineasta que demonstrou vigor criativo em “A Morte do Demônio: A Ascensão” (sequência da franquia “Evil Dead”), o longa busca resgatar a essência do medo visceral. A trama acompanha uma família dilacerada pelo desaparecimento da filha no deserto. Oito anos após o sumiço, a jovem retorna misteriosamente e transforma o que deveria ser um reencontro em um pesadelo sobrenatural de terror e suspense. Enquanto os personagens tentam compreender a natureza desse retorno, a criatura se manifesta como uma força milenar implacável que subverte a ordem física e emocional ao seu redor.

A criatura apresentada nesta nova versão não é apenas uma figura ou um monstro terrível, pois ela vai muito além disso. Ela representa uma memória e um resgate de um tipo muito específico de entretenimento que remonta à versão clássica de Boris Karloff em 1932 e atingiu seu auge pop durante a era de Brendan Fraser na virada dos anos 2000. Se naquela época (início do século 21) o sucesso veio através de uma diversão pulp e camp, o caminho para este novo lançamento foi pavimentado também por desastres horripilantes. Um exemplo notável foi a tentativa desastrada de criar um universo cinematográfico chamado ‘Universo Sombrio’ com Tom Cruise, que fracassou miseravelmente em 2017.

A nova versão pilotada por Lee Cronin busca equilibrar essa herança ao adotar uma postura visualmente pragmática que, ao mesmo tempo que presta uma homenagem honesta aos seus antecessores, não se deixar paralisar pela nostalgia. O filme assume o risco consciente de uma revitalização temática profunda ao romper com o estigma da aventura de matinê para devolver à Múmia sua dignidade como símbolo absoluto da morte e do desconhecido. Se a versão de 1932 explorava o exotismo e a de 1999 abraçava o escapismo, o filme de 2026 reflete um niilismo contemporâneo onde o monstro atua como um espelho de medos sociais mais crus e inevitáveis.

Essa desconstrução da nostalgia é um movimento pedagógico arriscado, pois força o público a abandonar o conforto do aventuresco para enfrentar uma entidade que não aceita mais coexistir com a leveza. Não há como negar que o público que assiste a qualquer filme que contenha a palavra ‘Múmia’ no título possui expectativas construídas ao longo das décadas. Ignorar essas projeções totalmente seria perder uma conexão imediata com a audiência, de modo que o sucesso desta obra reside justamente na difícil equação de honrar a mitologia clássica enquanto a subverte brutalmente.

Apenas por ousar desafiar cânones, o filme já merece atenção especial. Os gêneros cinematográficos em geral, e especificamente o Terror, dependem de experiências de ruptura de tempos em tempos para que personagens icônicos saiam de uma zona de conforto e enfrentem sua própria previsibilidade. Um dos maiores desafios da Warner reside em convencer o público de que este longa não possui nenhuma relação com a série da concorrente Universal. Essa necessidade explica por que o nome do diretor aparece com frequência no título internacional, seguindo o modelo de associação direta popularizado por John Carpenter. No Brasil, optou-se pelo título de apelo imediato “Maldição da Múmia”, o que pode gerar confusão em um cenário onde a Universal também produz um quarto filme estrelado por Fraser. Quem buscar o espírito leve e cômico das produções do início do século certamente sairá frustrado da sessão.

Jorge Ghiorzi

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