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AVC em jovens: por que uma doença associada à velhice também preocupa adultos mais novos

AVC em jovens: por que uma doença associada à velhice também preocupa adultos mais novos
20 julho
17:11 2026

Durante décadas, o AVC foi amplamente associado ao envelhecimento, mas essa realidade vem mudando e especialistas observam um aumento de casos entre adultos jovens

A mensagem parecia comum. Uma conversa cotidiana pelo celular, uma troca de palavras entre familiares, uma rotina que seguia normalmente. Até que algo mudou. As frases passaram a perder o sentido e aquilo que parecia apenas uma distração revelou um sinal de emergência.

O familiar estranhou a mudança, procurou ajuda e descobriu que aquelas mensagens desconexas eram consequência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O episódio é lembrado pelo neurologista Luiz Augusto Lobato, do Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP), como um exemplo de que a doença pode se manifestar de formas nem sempre evidentes.

Durante décadas, o AVC foi amplamente associado ao envelhecimento. A imagem de um paciente idoso ainda domina o imaginário popular, mas essa realidade vem mudando. Especialistas observam um aumento de casos entre adultos jovens, tendência que também vem sendo registrada por estudos epidemiológicos, evidenciando que o AVC não está restrito aos idosos.

Para Lobato, essa percepção equivocada ainda contribui para atrasar o reconhecimento dos sintomas e, consequentemente, o início do tratamento.

“Existe ainda uma ideia de que AVC é uma doença de idoso, mas ele pode acontecer em qualquer faixa etária. O reconhecimento rápido dos sintomas é fundamental porque o tratamento depende diretamente do tempo.”

A rapidez com que o quadro se instala é uma das principais características da doença. Os sintomas costumam surgir de forma súbita, de uma hora para outra, sem explicação, característica que torna o reconhecimento rápido ainda mais importante.

“O AVC dá sintomas instantâneos. É algo que acontece de uma hora para outra, sem explicação.”

Entre as manifestações mais frequentes está a perda de força em um lado do corpo. O neurologista faz questão de diferenciar esse sintoma da sensação de cansaço ou fraqueza muscular.

“O paciente tenta levantar o braço ou a perna, mas esse membro simplesmente não obedece ao comando.”

Outro sinal frequente é a paralisia facial, percebida principalmente pelo desvio da boca. A comunicação também costuma ser afetada. Além da dificuldade para falar, algumas pessoas conseguem pronunciar as palavras normalmente, mas deixam de organizar frases com sentido ou compreender o que lhes é dito.

“Ela pode começar a dizer palavras sem sentido ou simplesmente parar de compreender aquilo que estamos falando.”

Foi justamente essa alteração que chamou a atenção da família no caso relatado por Lobato. Ao perceber que as mensagens enviadas haviam perdido completamente a lógica, o familiar procurou atendimento médico. O diagnóstico de AVC foi confirmado e o paciente foi encaminhado ao tratamento, evoluindo com reversão do quadro.

O tempo de atendimento influencia na recuperação

Nos casos de AVC isquêmico, o tipo mais frequente da doença, um coágulo interrompe a circulação sanguínea em uma artéria do cérebro, reduzindo o fornecimento de oxigênio às células cerebrais. A partir desse momento, o tempo passa a influenciar diretamente as possibilidades de recuperação.

O neurologista ressalta que o atendimento precoce aumenta significativamente as chances de evitar sequelas neurológicas.

“Quando se tem um atendimento rápido, é muito possível evitar sequelas neurológicas.”

Isso ocorre porque o tratamento trombolítico com alteplase, indicado para pacientes elegíveis com AVC isquêmico, apresenta benefício quando iniciado nas primeiras quatro horas e meia após o surgimento dos sintomas. O medicamento atua dissolvendo o coágulo que interrompe a circulação sanguínea no cérebro e restabelecendo o fluxo de sangue.

Chegar rapidamente ao hospital, porém, não basta. É necessário que o paciente seja encaminhado a um serviço com estrutura para realizar exames de imagem, especialmente a tomografia, indispensável para confirmar o diagnóstico e definir a conduta médica.

“Não adianta levar para um consultório ou para uma unidade que não tenha esse suporte. É preciso um local adequado para identificar o tipo de AVC e iniciar o tratamento”, explica Lobato.

Sem esse exame, não é possível determinar, por exemplo, se o paciente reúne os critérios para receber a medicação trombolítica, decisão que precisa ser tomada em um intervalo de tempo bastante restrito.

O perfil do AVC está mudando

Durante muito tempo, o AVC foi tratado como uma doença praticamente exclusiva da velhice. A idade continua sendo um dos principais fatores de risco, mas ela já não explica sozinha quem chega aos hospitais com esse diagnóstico.

Nos últimos anos, médicos passaram a observar um crescimento dos casos entre adultos jovens, uma percepção que deixou de ser apenas clínica e passou a ser confirmada por estudos brasileiros.

Uma pesquisa conduzida pelo neurologista Norberto Cabral, com base no registro populacional de Joinville (SC), mostrou que a incidência de AVC isquêmico em pessoas com menos de 45 anos aumentou 66% em apenas uma década. O dado acompanha uma tendência identificada em outros países e ajuda a explicar por que a doença passou a fazer parte das discussões sobre saúde também fora da terceira idade.

O cenário chama atenção porque o AVC continua sendo uma das principais causas de morte no país. Em 2025, quase 90 mil brasileiros morreram em consequência da doença, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil.

Mais do que idade, o risco está nos fatores que se acumulam

Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, excesso de peso, sedentarismo e tabagismo deixaram de ser condições observadas apenas entre idosos. Hoje, esses fatores aparecem cada vez mais cedo e, muitas vezes, permanecem sem diagnóstico ou controle adequado durante anos.

Para Lobato, esse é um dos motivos pelos quais o AVC passou a atingir um perfil mais amplo de pacientes. Embora a idade continue sendo um importante fator de risco, ela, por si só, não determina quem pode desenvolver a doença.

O médico observa que outro obstáculo é a demora para reconhecer os sintomas. Entre adultos mais jovens, essa dificuldade pode fazer com que manifestações iniciais sejam atribuídas ao estresse, ao cansaço ou a um mal-estar passageiro, retardando a procura por atendimento.

Nesse cenário, controlar doenças crônicas, manter uma rotina de atividade física, adotar uma alimentação equilibrada e evitar o tabagismo continuam sendo as principais medidas de prevenção. Mas, diante de uma suspeita de AVC, Lobato faz um alerta: esperar que os sintomas desapareçam espontaneamente pode reduzir as possibilidades de tratamento.

 

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