Em audiência pública, deputados propõem federalização do caso da morte do agricultor Marcos Nörnberg
Um clima forte de comoção tomou conta da Câmara de Vereadores de Pelotas, na tarde desta segunda-feira (30), durante uma audiência pública para debater as circunstâncias da morte do agricultor Marcos Nörnberg, durante uma operação policial.
A audiência foi promovida pela Comissão de Cidadania e Direitos Humanos (CCDH), em conjunto com a Comissão de Segurança, Serviços Públicos e Modernização do Estado (CSSP) da Assembleia Legislativa e reuniu familiares, autoridades e representantes de instituições.
O caso ganhou grande repercussão após a morte de Marcos Nörnberg, de 48 anos, atingido a tiros dentro da própria casa durante uma ação da Brigada Militar do Rio Grande do Sul na madrugada de quinta-feira (15/01), na zona rural de Pelotas. A operação mobilizou 18 policiais e foi desencadeada a partir de uma informação falsa, fornecida por criminosos presos no Paraná, de que a propriedade seria esconderijo de uma quadrilha. Segundo relatos da família, a ação ocorreu sem identificação clara, levando o agricultor a acreditar que se tratava de uma invasão criminosa.

Raquel Nörnberg, viúva de Marcos Nörnberg, e o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT), em audiência pública realizada na tarde desta segunda-feira (30).
Na condição de presidente da CCDH, o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT) conduziu os trabalhos e fez duras críticas à atuação do Estado no caso. “Um crime cometido pelo Estado é inaceitável, tem um peso ainda maior. É uma brutalidade. Na minha opinião, foi uma operação sem nenhum protocolo ou preparo. Estamos aqui para ouvir a Raquel, mas também para pressionar por esse relatório, que há muito já era para ter saído. É inaceitável. Queremos justiça, queremos saber de onde veio a ordem para esse crime tão brutal”, afirmou.
Reforçando a cobrança por responsabilização, o deputado estadual Zé Nunes (PT) também defendeu medidas mais duras para garantir a apuração do caso. “Nós temos que federalizar esse caso. Se for preciso falar com o ministro da Justiça, nós vamos, temos condições para isso. E fica o recado para quem estiver fazendo esse relatório: que não venham com essa conversa de legítima defesa”, declarou.
Adão Pretto Filho ainda sinalizou que, a depender do andamento das investigações, poderá solicitar a federalização do caso junto à Procuradoria-Geral da República, buscando garantir isenção e celeridade na apuração.
Um dos momentos mais marcantes da audiência foi o relato da viúva, Raquel Nörnberg, que falou de forma emocionada sobre a noite da operação e as consequências que se seguiram. “Você imagina tudo, menos o que aconteceu. Quando vimos, tinha lanternas na nossa propriedade. Achávamos que eram bandidos. Meu marido morreu achando que eram bandidos. Depois daquilo, eu fui tratada como a mulher de um bandido”, disse. Ela também denunciou ter sido torturada pelos agentes, sendo obrigada a ficar de joelhos sobre cacos de vidro, e relatou que não recebeu atendimento da equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Raquel cobrou uma investigação rigorosa e responsabilização dos envolvidos.
Durante a audiência, foi registrado que tanto o Ministério Público do Rio Grande do Sul quanto o governo do Estado foram convidados, mas não enviaram representantes, o que foi criticado por participantes como sinal de descaso diante da gravidade do caso.
Representando a Defensoria Pública, um dos encaminhamentos destacados foi a necessidade de ampliação do uso de câmeras corporais por policiais em todo o estado — medida que, atualmente, ainda não é adotada de forma ampla no Rio Grande do Sul. Segundo o órgão, a utilização dos equipamentos é fundamental para garantir transparência, proteger a população e também os próprios agentes de segurança.
Como encaminhamentos da audiência, foi solicitado pedido de urgência na divulgação do relatório oficial sobre a operação. Parlamentares também alertaram que, caso o documento apresente fragilidades, o debate será aprofundado com novas medidas e apurações. Além disso, foi reforçada a necessidade de ampliação da proteção a Raquel Nörnberg e seus familiares, na condição de testemunhas, diante da gravidade das denúncias apresentadas.
Foto: Paulo Roberto Silva







