Diário da Manhã

Notícias

Coluna de Cinema – Edição 88

Coluna de Cinema – Edição 88
31 julho
00:08 2026

Homem-Aranha – Um Novo Dia: crise de identidade

Atualmente nas telas do cinema em todo o mundo interpretando Telêmaco, o filho de Odisseu no épico “A Odisseia”, de Christopher Nolan, o ator Tom Holland chega para concorrer consigo mesmo interpretando sua identidade secreta no universo dos super-heróis: o Homem-Aranha. Após seis participações oficiais no Universo Marvel interpretando Peter Parker e o Homem-Aranha, Tom Holland se apresenta para mais um episódio da franquia do mascarado aracnídeo no cinema.

Desta vez, em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (Spider-Man: Brand New Day), Peter Parker transformou-se em um implacável combatente do crime, viciado no trabalho e profundamente isolado. Instalado em um apartamento decadente no sótão de Nova York, ele vive recluso e cercado por telas de computador, focado exclusivamente no aprimoramento de suas habilidades em uma cruzada solitária. A trama serve como um desdobramento direto do filme anterior, “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” (2021). No encerramento daquela aventura, o herói recorreu aos poderes do Doutor Estranho para apagar da memória coletiva o conhecimento de sua identidade secreta. Desse modo, Peter Parker retorna ao ponto de partida, renascido para uma nova fase. Para a longevidade de uma franquia, trata-se de um movimento engenhoso que simula um recomeço puro, permitindo recontar velhas dinâmicas sob uma roupagem repaginada.

No centro da história, a narrativa acompanha Peter tentando sobreviver por conta própria após perder todas as suas conexões afetivas e institucionais. Sem dinheiro, sem apoio de figuras influentes e sem que sua antiga paixão, MJ, interpretada por Zendaya, lembre-se dele, o herói lida com uma dolorosa crise de identidade. Enquanto tenta equilibrar sua rotina de vigilante solitário, uma onda de crimes organizada por novos perigos o obriga a sair de sua toca.

Para tentar conter essa escalada de violência, o protagonista acaba cruzando o caminho de velhos conhecidos que expandem o MCU, a sigla em inglês para o Universo Cinematográfico da Marvel, que define o vasto universo interligado de produções dos estúdios. O filme traz participações de peso no elenco, como Mark Ruffalo reprisando seu papel como Bruce Banner ou o Hulk para orientar o jovem herói, além da introdução de figuras como Jon Bernthal na pele do Justiceiro e uma nova personagem misteriosa vivida por Sadie Sink, cujas presenças desafiam os métodos e a moralidade do Homem-Aranha em meio a confrontos intensos nas ruas e nos arranha-céus de Nova York.

Sob a direção de Destin Daniel Cretton, o projeto assume a ambição de erguer um filme de super-herói dotado de uma camada mais reflexiva, humana e madura. No entanto, ao concentrar suas energias nesse mergulho psicológico, a obra tropeça em um paradoxo incômodo. Ao priorizar o tom intimista e a densidade dramática, o longa por vezes afasta-se da energia dinâmica que sustenta esse formato cinematográfico. Afinal, antes de qualquer pretensão autoral ou estética, o público busca o entretenimento escapista como motor primário da experiência nas salas escuras.

Com o avanço da projeção, a aventura entrega sequências de ação vertiginosa, conflitos internos agudos e o choque contra antagonistas formidáveis. Apesar de contar com momentos genuinamente divertidos, o roteiro escorrega ao adotar uma estrutura excessivamente episódica e uma duração dilatada sem justificativa sólida (quase 2 horas e meia), alternando picos de interesse com trechos arrastados. A experiência cinematográfica cumpre seu papel de divertir no momento da exibição, mas falha em deixar marcas duradouras na memória afetiva do espectador após os créditos finais.

Jorge Ghiorzi

jghiorzi@gmail.com

Notícias Relacionadas

Comentários ()

Seções