Diário da Manhã

domingo, 01 de agosto de 2021

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Audiência pública discute soluções para os pacientes oncológicos

Audiência pública discute soluções para os pacientes oncológicos
02 julho
09:14 2021

O momento foi de reflexão e debate para conhecer as ações das organizações e buscar soluções para os pacientes

“Pessoas com câncer não podem esperar”, destacou o presidente da Câmara Municipal de Pelotas, vereador Cristiano Silva (PSDB), Ele enfatizou que antes da pandemia, a doença era a segunda causa de morte entre os brasileiros, além de mencionar que muitos descobrem a doença de forma tardia. A fala encerrou, na noite de terça-feira (29), a audiência pública sobre a prevenção e controle do câncer e contou com a participação de representantes de organizações e órgãos públicos ligados à área da saúde de Pelotas. A audiência, proposta pelo vereador, foi realizada de forma on-line e transmitida pelo Facebook e pela TV Câmara, com duração de 2h36min.

“Vamos trabalhar forte em busca de soluções, sei que não vamos resolver tudo, mas com certeza vamos lutar para agilizar o atendimento oncológico”, salientou Silva, após mencionar que os principais problemas estão no diagnóstico precoce: acesso aos clínicos gerais nas Unidades Básicas de Saúde (UBS); em exames, tais como ultrassonografia, colonoscopia, endoscopia, mamografia e tomografia que estão em atraso; também nos procedimentos cirúrgicos com biópisias.

A secretária de Saúde do município, Roberta Paganini, falou das ações da secretaria e enfatizou que “a oncologia é prioridade nesta gestão”. Segundo ela, quando assumiu, em 2019, buscou diálogo com prestadores de serviços para medir sua capacidade operacional e garantir recursos financeiros para aumentar ofertas e em fevereiro de 2020, teve fim a fila de espera para início de tratamento, que voltou recentemente.

VEREADOR Cristiano Silva, presidente da Câmara

Gargalos

De acordo com a secretária, não há fila de espera para a primeira consulta com o oncologista, porém se o paciente necessitar de radioterapia, neste momento, a demanda existe devido o Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel) não ter ofertado agenda, em virtude de problema com equipamento. Segundo ela, imediatamente a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) negociou com a Santa Casa a ampliação da capacidade de oferta.

A secretária destacou a pandemia como agravante nos atrasos, citou como exemplo, os profissionais da pneumologia que foram direcionados para o atendimento Covid-19 e a fila de espera por cirurgias oncológicas, devido à falta de anestésicos no mercado. Mencionou também que a quantidade de atendimentos primários nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) foi prejudicada. Citou como motivo a reorganização do serviço que ficou em meio turno, já que durante a manhã o atendimento ficou direcionado para os pacientes com síndromes gripais.

“Nos exames de mamografia não tínhamos demanda reprimida e passamos a ter”, disse após garantir que não há fila para ressonâncias e que teria uma explicação para a demora no exame da paciente e representante das usuárias do SUS e do Grupo Juntas Somos Mais Fortes, Daiane Marques, que participou da audiência e declarou uma espera desde janeiro para o procedimento.

Angústia vivida pelos pacientes oncológicos

A paciente Daiane Marques, no início da audiência, relatou a angústia vivida por ela na espera por um exame para diagnóstico de possíveis sequelas ou metástases de um câncer. Segundo ela, desde 6 de janeiro aguarda pela realização de uma ressonância de crânio para saber se precisa ser submetida a uma cirurgia. “Câncer não é eletivo. Tudo é de muita urgência, o tempo para nós é muito precioso. Meu plano de saúde hoje é o SUS”, relatou, após manifestar “minha luta não é pessoal, luto pela minha sobrevida e de outros 500 pacientes que precisam de agilidade e por isso, peço um olhar diferenciado”, concluiu.

O coordenador do Conselho Municipal de Saúde, César Lima, relatou também a sua luta contra um câncer de intestino e que resultou em uma ostomia. Segundo ele, 100% dos pacientes deste tipo de câncer fazem uso da bolsa e de 60% a 70% vão a óbito. “O Conselho está junto nesta luta para que os pacientes não percam tempo em fila de espera por exames e cirurgia”, enfatizou ele, após salientar a importância dos conselheiros na garantia dos direitos dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Entidades de Combate ao Câncer

O coordenador da Aapecan Metade Sul, Fabiano Gerbaudo, salientou a importância da prevenção. “Muitos chegam até nós com quadro avançado, pelo fato de não buscar atendimento antecipado”, disse ele. A associação registou mais de 250 famílias cadastradas, apenas neste período da pandemia. “O diagnóstico precoce traz grandes chances de cura”, destacou Gerbaudo. A Casa de Apoio funciona de segunda a sexta-feira durante 24h e oferece hospedagem, refeições e transporte para o tratamento de pacientes e familiares de outros municípios que não têm onde ficar.

Outra entidade que auxilia mulheres com câncer de mama é o Instituto Buquê do Amor (IBA), que teve a participação da coordenadora Janice Santos, que contou um pouco sobre o trabalho realizado. “Acolhemos mulheres já com diagnóstico”, disse. Ela avalia este momento de pandemia como crítico. “A pandemia não deu trégua para o câncer, nem o de mama ou de qualquer outro tipo”, salienta. Segundo ela, entre as dificuldades está o diagnóstico e o acesso ao clínico geral, que é a porta de entrada para o atendimento. Além disso, as cirurgias não estão acontecendo. Um dado preocupante, segundo ela, é que em 2020 diminuiu a procura por mamografias. “Até outubro foram registrados 100 atendimentos, quando no ano anterior foram 700. A pandemia se tornou também uma pandemia oncológica”, ressaltou ela.

Instituições de Tratamento ao Câncer

As instituições que atuam no tratamento de pacientes estiveram representadas na audiência e explanaram sobre o acesso ao serviço e principais dificuldades enfrentadas. O médico oncologista e representante do Ceron, Gustavo Zerwes, falou sobre a parte final da cadeia, que é o tratamento quimioterápico pós-cirurgia. Ele também destacou a demora nos exames diagnósticos como a ressonância e a dificuldade no agendamento de cirurgias em algumas especialidades, como a Urologia, por exemplo. “A demora, além de diminuir a expectativa e qualidade de vida ao paciente acarretam em custos mais elevados para o sistema”, destacou.

Já a diretora da Faculdade de Medicina (Famed) e coordenadora da Unidade Cuidativa da UFPel, médica paliativista Julieta Fripp, destacou a necessidade das diversas instituições se integrarem através de uma rede de cuidados. Iniciou sua fala citando a Portaria 875, de maio de 2013, do Ministério da Saúde, que institui as linhas de cuidado e prevenção do câncer na rede das doenças crônicas. “Cada uma destas linhas importam! A prevenção é fundamental, mas as pessoas precisam ter acesso ao diagnóstico”, apontou ela ao destacar a importância das leis federais 12.732 de 2012 e 13.896 de 2019, que determinam o prazo de 60 dias para início do tratamento, a partir da assinatura do laudo e o prazo de 30 dias para realização de exames para o diagnóstico. A proposição para regulamentação destas leis foi encaminhada a prefeitura, através do vereador Cristiano Silva (PSDB).

Outro depoimento foi da médica oncologista, representante do Serviço de Oncologia do Hospital Escola (HE) UFPel, Cristiane Rios Petrarca. Segundo ela, o paciente quando chega na oncologia normalmente já está diagnosticado. “Os pacientes no ambulatório são atendidos rapidamente e tratados num tempo muito menor do que os estabelecidos em lei”, garante ela. Na audiência identificou-se que a dificuldade está no acesso ao diagnóstico precoce, antes de chegar ao oncologista e pela falta de exames e consultas especializadas.

Medidas

Para sanar o problema das cirurgias eletivas e biópsias, a secretária de saúde acenou  possível realização de mutirões cirúrgicos. Com relação ao atendimento na UBS, ela sinalizou a contratação de mais profissionais. “Aumentamos o valor da hora de R$ 50,00 para R$ 80,00, no entanto, até agora não se conseguiu nenhum médico a mais”, apontou ela.

A chefe da divisão de Apoio Terapêutico da UFPel, a enfermeira Jaqueline Bicca, representou a reitoria da UFPel e garantiu a retomada do atendimento de Radioterapia a partir desta quarta-feira (30). “O serviço ficou fechado por três meses, devido à necessidade de validação e certificação de equipamentos”, disse Bicca.

Quanto ao atendimento do mamamóvel, ela salienta que o equipamento necessário para revelar as mamografias está estragado. A instituição possui um outro que acabou indo para a unidade Covid e que já está de volta na Famed. “Em junho foram liberadas 360  mamografias ao mês e a partir de julho 600 serão realizadas para acabar com a fila que se formou”, garante ela. Segundo informações apresentadas na audiência, 3.382 pessoas estão aguardando pelo exame.

Participaram da audiência os vereadores Jair Bonow (PP), Marisa Schwarzer (PSB), Miriam Marroni (PT) e Jurandir Silva (PSOL). Estiveram presentes também, a diretora da Atenção Especializada e Hospitalar Renata Gelain e a apoiadora das Redes Temáticas Cristina Vetromila.

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