Diário da Manhã

sábado, 27 de fevereiro de 2021

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LIVRO : Pesquisador Tarcis Prado Jr. desconstrói Sergio Moro como exemplo de herói

23 dezembro
09:11 2020

Por Carlos Cogoy

Há dois anos é aguardado o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a suspeição do então juiz Sérgio Moro. Enquanto é protelada a decisão, que tem como origem, logo após eleição presidencial de 2018, a troca da toga pelo gabinete do Ministério da Justiça, Moro prossegue surpreendendo. Após deixar a equipe de Bolsonaro em abril, encerrando o período pífio de dezesseis meses como ministro, ao fim de novembro ele voltou a ser notícia, pois anunciou o novo emprego: consultoria Alvarez & Marsal, que judicialmente administra a Odebrecht. Curiosamente, uma das empresas mais atingidas pelas etapas e delações da Lava Jato, operação que era conduzida pelo então juiz de primeira instância Sérgio Moro. A Odebrecht e outras gigantes da construção desmoronaram, e o País mergulhou numa aventura ultraliberal, com reformas que contribuíram para quase 15% de desempregados na população. Como requinte de crueldade, um presidente da República com déficit cognitivo, que flerta com o fascismo. Mas, para que o Brasil diariamente vivenciasse as bizarrices do governo empossado no começo de 2019, o paranaense Sérgio Moro foi fundamental. Seu trabalho na magistratura, em diferentes ocasiões, atropelou princípios jurídicos. E, como escudo que o protegia de advertência, remoção ou sanção, onipresença na grande mídia. Esse “pacto” que blindava Moro, motivou a pesquisa do professor Tarcis Prado Junior. Doutor em comunicação e linguagens, e docente universitário no Paraná, neste ano ele lançou o livro “Moro – O herói construído pela mídia” (218 páginas), e publicado pela Kotter Editorial.

Autor Tarcis Prado Junior

IMAGINÁRIO – Para o trabalho, o autor baseou-se em matérias publicadas pelo tradicional jornal paranaense Gazeta do Povo. Tarcis analisou seis matérias: “16 de Março de 2016: o dia que o governo Dilma ruiu”; “Manifestação em frente à Justiça Federal em Curitiba teve clima festivo”; “Dilma está na mira de Sérgio Moro, mas ainda pode escapar”; “Artistas parabenizam Moro pela condenação de Lula”; “Julgamento de Lula mostra que TRF-4 está ‘fechado’ com Moro e a Lava Jato; Moro manda prender Lula no processo do tríplex”. Trecho da reflexão de Tarcis: “O imaginário submeteu seus jornalistas aos auspícios do clima hagiográfico da capital paranaense ao colocar o juiz Moro sempre como o imaculado. Se existe algo contra o magistrado, isso é tratado em segundo plano e com mil e uma coletas de depoimentos que reforcem as qualidades do juiz. Como já dissemos no início deste trabalho, é bem possível até que o próprio Moro não dê importância para sua emulação midiática, mas é certo, porém, que não faça nada para impedi-la. É o herói blasé”. Como referências para o trabalho crítico, o professor recorre a autores como o gaúcho Juremir Machado da Silva, e os franceses Michel Maffesoli, Edgar Morin, Gilbert Durand (1921/2012), Gaston Bachelard (1884/1962).

CONTRAPONTO – No capítulo “Mas os seus não o receberam: 3 vezes não ao herói Moro”, Tarcis analisa matérias sobre Moro em veículos alternativos: “Sérgio Moro divulgou grampo ilegal de Dilma” no Brasil 247; “Imprensa mundial condena impeachment de Dilma” no Brasil de Fato; “Moro remete grampo ilegal para Globo ao invés do STF”, denuncia Gleisi Hoffmann no “Blog do Esmael”. O pesquisador avalia: “As vozes do Brasil 247, Brasil de Fato e Blog do Esmael soaram como sibilos na tentativa da busca de oxigênio por desvelar e trazer à superfície o que estava escondido sob o assentamento do (quase) monopólio da narrativa midiática vigente. (…) A resistência destas publicações ganha contornos ainda mais heroicos quando percebemos o grande tsunami imaginário do conservadorismo varrendo as redações país afora”.

HERÓI – Dois autores são essenciais na explanação, que abre a obra, e enfoca sobre a interpretação dos mitos e heróis. O pesquisador menciona as teorias e estudos dos norte-americanos Joseph Campbell (1904/1987), e Thomas Bunfinch (1796/1867). O autor adapta a “Jornada de Moro (pela mídia” em nove etapas da Jornada do Herói de Campbell. No último estágio, que significa “Para o triunfo do herói ser completo”, Tarcis acrescenta em relação a Moro: “A divulgação do áudio do ex-presidente Lula e a ex-presidente Dilma e a posterior prisão de Lula configuram o triunfo do juiz federal”.

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