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Hospital Universitário São Francisco de Paula integra pesquisa nacional do INCA

Hospital Universitário São Francisco de Paula integra pesquisa nacional do INCA
03 agosto
13:46 2026

Pesquisa coordenada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), em parceria com a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) e a Coorte de Pelotas (UFPel) investiga o aumento do câncer colorretal em adultos mais jovens

Durante décadas, o câncer de intestino grosso (cólon e reto) foi considerado uma doença típica do envelhecimento. A maioria dos diagnósticos ocorria após os 60 anos, realidade que orientou recomendações para rastreamento, estratégias de prevenção e a própria percepção sobre quem estaria mais exposto ao risco. Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar. Em diferentes países, pesquisadores passaram a registrar um aumento consistente de casos entre adultos com menos de 50 anos, fenômeno ainda sem explicação definitiva e que hoje ocupa lugar central nas discussões da oncologia.

O crescimento não pode ser atribuído apenas à ampliação do acesso aos exames. Embora a colonoscopia tenha permitido identificar lesões que antes permaneciam ocultas, os dados epidemiológicos mostram que mais pessoas estão, de fato, desenvolvendo a doença.

“Isso é real”, afirma a médica Simone Guaraldi (foto acima), pesquisadora do Programa de Carcinogênese Molecular do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Segundo a especialista, a evolução dos métodos diagnósticos explica apenas parte desse aumento. “Quando uma doença cresce, a primeira pergunta que fazemos é: por quê?”

Foi em busca dessa resposta que Guaraldi retornou a Pelotas para acompanhar mais uma etapa do estudo coordenado pelo INCA em parceria com a Coorte de Pelotas, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), uma das mais importantes pesquisas epidemiológicas em andamento no país. Inserida em uma colaboração científica internacional, a investigação procura identificar os mecanismos biológicos e ambientais envolvidos no desenvolvimento do câncer de intestino e descobrir de que maneira essas alterações podem ser reconhecidas antes mesmo do aparecimento dos primeiros sintomas.

Uma etapa decisiva desse trabalho ocorre no Hospital Universitário São Francisco de Paula. É na instituição que são realizadas as colonoscopias dos participantes selecionados para o estudo, procedimento que possibilita identificar lesões precursoras, remover pólipos quando necessário e coletar amostras destinadas às análises clínicas, histopatológicas e moleculares conduzidas pela equipe de pesquisadores.

Na passagem por Pelotas, a pesquisadora destacou a estrutura oferecida pelo Hospital Universitário São Francisco de Paula e o comprometimento das equipes envolvidas. Na avaliação da especialista, investigações dessa complexidade dependem da integração entre assistência, ensino e produção científica, além do rigor técnico empregado em todas as fases da coleta de dados.

A importância desse esforço também aparece nas projeções nacionais. Segundo a Estimativa de Incidência de Câncer 2026–2028, publicada pelo INCA, o Brasil deverá registrar cerca de 53,8 mil novos casos de câncer de cólon e reto por ano, sendo 26.270 entre homens e 27.540 entre mulheres. O levantamento coloca a doença entre as mais incidentes do país e destaca seu elevado potencial de prevenção e detecção precoce, além de evidenciar diferenças regionais relacionadas às condições socioeconômicas, aos hábitos de vida, ao ambiente e ao acesso aos serviços de saúde.

Mais do que dimensionar o problema, esses números ajudam a explicar por que grupos de pesquisa espalhados pelo mundo passaram a concentrar esforços na mesma questão levantada por Guaraldi: o que mudou para que um câncer historicamente associado ao envelhecimento passasse a surgir com frequência crescente entre adultos mais jovens?

Encontrar a resposta para essa pergunta significa voltar muitos anos antes do diagnóstico. Ao contrário do que costuma sugerir o senso comum, o câncer de intestino não surge de forma repentina. Entre a primeira alteração em uma célula e o aparecimento dos sintomas existe um processo que pode levar anos, marcado pelo acúmulo de modificações genéticas, influências ambientais e hábitos de vida capazes de alterar progressivamente o funcionamento do organismo. É essa sequência de eventos, conhecida como carcinogênese, que hoje concentra parte expressiva das pesquisas em oncologia.

“O aumento dos casos chama a atenção do mundo inteiro”, observa Guaraldi. “Quando isso acontece, precisamos entender por quê.”

Segundo a pesquisadora, não existe uma explicação única para o crescimento da incidência entre adultos mais jovens. A ciência trabalha com diferentes hipóteses, que incluem mudanças no padrão alimentar, aumento da obesidade, sedentarismo, diabetes, consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo e doenças inflamatórias intestinais. Nenhum desses elementos, entretanto, é suficiente para explicar sozinho o fenômeno. O desafio está em compreender de que maneira essas condições interagem com a predisposição genética e favorecem o desenvolvimento da doença ao longo da vida.

Essa mudança de perspectiva transformou também a forma como os cientistas investigam o câncer. Se durante décadas o foco esteve concentrado no aperfeiçoamento de cirurgias, medicamentos e outras modalidades de tratamento, hoje boa parte dos esforços busca responder a uma questão anterior: quais transformações ocorrem nas células muito antes de o tumor existir?

Foi nesse contexto que ganharam relevância as chamadas assinaturas mutacionais, padrões deixados no DNA pelas diferentes agressões sofridas pelo organismo ao longo da vida. Durante a entrevista, Guaraldi recorreu a um exemplo simples para explicar o conceito. Quando uma análise identifica uma assinatura característica da exposição ao tabaco, por exemplo, é possível reconhecer que aquele tumor guarda marcas biológicas associadas ao cigarro, mesmo sem conhecer o histórico do paciente.

Essas “impressões digitais” moleculares tornaram-se uma das principais ferramentas para investigar a origem do câncer. A identificação desses padrões permite reconstruir parte da história da doença e compreender como diferentes exposições, ambientais ou comportamentais, deixam registros permanentes no material genético.

Embora a investigação tenha como foco o câncer de intestino, ela integra uma rede internacional dedicada a compreender como diferentes tumores se desenvolvem. A estratégia segue a mesma lógica de grandes iniciativas colaborativas, como o Mutographs, estudo internacional do qual Guaraldi participou e que contribuiu para ampliar o conhecimento sobre as chamadas assinaturas mutacionais, marcas deixadas no DNA por diferentes exposições ao longo da vida.

As amostras obtidas nas colonoscopias realizadas no Hospital Universitário São Francisco de Paula seguem inicialmente para o INCA, onde são analisadas pelo Programa de Carcinogênese Molecular, coordenado por Luis Felipe Ribeiro Pinto. Em seguida, passam pela IARC, na França, sob a coordenação de Paul Brennan, e posteriormente chegam ao Wellcome Sanger Institute, no Reino Unido, onde são submetidas a análises genômicas conduzidas pela equipe liderada por Sir Michael Stratton. O percurso conecta a coleta realizada em a uma das mais importantes redes internacionais de pesquisa em câncer.

A inserção do Hospital nessa rede científica depende da qualidade das informações produzidas em cada etapa do estudo. A equipe participa da construção de um banco de dados que permitirá acompanhar a evolução da doença e compreender como fatores genéticos, ambientais e comportamentais se combinam ao longo da vida para favorecer o aparecimento do câncer.

Para o médico endoscopista Lysandro Nader (foto acima), responsável técnico pelo Serviço de Endoscopia Digestiva, integrar uma pesquisa dessa dimensão significa colocar a assistência prestada pelo hospital a serviço da produção de conhecimento.

“Mais do que realizar exames, temos a oportunidade de contribuir para a construção de evidências científicas. Pesquisas como essa ampliam o conhecimento sobre o câncer e podem orientar estratégias que beneficiem milhares de pessoas no futuro.”

Enquanto a ciência busca explicar por que o câncer de intestino tem sido diagnosticado cada vez mais cedo, parte das estratégias para reduzir o impacto da doença já está bem estabelecida. A principal delas é o rastreamento por colonoscopia, capaz de identificar lesões precursoras e removê-las antes que evoluam para um tumor.

Atualmente, pessoas sem fatores adicionais de risco devem realizar o primeiro exame aos 45 anos, mesmo na ausência de sintomas. A recomendação, adotada pelas principais sociedades médicas, reflete justamente a mudança no perfil epidemiológico observada nas últimas décadas.

Na entrevista, Guaraldi chamou atenção para um dos principais obstáculos ao diagnóstico precoce: a ideia, ainda bastante disseminada, de que a colonoscopia só é necessária quando surgem sinais da doença.

“Essa informação precisa chegar à população. Não adianta pensar: ‘Eu não sinto nada, então não preciso fazer o exame’. É exatamente por isso que ele deve ser feito.”

Em algumas situações, no entanto, a investigação precisa começar mais cedo. Pessoas com doenças inflamatórias intestinais, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, apresentam risco aumentado e necessitam de acompanhamento individualizado.

Ao longo da conversa, Guaraldi insistiu que um dos maiores desafios da oncologia não é apenas produzir conhecimento, mas fazer com que ele alcance quem mais precisa.

“O que adianta a gente conversar sobre coisas técnicas se isso não chega ao paciente?”

A observação sintetiza um desafio que vai além dos laboratórios. Enquanto pesquisadores buscam esclarecer por que o câncer de intestino mudou de comportamento e passou a atingir um número crescente de adultos mais jovens, medidas capazes de reduzir seu impacto já estão disponíveis. Ampliar o acesso ao rastreamento, reconhecer precocemente os sinais de alerta e transformar evidências científicas em informação acessível continuam sendo as ferramentas mais eficazes para diminuir a mortalidade da doença e aproximar a pesquisa da prática clínica.

 

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