Diário da Manhã

segunda, 17 de janeiro de 2022

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COLECIONADOR E VENDEDOR : “Camisas fazem parte da minha terapia”

14 janeiro
10:23 2022

Conheça a história de Rérinton, que buscou na coleção de camisas a valorização do passado e a superação em períodos difíceis

Por: Henrique König

Muitas coisas na vida ocorrem de forma inesperada. A paixão de Rérinton Joabél Pires de Oliveira pelas camisas de futebol existia, mas foi um grande achado em 2016 que o impulsionou a um nível maior para sua coleção.

Rérinton trabalha com assistência técnica para agricultores nos estados do Sul. “Naquela noite, estava em Dom Pedrito, saí para jantar e, como sou apaixonado por camisa de futebol, parei diante de uma lojinha para ver a vitrine. Vi uma camisa do Chile nos fundos da loja. Trabalhei só pensando naquela camisa, fui à loja no fim do dia e descobri um estoque dos anos 90.”

A vontade foi muito grande e o colecionador usou suas economias da época para adquirir os itens. “Não sei ao certo quantas peças, mas foram camisas e calções, principalmente de São Paulo, Vasco, Grêmio e Corinthians (Penalty), Palmeiras e Seleção Chilena (Rhumell), Santos (Amddma), Seleção de Vôlei (Asics), Juventus e Barcelona (Kappa). A maior parte era de material entre 94 e 98, com exceção de umas do Internacional (Topper), do início dos 2000. Foram por volta de 120 peças.” Uma das raridades adquiridas foram calções do Grêmio, no uniforme chamado Negresco, que já foram vendidos.

A sorte bateu à porta naquela viagem. Não fosse o olhar atento e o coração apaixonado pelo futebol, a oportunidade teria passado. “De acordo com o dono da loja, a cidade bombava nos anos 90, mas teve um grande declínio em função do fechamento dos Frigoríficos Swift Armour e o estoque acabou parado”, conta sobre a surpresa, pois certamente não esperava encontrar o estoque em Dom Pedrito. “Sou um garimpeiro de camisas antigas. Acredito que a sensação é semelhante a um trabalhador de garimpo que encontra uma pepita de ouro. Uma felicidade imensa. Eu queria ver tudo, pegar tudo. Acabei usando todas as minhas reservas e mais um pouco no cartão de crédito.”

Rérinton e família | Loja Shonoka Classic Shirts (@ShonokaClassicShirts) está no Instagram e no Facebook, com diversas opções de times locais, do Brasil e do mundo

Natural de Canguçu, a história de Rérinton com as camisas começou em Pelotas, cidade onde ainda vive, no bairro Fragata. “Em 9 de maio de 2014, eu vi uma camisa em um brechó perto do Camelódromo. Entrei na loja e comprei duas camisas do Grêmio (1995 e 2001) e uma do Coritiba, campeão brasileiro de 1985. Foram os primeiros itens da minha coleção. Em 13 de maio, meu pai infartou e faleceu. Eu era muito apegado a ele, como sou muito apegado à minha mãe. Me agarrei à coleção de camisas antigas para superar a perda.”

NEGÓCIOS – A loja no Instagram é a Shonoka Classic Shirts (@shonokaclassicshirts). “Veio no início da pandemia. Foi uma forma que encontrei para superar o isolamento em casa e ajudar outros nostálgicos a encontrar camisas que trazem boas lembranças. Como podem perceber, as camisas fazem parte da minha terapia.”

Conforme outras coleções, as camisas representam muito mais do que o material. Estão repletas de subjetividade, de lembranças, de histórias, da beleza nos traços, na criatividade de listras, detalhes, mangas e golas. Afinal de contas, quando um jogador, ou muito mais habitualmente um torcedor, beija o símbolo na camisa, não está beijando uma simples fração de tecido.

Gremista confesso e fanático por influência do pai, o dono da Shonoka Classic Shirts hoje trabalha com variedades: “coleciono do Grêmio desde 2014, mas sempre peguei outras camisas que achava legal para escambo. O meu foco é futebol, mas, nos anos 90, um dos requisitos para participar da Liga Mundial de Vôlei era ter transmissão dos jogos em TV aberta. A Globo passava o Brasil e isso fez com que o brasileiro se apaixonasse também pelo esporte. Ainda tenho seis dessas camisas de Vôlei”.

Colecionador exibe suas camisas do Tricolor de Porto Alegre

Em contato com outros vendedores, o canguçuense diversifica sua coleção: “Aqui eu acabo adquirindo camisas do trio Bra-Far-Pel, comercializadas com colecionadores do país todo. Ultimamente adquiri umas camisas muito legais do Brasil, utilizadas nas conquistas das Copas Cidade de Porto Alegre e Cléber Furtado, as quais comercializei a maioria para colecionadores do centro do país, divulgando o futebol local. É um trabalho nostálgico, que resgata a história, pois a história de cada clube é contada pela sua camisa.”

DM: Hoje tens um acervo de peças dos anos 90 e início dos 2000. Como tu avalias essas camisas? Era outro estilo em relação às atuais.

SHONOKA: No início dos anos 90 foi uma quebra de paradigma nas camisas de futebol. Até então essas camisas eram vendidas por jogadores e membros de comissão técnica. No final dos anos 80 e início dos anos 90, o comércio de camisas se consolidou. Foi o período da minha adolescência. Eu via aquelas camisas lindas do futebol europeu, a camisa carijó do Bragantino campeão paulista de 1990 e vice-campeão brasileiro de 1991, a tricolor do Grêmio de 1996, a mais vendida no mundo, os calções Amddma do Santos de 1995, e não podia comprar. Hoje eu posso, vou atrás e levo para outros colecionadores. É um trabalho de garimpo, o que me traz satisfação e felicidade ao pegar cada camisa. Hoje além das camisas já publicadas, eu possuo por volta de 100 camisas devidamente higienizadas e fotografadas, e outras 30 camisas que devem estar chegando na próxima semana.

DM: Depois de entrar no ramo das vendas, acredito que tenhas contato com outros vendedores. Como está sendo essa experiência?

SHONOKA: É uma experiência legal, muitos deles compram as minhas camisas, com outros trocamos várias ideias. Embora seja um comércio, não nos tratamos como concorrentes e sim como amigos. Aqui em Pelotas temos dois vendedores muito fortes que são o Willian Camisas e o Henrique Jorge, que fazem um trabalho muito sério e competente.

DM: Creio ser um ramo em crescimento. Quando eu era pequeno só via pessoas ligadas direto ao futebol colecionarem. Profissionais da bola, dono de restaurante, de hotel. Mas hoje não. Como tu vês esse mercado e essa procura das pessoas hoje?

SHONOKA: É um mercado que se expandiu durante a pandemia. As camisas valorizaram. Acredito que se deu pelo fato das pessoas estarem em casa, sem gastos com festas e acabaram utilizando esse excedente para aumentar as coleções. Nesse momento de retomada das festas e virada de ano, eu esperava uma grande diminuição na venda de camisas, mas não é o que está ocorrendo. Vendi acima da média na segunda quinzena de dezembro e início de 2022.

DM: E quais seus próximos objetivos: alguma camisa em especial? Só expandir as vendas?

SHONOKA: Eu tenho algumas camisas do Grêmio da década de 80 que quero adquirir, que são as de 1980, 83 e 84, para fechar a década. Quanto à Shonoka Classic Shirts, estou deixando andar para ver até onde vai. É provável que, em algum momento, eu tenha que escolher entre as camisas e a agronomia.

Hoje com 40 anos, Rérinton é Engenheiro Agrônomo, com Mestrado em Fisiologia Vegetal e Doutorado em Sistema de Produções Agrícolas Familiares.

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